quarta-feira, 15 de abril de 2026

Choque entre Poderes: Como foi a reação coordenada para enterrar parecer de CPI que indiciou ministros do STF e PGR

 


O relatório final da CPI do Crime Organizado, assinado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), pediu, de forma inédita, o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República por envolvimento no caso do Master, abrindo uma nova crise entre o Congresso e o Judiciário. Rejeitado por seis votos a quatro após reações fortes na Corte — em uma articulação que envolveu Planalto, Centrão e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) —, o parecer não incluiu nenhum outro indiciado, seja ligado ao escândalo envolvendo o banco de Daniel Vorcaro ou ao crime organizado em si.

Vieira divulgou o relatório na manhã de ontem, no último dia de funcionamento do colegiado. O texto citava os supostos crimes de responsabilidade que teriam sido cometidos por Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do PGR, Paulo Gonet. Caso fosse aprovado, o resultado seria, na prática, a elevação da pressão pela abertura de processos de impeachment contra as autoridades no próprio Senado, responsável por julgar esse tipo de caso.

O primeiro passo dependeria, no entanto, justamente de Alcolumbre, presidente do Congresso, que rechaça essa possibilidade. Ontem, sem citar nominalmente a CPI, o senador criticou o que chamou de “agressão permanente às instituições republicanas”:

— Está muito cômodo ofender os outros. Está todo mundo passando limites institucionais. A todo instante defender e subjugar.

O parecer foi enterrado após integrantes do STF chegarem a adotar um tom de ameaça, citando possível “abuso de autoridade” por parte dos senadores e ventilando até mesmo a hipótese de “inelegibilidade”. Mobilizado, o governo federal atuou para modificar a composição da comissão, em costura junto a siglas do Centrão, o que permitiu maioria apertada na votação.

Aberta após operação

A CPI do Crime Organizado foi criada na esteira da crise de segurança pública no Rio, após a megaoperação que deixou 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, com o objetivo de investigar o papel de facções e sugerir saídas no combate a essas quadrilhas. Ao longo dos meses, porém, o colegiado passou a mirar no escândalo do Master e na tentativa de Vorcaro de financiar agentes públicos para ter uma blindagem política.

Em relação a Toffoli, o parecer destacou a relatoria no processo relativo ao banco, no qual “deveria se declarar impedido”, além da declaração de sigilo máximo da ação. O comportamento foi considerado “incompatível com o cargo”. O ministro é um dos donos da empresa Maridt, que vendeu participação em um resort no Paraná para uma teia de fundos ligados a Vorcaro.

Já sobre Moraes, a avaliação do relatório era que houve atuação em situações com potencial impedimento e decisões que teriam restringido o alcance das apurações conduzidas pela CPI. Gilmar, por sua vez, foi citado por decisões que suspenderam ordens da comissão, incluindo a anulação de quebras de sigilo da Maridt e a determinação de inutilização de dados obtidos.

O texto apontou ainda que houve atos que “comprometeram a apuração de fatos relevantes” ao invalidar provas produzidas pela CPI. No caso de Gonet, o indiciamento se baseia em suposta omissão.

Críticas ao documento dominaram a sessão da Segunda Turma do STF à tarde. Toffoli e Gilmar se manifestaram na ocasião, enquanto o ministro Flávio Dino e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) se posicionaram pelas redes sociais.

— O relatório apresentado revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra o Supremo Tribunal Federal, na expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores políticos. Esse desvio de finalidade suscita preocupação legítima quanto ao uso indevido de instrumentos que deveriam servir ao fortalecimento das instituições e à proteção da sociedade — afirmou Gilmar Mendes.

Toffoli engrossou o coro e sustentou que o documento apresentado era uma “excrescência” e buscava um “voto antidemocrático, corrupto”.

— Atacar certas instituições dá voto, mas atacar as instituições é atacar a democracia. Isso é abuso de poder. E aqui, ministro Kássio (Nunes Marques), ministro André (Mendonça), que estão no TSE, nós não podemos deixar de nos furtar a cassar eleitoralmente aqueles que abusaram atacando as instituições para obter votos e conspurcar o voto do eleitor — discorreu o magistrado.

Na sequência, o ministro André Mendonça ponderou que as CPIs precisam investigar, pois “ninguém está acima da lei”, mas acrescentou que os procedimentos precisam “ser feitos da maneira correta”. Já Nunes Marques disse que se “solidarizava” com o teor da fala de Mendonça, enquanto Luiz Fux concordou com a necessidade de a Corte “julgar a questão relativa aos poderes das CPIs e sua extensão”.

Mais cedo, o ministro Flávio Dino também reagiu ao relatório, classificando-o como um “gigantesco erro histórico”. Falando em nome do tribunal, o presidente Edson Fachin divulgou uma nota. “A Presidência do Supremo Tribunal Federal repudia de forma enfática a indevida inclusão e o alegado envolvimento” dos ministros, frisava o texto.

Idas e vindas

Durante o dia, a sessão da CPI foi marcada por idas e vindas e pela tentativa de acelerar a leitura do parecer diante do risco de interrupção dos trabalhos. Em meio à pressão e à crise institucional, o governo operou junto a partidos do Centrão para garantir a maioria contrária ao texto no colegiado.

Deixaram a CPI Sergio Moro (União-PR) e Marcos do Val (Podemos-ES), ambos do Bloco Parlamentar Democracia (MDB, PSDB, Podemos e União Brasil) e favoráveis ao parecer. Em seus lugares, entraram os petistas Beto Faro (PA) e Teresa Leitão (PT). Logo após assumir o cargo de ministro responsável pela articulação política, José Guimarães deu o tom da estratégia governista:

— É um absurdo uma CPI terminar sem incriminar ninguém e pedir indiciamento de três ministros, mais um PGR. Isso não pode.

Após o resultado, Vieira culpou o Planalto e mencionou diretamente o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). Também reagiu aos ministros do STF ao dizer que as “pessoas que estão sentadas na Suprema Corte não são donas do país”:

— Eu disse ao líder do governo, Jaques Wagner, e reafirmo publicamente que o governo escolheu atravessar a rua para dar um abraço de afogados aos ministros (do STF). Eu acho que isso vai cobrar um preço significativo depois.

O Globo

 

 

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