A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg espalhou
brasas onde já havia muito fogo nas aflições do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva em sua ambição pela reeleição. Se era nítida a preocupação com a queda na
aprovação, o avanço da desaprovação e o pessimismo crescente dos brasileiros, o
novo levantamento reafirma a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL) na
disputa e, mais do que isso, expõe um presidente de fôlego rarefeito.
Dois dados são especialmente eloquentes: num
eventual segundo turno, Flávio aparece com 47,6% contra 46,6% de Lula, um
empate técnico, mas politicamente devastador pela curva ascendente do senador;
além disso, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro (PL) e até o
inelegível Jair Bolsonaro surgem numericamente à frente do presidente em
cenários de segundo turno.
Ainda que pesquisas retratem circunstâncias
específicas, a sucessão de maus números abre a janela do desespero para Lula e
o PT. Depois de um breve respiro no fim do ano passado, o presidente e os
demais morubixabas do partido se veem diante do cenário mais adverso desde o
início do terceiro mandato – agravado pelo avanço do calendário eleitoral. Há
empate técnico, mas as curvas de desempenho são opostas. O presidente passa a
correr risco real de derrota mesmo com a força da máquina e sem um adversário
único à direita. Não raros especialistas avaliam que não se trata de um tropeço
episódico, mas da consolidação de uma tendência: Lula deixou de ser quase
imbatível.
Esse enfraquecimento dialoga com a deterioração da
avaliação do governo. Levantamentos da Genial/Quaest e do Datafolha mostraram
que a maioria dos brasileiros desaprova a gestão, enquanto a avaliação negativa
já rivaliza com a positiva. O País está dividido, e mesmo entre apoiadores a malaise mostra
sua cara, reforçando um quadro consolidado de desgaste que corrói o principal
ativo de qualquer candidato à reeleição: convencer o eleitor de que vale a pena
continuar.
Há razões objetivas para isso. A esta altura, Lula
já não pode se escorar em heranças. O que se vê é uma administração errática,
incapaz de produzir resultados consistentes e marcada por mediocridade. Na
economia, a melhora não chega ao cotidiano. Na segurança pública, reina a
ausência. Na saúde, faltam direção e entrega. O Palácio do Planalto nunca
deixou de estar preso a anúncios, slogans e repetição de velhas fórmulas.
Convém acrescentar um elemento corrosivo: a sombra
da corrupção. Escândalos como o do INSS reavivam memórias que o lulopetismo
jamais apagou. Mesmo no caso do Banco Master, que democraticamente atinge nomes
do bolsonarismo, da direita, do Centrão e até mesmo do STF, Lula e seu partido
se veem claramente contaminados – sem ignorar que o PT da Bahia é citado
continuamente na lista de relações mal explicadas. Ainda que episódios
específicos não tenham, isoladamente, o poder de definir uma eleição, eles
reforçam um ambiente de desconfiança que pesa, sobretudo, sobre um partido cuja
história recente é indissociável de escândalos de grande magnitude.
Diante desse cenário, a reação do presidente tem
sido preocupante para os petistas. Em vez de ampliar o diálogo, Lula se fechou
ainda mais à esquerda, apostando numa retórica de confronto social e em pautas
de forte apelo ideológico, mas baixa capacidade de expansão eleitoral. O
resultado é um eleitorado fiel, porém limitado, e insuficiente para garantir
vitória numa disputa que será decidida na margem. Como apontam analistas, algo
entre 3% e 4% do eleitorado deve decidir a eleição de 2026. São eleitores
voláteis e sensíveis ao desempenho do governo. É justamente nesse terreno que
Lula encontra suas maiores dificuldades.
Se havia apreensão no entorno do presidente, os
novos dados tendem a acionar outro estágio: o desespero. Não será surpresa se o
governo intensificar medidas de apelo imediato, expandir gastos de forma
temerária ou radicalizar o discurso para reverter a tendência adversa. O
populismo de sempre, enfim. Há, contudo, limites para isso. Eleições exigem
credibilidade, diálogo e resultados. Hoje, Lula tem dificuldade em oferecer os
três. E é por isso que sua reeleição deixou de ser uma hipótese provável, e a
campanha será uma disputa incerta e perigosamente inclinada contra ele.
Opinião do Estadão

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