A operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de
novembro de 2025 pela Polícia Federal, investiga um esquema bilionário de
fraudes financeiras no mercado de capitais, com o Banco Master à frente. A
suspeita da PF e do Banco Central é que houve desvio de ativos e ocultação de
prejuízo.
Só que até hoje (mais de 3 meses após as
investigações terem começado), a PF nunca compartilhou com o Supremo Tribunal
Federal os conteúdos de dezenas de aparelhos eletrônicos apreendidos (52 desses
equipamentos são telefones celulares). O STF é responsável por relatar o caso,
mas não sabe quase nada a respeito do que está sendo apurado.
O ministro Dias Toffoli relatou o caso no Supremo
até 12 de fevereiro de 2026. O ministro André Mendonça o sucedeu. Nenhum dos 2
teve conhecimento em detalhes do que foi encontrado pela PF. Ao mesmo tempo, a
Polícia Federal encontrou tempo para fazer um relatório detalhado de cerca de
200 páginas, com cruzamento de dados, sobre possíveis contatos de Dias Toffoli
com pessoas relacionadas ao Banco Master – sem comprovar, entretanto, ilícitos
cometidos por parte do magistrado.
Numa reunião reservada em 12 de fevereiro, o STF
decidiu rejeitar o documento de 200 páginas entregue pelo diretor-geral da PF,
Andrei Rodrigues, para o presidente da Corte, Edson Fachin. Para os 10
ministros que participaram da reunião, o relatório era ilegal e um "lixo
jurídico", na expressão usada pelo ministro Flávio Dino durante o
encontro.
O texto de Andrei foi preparado com o conhecimento e
aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que desde 2025 tem uma
relação arestosa com Dias Toffoli.O documento de Andrei foi considerado ilegal
pelo STF porque não era só uma coletânea de achados fortuitos sobre alguém com
foro especial (no caso, Dias Toffoli), mas sim um minucioso cruzamento de dados
e checagem de informações que configuravam uma investigação indevida.
A lei no Brasil confere a certas autoridades o
chamado "foro por prerrogativa de função". Se um policial em qualquer
nível encontra de maneira fortuita o que pode ser uma eventual prova de ilícito
contra uma autoridade, não pode fazer nada nem prosseguir com uma investigação
sem autorização judicial expressa.A conclusão unânime dos magistrados do STF
foi que o relatório da Polícia Federal sobre Dias Toffoli teria de ser
considerado um "lixo jurídico".
Ocorre que o próprio diretor da PF também foi a esse
encontro como convidado – algo que não estava mencionado no relatório da PF,
embora fosse informação de domínio público.Apesar da rejeição do relatório da
PF, os ministros do Supremo decidiram não aplicar nenhuma punição ao
diretor-geral Andrei Rodrigues. É incerto se essa atitude do delegado,
considerada uma transgressão legal, terá alguma consequência.
As investigações sobre o Banco Master começaram a
pedido do Ministério Público Federal, que solicitou a verificação de indícios
de fabricação e venda de títulos de crédito falsos por instituições que integram
o Sistema Financeiro Nacional. O órgão também identificou a circulação de
"ativos podres" para ocultar rombos financeiros.
O Banco Central demorou para entrar no caso e dava
indícios de que desconhecia uma indústria de créditos falsos no mercado financeiro,
como revelou o Poder360 em 23 de dezembro de 2025.Estão no centro das
investigações da Compliance Zero o Banco Master, gestores, executivos e
empresários ligados a fundos de investimentos e operações com títulos de
crédito como a Tirreno e a Cartos.
O Master já foi liquidado extrajudicialmente pelo
Banco Central. Esse foi o mesmo destino de outras duas instituições financeiras
que haviam nascido dentro do Master, o Will Bank e o Banco Pleno.No meio das
investigações, apareceram informações sobre Fabiano Zettel, cunhado de Daniel
Vorcaro, ter comprado em 2021 uma participação num empreendimento hoteleiro da
família do ministro Dias Toffoli, o Tayaya Resort, no Estado do Paraná. Toffoli
declarou que sua família foi dona do empreendimento, mas que todas as operações
foram legais e declaradas à Receita Federal.
