Vou continuar no assunto político mais palpitante, a
delação de Daniel Vorcaro, sem perder tempo com a desistência de Ratinho Jr. da
candidatura presidencial ou com o seu eventual substituto, Ronaldo Caiado ou
Eduardo Leite, dessa terceira via ao gosto do freguês. Não estou à procura de
emprego de marqueteiro, assim como João Santana.
No roteiro da delação de Vorcaro a ser seguido pelos
investigadores, está o pedido que Alexandre de Moraes teria feito ao presidente
do Banco Central, Gabriel Galípolo, para que fosse aprovada a venda do Banco
Master para o Banco Regional de Brasília, o BRB.
Já seria inconcebível que um ministro do Supremo
fizesse gestões junto à autoridade monetária para ajudar um banco em
dificuldades. Mas o episódio aponta para algo muito pior.
Sabe-se hoje que o banco que Moraes tentava salvar é
responsável por fraudes que resultaram em um rombo de mais de R$ 50 bilhões no
sistema financeiro. Banco este que assinou um contrato de impensáveis R$ 129
milhões com o escritório de advocacia da mulher de ministro.
Recapitular é viver: quem deu a notícia, em
dezembro, foi a infatigável jornalista Malu Gaspar. De acordo com ela, houve ao
menos quatro contatos entre Moraes e Galípolo, em julho do ano passado — três
por telefone e um presencial.
Na conversa presencial, o ministro teria dito que
gostava de Vorcaro e afirmado que o Master era combatido por estar tomando
espaço dos grandes bancos.
Na sequência, relatou a jornalista, Moraes teria
pedido “que o BC aprovasse o negócio com o BRB, que tinha sido anunciado em
março, mas estava pendente de autorização da autarquia. Naquele momento, já se
sabia em Brasília que havia um racha entre diretores do BC sobre decretar ou
não intervenção no Master”.
Galípolo, então, teria respondido a Moraes que o BC
havia descoberto fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do Master
para BRB. “Diante da informação, segundo os relatos, o ministro teria
reconhecido que, se a fraude ficasse comprovada, o negócio não teria mesmo como
ser aprovado”, escreveu Malu Gaspar.
Moraes negou a pressão sobre o Banco Central e
afirmou, em nota, que se reuniu duas vezes com Galípolo para falar sobre a Lei
Magnitsky. O problema é que os contatos relatados por Malu Gaspar teriam
ocorrido antes de o ministro ser sancionado por Donald Trump.
O BC assinou embaixo da versão do ministro, mas
chamou a atenção que, no seu laconismo, a nota do banco não desmente que possa
ter havido contatos entre Moraes e Galípolo para tratar do Banco Master. Outro
fato estranho: nenhum encontro entre ambos foi registrado nas respectivas
agendas oficiais.
O episódio ganha novas luzes, e ainda mais fortes,
depois da revelação de que Moraes e Vorcaro trocaram mensagens no dia da
primeira prisão preventiva do dono do finado Master e das notícias sobre as
visitas do ministro à casa de Vorcaro em Brasília.
Na troca de mensagens, que não foram inteiramente
recuperadas porque transmitidas em modo de exibição temporária, o dono do
finado Master fala sobre o seu último esforço para tentar salvar o seu banco
(e, ao que tudo indica, a respeito do juiz que havia decretado a sua prisão).
Se Vorcaro seguir o caminho que se espera dele,
Galípolo deverá ser chamado a depor e terá de contar a verdade, toda a verdade.
A delação do dono do finado Master é muito mais
palpitante do que qualquer outro assunto político — e certamente será mais
determinante na eleição presidencial do que qualquer nome dessa terceira via ao
gosto do freguês.
Mario Sabino - Metrópoles

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