sexta-feira, 13 de março de 2026

Entraves em licenciamentos ameaçam participação do RN em leilão de energia

 


Fernando Azevêdo
Repórter

O Rio Grande do Norte pode perder investimentos no setor de energias renováveis e ficar de fora do leilão de armazenamento, previsto para abril deste ano. Isso porque o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Conema) ainda não votou em plenário as minutas de resolução sobre o licenciamento de sistemas de armazenamento de energia em bateria (BESS) e data centers. A aprovação dessas resoluções pelo Conema, após uma série de análises jurídicas, é o que define as normas para avaliar e autorizar a instalação de projetos desse tipo no Rio Grande do Norte. Na avaliação de interlocutores do setor, sem regras claras, as empresas não têm segurança jurídica para investir.

De acordo com alguns agentes do setor ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE, a demora se dá na análise jurídica que está sendo feita pela Procuradoria Geral do Estado (PGE-RN). A reportagem apurou que a Procuradoria estaria questionando aspectos técnicos das minutas, além da análise estritamente jurídica. O entrave no cronograma, embora não haja prazos definidos para as análises, poderá inviabilizar a participação do estado no leilão de abril.

O Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema-RN) e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN) levaram seis meses para construir as minutas de resolução. Embora a resolução para o hidrogênio verde tenha sido aprovada em dezembro, as propostas para baterias e data centers seguem em diligência. Thales Dantas, diretor-técnico do Idema, afirma que o órgão está finalizando as complementações solicitadas pela PGE-RN ainda esta semana.

Em dezembro de 2025, a Câmara Técnica de Assuntos Jurídicos do Conema (CTAJ) começou a análise da regulamentação do BESS e do hidrogênio verde e confirmou uma reunião extraordinária para aprovação das tecnologias. No entanto, durante o processo, a PGE – que também integra o Conema – questionou aspectos da minuta do BESS, assim como também outra proposta relacionada aos data centers. A regulação do uso de baterias é um passo necessário para criar um ambiente favorável aos data centers.

Atualmente, segundo a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), o Idema já encaminhou a minuta de resolução do BESS, mas ainda há pendências junto à PGE. A CTAJ já analisou a proposta internamente. Mesmo assim, a votação no plenário do Conselho só pode ser realizada após a resolução das pendências.

No caso dos data centers, o Instituto também enviou a minuta à CTAJ, mas ela ainda não foi analisada. A proposta também tramita na PGE-RN. “A PGE retornou o processo ao Idema para complementação de informações. Sendo assim, a CTAJ aguarda o Idema cumprir as diligências da PGE para prosseguir com análise interna”, explicou, por meio de nota, a Semarh, pasta que preside o Conema.

“Para que a minuta de resolução seja pautada no Conema, é necessário que o Idema atenda às diligências da PGE. Posteriormente, ela prossegue na CTAJ do Conema”, diz a Semarh. Somente após isso, o Conema pode convocar reunião para votar a proposta.

Após o Idema-RN responder às diligências da PGE, se a procuradoria emitir parecer favorável, as minutas podem entrar na pauta do plenário do Conema para votação e se tornar resolução, a serem publicadas no Diário Oficial do Estado.

Participação local em leilão deve ser mínima

Diante do impasse, o RN corre o risco de não participar do leilão de armazenamento previsto para abril. Sem definições claras sobre como os empreendimentos serão licenciados, as companhias interessadas em investir na tecnologia podem migrar para estados que ofereçam maior segurança jurídica.

O secretário-adjunto da Sedec-RN, Hugo Fonseca, afirmou que “as empresas estão operando as licenças que atualmente já são existentes. Mas, como a tendência é que se tenha essas BESS aumentando nos próximos anos, com maiores números de armazenamentos, precisaremos de licenciamentos mais específicos […] Isso vai permitir que o estado possa licenciar conjuntos de baterias de armazenamentos superiores a 30MW de potência”.

Conforme avalia o secretário-adjunto, ainda que as minutas sejam apreciadas em breve, no entanto, a participação do RN deve ser mínima no próximo leilão de armazenamento de energia, cujas diretrizes serão divulgadas em abril, segundo confirmou na última quarta-feira (11) o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

“As empresas que vão participar do leilão, teoricamente, já deveriam estar com a licença ambiental na mão, para que, quando forem se inscrever, apresentem o projeto, as licenças e as autorizações que permitam que o seu cadastro seja validado”, diz Hugo Fonseca.