O cunhado de Vorcaro deixou o empreendimento em
fevereiro de 2025, antes de o escândalo financeiro eclodir.Também se tornou
conhecido durante as apurações que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro
Alexandre de Moraes, havia firmado um contrato em 2024 com o Banco Master que
estipulava o pagamento total de R$ 131 milhões em 3 anos. Viviane e Moraes
nunca se pronunciaram publicamente sobre esse contrato.
A Procuradoria Geral da República mandou arquivar um
pedido de investigação contra o ministro e disse que o contrato não era
ilícito.Moraes teve várias conversas com o presidente do Banco Central, Gabriel
Galípolo, ao longo de 2025. Galípolo nega ter sofrido qualquer pressão do
ministro a respeito de como o BC deveria atuar no caso. Moraes não se pronunciou
publicamente sobre esse tema.
Em uma oportunidade, entretanto, Galípolo mostrou
para o presidente da República uma mensagem que havia recebido de Moraes em seu
celular. Ao tomar conhecimento do teor do que dizia o ministro do STF, Lula
recomendou ao chefe do BC que guardasse esse arquivo.
O conteúdo da mensagem nunca foi divulgado.Dias
Toffoli e Alexandre de Moraes não são investigados pela Compliance Zero.Nas
duas fases já realizadas da operação foram coletados materiais para corroborar
o que são apontados como crimes de gestão fraudulenta, organização criminosa,
manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Ninguém do STF nem do Banco
Central aparece como investigado no caso.
Compliance
Zero – Fase 1
A 1ª fase, deflagrada em 18 de novembro de 2025,
mirou a venda pelo Master de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito
falsas ao BRB (Banco de Brasília). Foram presas 7 pessoas.
Daniel Vorcaro e outros 4 executivos do banco foram
presos preventivamente e outros 2 empresários tiveram prisões temporárias
decretadas.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão,
além de medidas cautelares em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e
no Distrito Federal, autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao todo, 10
pessoas foram alvos diretos dessa 1ª fase da operação.
Os números conhecidos do que se passou em 18 de
novembro de 2025 são incompletos, pois a PF não divulga os detalhes nem para o
STF. A seguir, o que se sabe:
5
prisões preventivas (todos já estão soltos):
Daniel Vorcaro (na noite de 17), fundador do Banco
Master
Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do Master e
responsável por trazer a operação conhecida como Credcesta (de empréstimos
consignados) para dentro do banco
Luiz Antônio Bull, diretor de Riscos, Compliance,
RH, Operações e Tecnologia do Master
Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente
executivo de Tesouraria do Master
Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, sócio do Master
2
prisões temporárias (todos já estão soltos):
Henrique Souza e Silva Peretto, CEO da fintech Cartos
André Felipe de Oliveira Seixas Maia, ex-funcionário
do Master, diretor da Tirreno e sócio da Cartos
3
afastados (a Justiça determinou que deixassem seus cargos no BRB, mas não foram
presos):
Paulo Henrique Costa, era presidente do BRB
Dario Oswaldo Garcia, era diretor financeiro do BRB
Robério Mangueira, era superintendente de operações
financeiras do BRB
Lista
de bens apreendidos:
aeronave Falcon 7X (usada por Vorcaro para tentar
fugir do país pelo Aeroporto de Guarulhos): R$ 200 milhões
obras de arte: R$ 12,4 milhões
veículos: R$ 9,2 milhões
relógios: R$ 6,15 milhões
dinheiro em espécie: R$ 2 milhões
celulares: 13 aparelhos
joias: R$ 380 mil
Os 13 aparelhos de celulares nessa 1ª fase da
Compliance Zero estavam assim divididos: 9 com as pessoas presas que eram
ligadas ao Master, Cartos e Tirreno e outros 4 com os que foram afastados de
seus cargos no BRB.
Desses celulares apreendidos, 2 aparelhos eram de
Daniel Vorcaro, que não quis fornecer as senhas de acesso aos equipamentos. Os
4 celulares dos agora ex-executivos do BRB foram entregues com as respectivas
senhas de acesso aos seus conteúdos – ou seja, com tudo à disposição da PF para
leitura imediata desde novembro de 2025.
