quinta-feira, 16 de abril de 2026

Master: Vingança do STF contra relator da CPI pode cobrar um preço alto em 2027

 


O Supremo Tribunal Federal (STF) pegou em armas contra o relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira (MDB-SE), que, no texto final apresentado nesta semana, propôs o indiciamento por crime de responsabilidade dos ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusados de desonrar as funções que ocupam por causa do Banco Master.

Enquanto Vieira lia o relatório no Senado Federal, no Supremo Gilmar o acusava de cometer um “erro histórico” e de se esquecer de mencionar “os amigos milicianos”. Toffoli, por sua vez, classificou a proposta como abuso de poder que deveria levar à inelegibilidade do senador. No dia seguinte, Gilmar pediu a Gonet para investigá-lo, iniciando a escalada da vingança típica de alguns supremos quando se veem acuados.

Pode-se e deve-se questionar se foi correto Vieira indiciar os ministros ao final de uma CPI que se destinava a investigar a criminalidade organizada do tráfico, da milícia e do contrabando. Também faz todo sentido criticar o fato de os únicos indiciados terem sido eles, e não os marcolas e fernandinhos-beira-mar da vida.

Parece evidente ainda que o senador, defensor veemente de que é preciso responsabilizar os ministros do Supremo por seus desmandos, aproveitou a única chance que teria para isso, já que a blindagem master construída em torno deles inviabilizou a investigação.

Espinafrar Vieira, portanto, é do jogo. Acusá-lo de abuso de autoridade, não.

Nos cinco meses de funcionamento da comissão, ele agiu como lhe foi determinado. Convocou testemunhas, conduziu depoimentos e reuniu documentos, mesmo lidando com a falta de orçamento, habeas corpus que travaram oitivas e a falta de autorização do próprio STF para ouvir testemunhas como o ex-deputado estadual do Rio TH Joias, preso por envolvimento com o Comando Vermelho.

Ao final, entregou um diagnóstico sobre como o crime organizado se infiltrou no sistema financeiro e nas instituições — contaminação de que o Master, que lavava o dinheiro das fraudes na mesma gestora que o PCC, é o exemplo mais recente e bem-acabado.

O documento sugeriu mudanças legais para coibir o avanço da criminalidade, mas também pediu que os ministros fossem enquadrados em crime de responsabilidade — usado em CPIs anteriores para acusar Fernando Collor e Jair Bolsonaro, por senadores que tentaram processar o antecessor de Paulo Gonet, Augusto Aras.

Tudo no âmbito de uma CPI, fórum essencialmente político e previsto na Constituição como instrumento de fiscalização das autoridades públicas — e onde, ao contrário do STF, não se toma decisão sozinho. Tanto que o relatório acabou derrubado, porque o governo Lula entrou em campo trocando integrantes para votar contra o indiciamento. Jogo jogado, com as fricções próprias da luta política, mas dentro da lei.

Os ministros sabem disso, mas preferiram esticar a corda. Ao classificar a proposta de indiciamento de três deles como ataque à instituição, eles visam a emplacar a ideia de que não há no Brasil autoridade competente para investigá-los.

Lá atrás, em fevereiro, o alvo foi a Polícia Federal. Quando o diretor-geral, Andrei Rodrigues, listou num relatório os motivos por que Toffoli deveria ser dado como suspeito para relatar o caso Master — como a venda de parte do resort Tayayá ao grupo de Daniel Vorcaro —, ministros foram pedir sua cabeça a Lula, acusando-o de fazer uma investigação clandestina. Toffoli acabou renunciando justamente para não correr o risco de ser processado por crime de responsabilidade, mas se manteve no cargo.

Em março, quando a CPI quebrou o sigilo da empresa dos Toffolis, Gilmar desengavetou uma ação já arquivada para impedir na canetada o acesso aos dados. Moraes, por sua vez, virou de ponta-cabeça uma decisão já tomada para restringir o uso de relatórios de inteligência do Coaf, fundamentais para destrinchar as fraudes de Vorcaro. Agora, se prepara para limitar também as delações premiadas.

Por enquanto, Gilmar e companhia têm conseguido intimidar quem se aventura a dizer que seu poder não é absoluto. Mas também vêm arrastando todo o Supremo a uma crise que deveria estar circunscrita a alguns.

Em vez de fortalecer o Tribunal, o enfraquecem, como revelam as pesquisas Datafolha e Quaest, segundo as quais metade dos brasileiros não confia no STF, e 71% acham que ele tem poder demais. Ao fim e ao cabo, o que querem mesmo é continuar intocáveis. Enchem a boca para falar em democracia, mas parecem não entender como ela funciona. Periga descobrirem da pior maneira, caso o Senado que tomar posse em 2027 resolva aprovar um impeachment e acabar com a blindagem na base do voto.

Malu Gaspar - O Globo

 

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