“O Idema vai ter que fazer uma força-tarefa gigantesca para analisar os processos que estão paralisados no órgão ambiental em um prazo extremamente curto. Prevejo em torno de 15 e 20 dias para emitir as licenças”, completa.

Conema trava a análise do processo no estado

O advogado Kepler Brito, relator da resolução do BESS e representante da OAB/RN no Conema, explica que através de suas resoluções o órgão define os enquadramentos dessas atividades, como o potencial poluidor dos empreendimentos, por exemplo. “O órgão que deveria definir tecnicamente o tema [Idema-RN] é questionado com frequência pela PGE e os processos não têm a celeridade que precisam”, comenta.

O relator afirma que a Procuradoria contesta decisões sobre a resolução, “inclusive do ponto de vista técnico”. Para Brito, a Procuradoria do Patrimônio de Defesa do Meio Ambiente, da PGE-RN, tem um papel importante para analisar se as normas estão em desacordo com alguma outra norma ou mesmo a Constituição. “A crítica que se faz é, principalmente, que essa Procuradoria intervenha nos aspectos e nas decisões técnicas do órgão”, frisa.

“A Procuradoria verifica os aspectos jurídicos de tudo. O timing das coisas não é obrigação da PGE. Não acho que seja obrigação da PGE se preocupar se o estado vai ou não perder o empreendimento”, ressalva o advogado, acrescentando que “o Rio Grande do Norte ainda está mastigando uma resolução que é relativamente simples”.

De acordo com Thales Dantas, a complementação de informações é comum em processos ambientais. “Não vejo como problema haver algum tipo de solicitação de complementação de informações. Não é uma dificuldade do Idema justificar ou informar”, disse.

Ele explica que o Instituto já licenciou dois pequenos data centers em área de complexo eólico, por isso espera licenciar “com tranquilidade” outros empreendimentos. “A legislação respeita toda a robustez que a gente vem fazendo com a preservação ambiental e respeita também a OIT 169, os direitos das comunidades tradicionais”, diz.

Questionada sobre suposta interferência técnica e demora na análise do processo, a PGE-RN, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que não emite posicionamentos dessa natureza. “[A PGE-RN] é uma instituição de assessoria jurídica ao Governo e seus órgãos”.

Falta de resoluções expõe riscos

As tecnologias de BESS e data centers são vistas como positivas para o setor de renováveis, área em que o RN é um polo nacional. Isso porque o BESS atua na mitigação de problemas como os curtailments – cortes de geração de energia devido à sobreoferta ou problemas de transmissão –, que causaram prejuízos bilionários para o setor em 2025.

A falta de resoluções que delimitam as regras para licenciar esses empreendimentos causa indefinição e freia investimentos. “A Sedec-RN olha com atenção o encaminhamento dessas resoluções no Conema. Ficamos preocupados com a demora na tramitação desses processos”, diz Hugo Fonseca.

“Ficamos preocupados para que o estado não perca a competitividade em relação aos atrasos que poderão ocorrer na tramitação desses processos”, diz Fonseca. Ele frisa que a regulamentação dos data centers abre um novo mercado. Como o RN produz muita energia, parte dessa geração pode ser armazenada em baterias e consumida no estado, em vez de ser exportada.

“Se a gente consome energia aqui, significa dizer que a gente está tendo indústria consumindo”, diz Sérgio Azevedo, presidente da Comissão Técnica de Energias Renováveis da Fiern (Coere). De acordo com ele, essas indústrias geram empregos qualificados e contribuem para a arrecadação de ICMS no estado.

“A continuação de novos investimentos em energia renovável no RN carece de novas linhas de transmissão para que a gente possa transmitir energia, mas o melhor dos mundos é que a gente crie fontes de consumo dentro do estado. Porque se a gente fizer isso vamos consumir energia e deixar de exportar”, afirma.

Além disso, o BESS possibilita o aproveitamento de excedentes de geração renovável como reserva de capacidade, de modo a frear o curtailment por excesso de geração.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Com vômitos e calafrios, Bolsonaro é internado em hospital do DF

  O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) precisou ser levado ao hospital após passar mal na manhã desta sexta-feira (13/3). De acordo com o fil...