terça-feira, 3 de março de 2026

Raquel Landim: STF e Congresso blindam Toffoli e Lula paga a conta

 


Nesta terça-feira, 3, o relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), vai se reunir com seus pares para buscar alternativas jurídicas para recorrer da decisão do ministro Gilmar Mendes, que anulou a quebra de sigilo da Maridt, empresa da família do colega Dias Toffoli.

Vieira afirmou à Coluna que a decisão de Gilmar não se sustenta, porque ele desarquivou um processo já extinto e recorreu a um habeas corpus, instrumento só utilizado para pessoas físicas e não para pessoas jurídicas.

Em sua decisão, o ministro Gilmar deixou claro que a CPI do Crime Organizado fugiu ao seu escopo ao forçar uma ligação da empresa de Toffoli com o crime organizado, que teria sido utilizada para lavar dinheiro do Banco Master.

“Como imperativo de eficiência e a bem preservação de direitos fundamentais, a Constituição determina que a CPI tenha por objeto um fato determinado. Ficam impedidas devassas generalizadas”, disse o ministro.

Vale lembrar, no entanto, que a cúpula do Congresso evita a todo custo criar uma CPI sobre o caso Master, que teria, portanto, um foco bem específico. O presidente da Câmara, Hugo Motta, já disse que tem uma fila de CPIs à espera e que essa não vai passar na frente.

Andamento de processo, utilização de habeas corpus, escopo de CPI – são todos ordenamentos importantes do processo jurídico brasileiro. Mas, neste caso, vem sendo utilizados como brechas.

O fato político evidente é que aliados importantes vêm blindando o ministro Dias Toffoli de uma investigação, seja pela preservação institucional do STF ou por motivos nada republicanos.

Cumprindo seu dever, a Polícia Federal foi para cima do caso Master e os sinais são de que, além de um dos maiores rombos financeiros da história, pode ter atingido um dos esquemas de financiamento do Centrão.

Só que no meio do caminho estava Toffoli.

A falta de transparência sobre como a empresa do ministro recebeu R$ 35 milhões do esquema do banqueiro Daniel Vorcaro está começando a mobilizar a oposição e a atingir o governo.

Nenhuma pauta movimenta mais a direita brasileira do que o impeachment de ministros do STF.

Conforme pesquisa do Monitor do Debate Político da USP, mais de 90% das pessoas reunidas pela direita na Avenida Paulista neste domingo eram a favor do impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli – porcentual muito superior aos 39% daqueles que eram a favor da anistia para os condenados do 8 de Janeiro que cometeram violência.

O público na Paulista, no entanto, foi de tamanho “médio”, porque as lideranças não se entendiam.

Enquanto o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) clamava pelo “Fora, Lula, Fora, Toffoli e Fora, Moraes”, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, falou que estava favorável ao impeachment de “qualquer ministro do STF”.

Com a proximidade muito estreita de caciques do Centrão com o escândalo do Master, Flávio não pode comprometer possíveis apoios.

Perceba que Lula entra no mote da manifestação, embora seu envolvimento direto com o escândalo seja reduzido até agora a apenas a uma reunião com Vorcaro e à proximidade do PT da Bahia com o sócio dele.

Lula é abatido pela crise porque indicou Toffoli, que foi advogado do PT, e porque o STF é percebido como um aliado do governo em temas que vão desde a defesa da democracia até questões econômicas.

A direita, por sua vez, é vista por uma parcela da população como quem vem denunciando os “podres” do Supremo.

Para o Planalto, não tem caminho: ou Toffoli se afasta de vez do poder ou é punido. Caso contrário, o governo vai continuar sangrando, mesmo com a PF nos calcanhares de Vorcaro. Ironicamente, Congresso e STF blindam Toffoli e Master e quem paga a conta é Lula.

Raquel Landim - Estadão

 

 

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