segunda-feira, 30 de março de 2026

Opinião do Estadão: Lula encurralado é um perigo

 


A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg espalhou brasas onde já havia muito fogo nas aflições do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua ambição pela reeleição. Se era nítida a preocupação com a queda na aprovação, o avanço da desaprovação e o pessimismo crescente dos brasileiros, o novo levantamento reafirma a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa e, mais do que isso, expõe um presidente de fôlego rarefeito.

Dois dados são especialmente eloquentes: num eventual segundo turno, Flávio aparece com 47,6% contra 46,6% de Lula, um empate técnico, mas politicamente devastador pela curva ascendente do senador; além disso, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro (PL) e até o inelegível Jair Bolsonaro surgem numericamente à frente do presidente em cenários de segundo turno.

Ainda que pesquisas retratem circunstâncias específicas, a sucessão de maus números abre a janela do desespero para Lula e o PT. Depois de um breve respiro no fim do ano passado, o presidente e os demais morubixabas do partido se veem diante do cenário mais adverso desde o início do terceiro mandato – agravado pelo avanço do calendário eleitoral. Há empate técnico, mas as curvas de desempenho são opostas. O presidente passa a correr risco real de derrota mesmo com a força da máquina e sem um adversário único à direita. Não raros especialistas avaliam que não se trata de um tropeço episódico, mas da consolidação de uma tendência: Lula deixou de ser quase imbatível.

Esse enfraquecimento dialoga com a deterioração da avaliação do governo. Levantamentos da Genial/Quaest e do Datafolha mostraram que a maioria dos brasileiros desaprova a gestão, enquanto a avaliação negativa já rivaliza com a positiva. O País está dividido, e mesmo entre apoiadores a malaise mostra sua cara, reforçando um quadro consolidado de desgaste que corrói o principal ativo de qualquer candidato à reeleição: convencer o eleitor de que vale a pena continuar.

Há razões objetivas para isso. A esta altura, Lula já não pode se escorar em heranças. O que se vê é uma administração errática, incapaz de produzir resultados consistentes e marcada por mediocridade. Na economia, a melhora não chega ao cotidiano. Na segurança pública, reina a ausência. Na saúde, faltam direção e entrega. O Palácio do Planalto nunca deixou de estar preso a anúncios, slogans e repetição de velhas fórmulas.

Convém acrescentar um elemento corrosivo: a sombra da corrupção. Escândalos como o do INSS reavivam memórias que o lulopetismo jamais apagou. Mesmo no caso do Banco Master, que democraticamente atinge nomes do bolsonarismo, da direita, do Centrão e até mesmo do STF, Lula e seu partido se veem claramente contaminados – sem ignorar que o PT da Bahia é citado continuamente na lista de relações mal explicadas. Ainda que episódios específicos não tenham, isoladamente, o poder de definir uma eleição, eles reforçam um ambiente de desconfiança que pesa, sobretudo, sobre um partido cuja história recente é indissociável de escândalos de grande magnitude.

Diante desse cenário, a reação do presidente tem sido preocupante para os petistas. Em vez de ampliar o diálogo, Lula se fechou ainda mais à esquerda, apostando numa retórica de confronto social e em pautas de forte apelo ideológico, mas baixa capacidade de expansão eleitoral. O resultado é um eleitorado fiel, porém limitado, e insuficiente para garantir vitória numa disputa que será decidida na margem. Como apontam analistas, algo entre 3% e 4% do eleitorado deve decidir a eleição de 2026. São eleitores voláteis e sensíveis ao desempenho do governo. É justamente nesse terreno que Lula encontra suas maiores dificuldades.

Se havia apreensão no entorno do presidente, os novos dados tendem a acionar outro estágio: o desespero. Não será surpresa se o governo intensificar medidas de apelo imediato, expandir gastos de forma temerária ou radicalizar o discurso para reverter a tendência adversa. O populismo de sempre, enfim. Há, contudo, limites para isso. Eleições exigem credibilidade, diálogo e resultados. Hoje, Lula tem dificuldade em oferecer os três. E é por isso que sua reeleição deixou de ser uma hipótese provável, e a campanha será uma disputa incerta e perigosamente inclinada contra ele.

Opinião do Estadão

 

 

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