Dos 4 celulares entregues pelos ex-executivos do
BRB, o principal é o de Paulo Henrique Costa, que foi presidente do Banco de
Brasília – instituição estatal que pertence ao governo do Distrito Federal. Era
ele quem interagia mais diretamente com os dirigentes do Master, agora
apontados pela PF e pelo BC como autores das fraudes.
Há nesse aparelho de Paulo Henrique Costa inúmeras
mensagens recebidas de Daniel Vorcaro relatando com quem o então banqueiro
tinha conversado no governo federal e no Banco Central e como negociava para
salvar o Master. O fundador do Master fala nessas mensagens sobre diálogos que
manteve dentro do Palácio do Planalto, inclusive com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
Apesar de esses 4 celulares apreendidos dos
ex-executivos do BRB estarem com a Polícia Federal desde a 1ª fase da operação
Compliance Zero, realizada em novembro de 2025 – há mais de 3 meses – e com o
conteúdo 100% aberto, a Polícia Federal optou por não compartilhar com o
ministro Dias Toffoli, que foi relator do caso Master no Supremo Tribunal até
12 de fevereiro de 2026. O novo relator, nomeado na mesma data, André Mendonça,
tampouco recebeu os dados.
A PF prometeu a Mendonça um relatório sobre o caso
na 2ª feira (23.fev.2026), mas não está clara a abrangência do que estará
contido nesse documento – se haverá ou não transcrição de mensagens encontradas
em celulares apreendidos pela Compliance Zero.
O material em posse da PF sobre o caso Master,
contido em celulares, computadores e arquivos de câmeras de segurança, tem
informações a respeito de encontros pessoais das pessoas investigadas, festas
em vários endereços e presença de mulheres contratadas especialmente para essas
ocasiões. Nada foi até agora divulgado nem é possível saber exatamente quem
está envolvido nesse tipo de evento.
Um arquivo com cerca de 7 terabytes, que tem sido
mencionado em reportagens em alguns veículos de comunicação, é só um acervo de
imagens sobre quem entrou e quem saiu de um dos endereços usados por Daniel
Vorcaro em São Paulo. Nada indica que esses 7 terabytes de imagens revelem as
cenas de festas promovidas pelo fundador do Master – e que têm deixado parte do
establishment preocupada. Os relatos disponíveis até agora indicam que Vorcaro
preferia fazer os encontros mais descontraídos em uma propriedade que alugava
em Trancoso, uma praia na Bahia – e as informações disponíveis até o momento,
mas não confirmadas oficialmente, dão conta de que há imagens sobre essas
festas na Bahia.
A casa que era usada por Vorcaro em Brasília é uma
propriedade ampla no Lago Sul, bairro nobre de Brasília (SHIS QI 26, chácara 7,
casa A) – com ampla vista para o Lago Paranoá, como é conhecida a represa
artificial construída com Brasília no final dos anos 1950. A residência já
havia sido alugada antes para outras autoridades, como o fundador da Localiza,
o empresário mineiro Salim Mattar, que por um breve período participou da
equipe do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, no início do governo Jair Bolsonaro
(de 2019 a 2020).
Não há informações se essa casa tem um circuito
interno de câmeras de segurança nem se, caso exista esse sistema, se as imagens
foram apreendidas pela PF. Era nessa casa do Lago Sul em que Vorcaro recebia
políticos, integrantes do governo e até juízes, com o ministro Alexandre de
Moraes, do STF.
Todos os 7 presos na 1ª fase da operação foram
soltos. Em 28 de novembro de 2025, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª
Região) determinou a soltura de Vorcaro e dos outros 4 executivos do Master. Os
5 colocaram tornozeleiras eletrônicas e cumprem medidas cautelares.
Já Henrique Souza e Silva Peretto e André Felipe de
Oliveira Seixas Maia foram soltos em 21 de novembro. Os pedidos de prisão dos 2
eram temporários. Valiam 3 dias e não foram renovados. Eles comandam,
respectivamente, a Cartos e a Tirreno, empresas que, segundo as investigações,
teriam participado das operações de vendas de carteiras de crédito falsas.
Liquidações
No mesmo dia da 1ª fase da Compliance Zero, o BC
(Banco Central) decretou a liquidação extrajudicial do Master. No dia anterior,
a Fictor Holding havia anunciado a compra do banco junto a um consórcio de
investidores dos Emirados Árabes. Antes, o BRB também havia tentado comprar o
Master. A operação recebeu aval do Cade e da Câmara do DF, mas foi barrada pelo
BC.
Depois, já em 2026, o BC ainda liquidaria os bancos
Will Bank e Pleno, ligados ao Master.
Compliance
Zero – Fase 2
A 2ª fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de
janeiro de 2026, teve buscas em endereços ligados a Daniel Vorcaro e de alguns
de seus parentes – entre eles, o pai, a irmã e o cunhado. Foram autorizados
pelo STF 42 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Bahia,
Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Nessa etapa, foram apreendidos 39 aparelhos de
celular – somados aos 13 da 1ª fase, o total desse tipo de equipamento em posse
da PF chegou a expressivos 52.
Também foram presos temporariamente os empresários
Nelson Tanure, dono de empresas que cresceram rápido com fundos de
investimentos administrados pela Reag, e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro,
pastor, empreendedor e um dos aliados mais próximos do banqueiro. Como mostrou
o Poder360, ao realizar a operação contra Zettel, a PF quase o deixou escapar
do Brasil antes de ser preso – o que causou estranhamento entre Andrei
Rodrigues e o ministro Dias Toffoli. O magistrado entendeu que a PF desejava
criar uma armadilha para que houvesse uma falha do STF e assim desmoralizar a
relatoria do caso.
Sabe-se que os alvos de busca e apreensão da fase 2
foram os seguintes, embora a PF não tenha divulgado uma relação oficial
detalhando o que foi feito:
Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master (teve 5
celulares apreendidos nesta fase)
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro (preso temporariamente
pouco antes de embarcar para Dubai)
Felipe Cançado Vorcaro, sócio do Master e primo de
Vorcaro (cumpre medidas cautelares)
Nelson Tanure, empresário e investidor (cumpre
medidas cautelares)
João Carlos Mansur, fundador e ex-CEO da gestora de
fundos Reag, também liquidada pelo BC e suspeita de ter ligação com esquemas de
lavagem de dinheiro e administrar fundos que atuaram em operações do Master
Henrique Vorcaro, pai de Vorcaro
Natália Bueno Vorcaro Zettel, irmã de Vorcaro e
mulher de Fabiano Zettel
Eis o detalhamento dos bens apreendidos na fase 2 da
Compliance Zero:
sequestro e bloqueio de bens e valores que superam
R$ 5,7 bilhões para assegurar a recuperação de ativos
veículos: 23, avaliados em R$ 9,2 milhões
dinheiro em espécie: R$ 645 mil
celulares: 39 aparelhos
computadores: 31
armas: 30
Sigilo e celulares
O caso tramita no Supremo porque foi argumentado que
há, pelo menos, uma autoridade citada e que tem prerrogativa de foro. É que foi
encontrado pela Polícia Federal um envelope com o nome do deputado federal João
Carlos Bacelar (PL-BA) em um endereço ligado a Daniel Vorcaro.
O material considerado mais sensível desse caso
ainda não foi revelado por completo. Encontra-se nos 52 celulares apreendidos
na investigação. Sabe-se que há citações a outras autoridades com foro. Esse é
um dos pontos que dificulta o envio de toda a apuração à 1ª Instância, como é
desejo de parte dos citados.
Acareação
O Poder360 revelou em 29 de janeiro de 2026, com
exclusividade, os depoimentos dos principais citados no caso Master – Paulo
Henrique Costa (BRB) e Daniel Vorcaro (Master) e o diretor de Fiscalização do
BC, Ailton de Aquino. Este jornal digital divulgou a íntegra dos vídeos e
também da acareação entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. As gravações
foram realizadas em 30 de dezembro de 2025.
O procedimento foi conduzido pela delegada Janaina
Pereira Lima Palazzo, na sede do Supremo Tribunal Federal.
São 32 reportagens, 8 vídeos com as íntegras dos
depoimentos e 15 vídeos com cortes de trechos dos depoimentos e uma apuração
extensa.
Poder 360

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