segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

VIIIXI - PF não mostra ao Supremo conteúdo de 52 celulares do caso Master

 


A operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro de 2025 pela Polícia Federal, investiga um esquema bilionário de fraudes financeiras no mercado de capitais, com o Banco Master à frente. A suspeita da PF e do Banco Central é que houve desvio de ativos e ocultação de prejuízo.

Só que até hoje (mais de 3 meses após as investigações terem começado), a PF nunca compartilhou com o Supremo Tribunal Federal os conteúdos de dezenas de aparelhos eletrônicos apreendidos (52 desses equipamentos são telefones celulares). O STF é responsável por relatar o caso, mas não sabe quase nada a respeito do que está sendo apurado.

O ministro Dias Toffoli relatou o caso no Supremo até 12 de fevereiro de 2026. O ministro André Mendonça o sucedeu. Nenhum dos 2 teve conhecimento em detalhes do que foi encontrado pela PF. Ao mesmo tempo, a Polícia Federal encontrou tempo para fazer um relatório detalhado de cerca de 200 páginas, com cruzamento de dados, sobre possíveis contatos de Dias Toffoli com pessoas relacionadas ao Banco Master – sem comprovar, entretanto, ilícitos cometidos por parte do magistrado.

Numa reunião reservada em 12 de fevereiro, o STF decidiu rejeitar o documento de 200 páginas entregue pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para o presidente da Corte, Edson Fachin. Para os 10 ministros que participaram da reunião, o relatório era ilegal e um "lixo jurídico", na expressão usada pelo ministro Flávio Dino durante o encontro.

O texto de Andrei foi preparado com o conhecimento e aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que desde 2025 tem uma relação arestosa com Dias Toffoli.O documento de Andrei foi considerado ilegal pelo STF porque não era só uma coletânea de achados fortuitos sobre alguém com foro especial (no caso, Dias Toffoli), mas sim um minucioso cruzamento de dados e checagem de informações que configuravam uma investigação indevida.

A lei no Brasil confere a certas autoridades o chamado "foro por prerrogativa de função". Se um policial em qualquer nível encontra de maneira fortuita o que pode ser uma eventual prova de ilícito contra uma autoridade, não pode fazer nada nem prosseguir com uma investigação sem autorização judicial expressa.A conclusão unânime dos magistrados do STF foi que o relatório da Polícia Federal sobre Dias Toffoli teria de ser considerado um "lixo jurídico".

 Os ministros do STF entenderam que esse órgão policial havia extrapolado suas funções e transgredido a lei.No seu relatório ao Supremo, Andrei Rodrigues argumentava que havia relação de proximidade entre Dias Toffoli e Daniel Vorcaro. Sugeria que essa condição impediria o magistrado de atuar no caso. Citava como indício dessa relação entre juiz e investigado a ida de Toffoli a um evento patrocinado em parte pelo Banco Master, em Londres, em abril de 2024 (com outros integrantes do Supremo).

Ocorre que o próprio diretor da PF também foi a esse encontro como convidado – algo que não estava mencionado no relatório da PF, embora fosse informação de domínio público.Apesar da rejeição do relatório da PF, os ministros do Supremo decidiram não aplicar nenhuma punição ao diretor-geral Andrei Rodrigues. É incerto se essa atitude do delegado, considerada uma transgressão legal, terá alguma consequência.

As investigações sobre o Banco Master começaram a pedido do Ministério Público Federal, que solicitou a verificação de indícios de fabricação e venda de títulos de crédito falsos por instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional. O órgão também identificou a circulação de "ativos podres" para ocultar rombos financeiros.

O Banco Central demorou para entrar no caso e dava indícios de que desconhecia uma indústria de créditos falsos no mercado financeiro, como revelou o Poder360 em 23 de dezembro de 2025.Estão no centro das investigações da Compliance Zero o Banco Master, gestores, executivos e empresários ligados a fundos de investimentos e operações com títulos de crédito como a Tirreno e a Cartos.

O Master já foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central. Esse foi o mesmo destino de outras duas instituições financeiras que haviam nascido dentro do Master, o Will Bank e o Banco Pleno.No meio das investigações, apareceram informações sobre Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ter comprado em 2021 uma participação num empreendimento hoteleiro da família do ministro Dias Toffoli, o Tayaya Resort, no Estado do Paraná. Toffoli declarou que sua família foi dona do empreendimento, mas que todas as operações foram legais e declaradas à Receita Federal.

O cunhado de Vorcaro deixou o empreendimento em fevereiro de 2025, antes de o escândalo financeiro eclodir.Também se tornou conhecido durante as apurações que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, havia firmado um contrato em 2024 com o Banco Master que estipulava o pagamento total de R$ 131 milhões em 3 anos. Viviane e Moraes nunca se pronunciaram publicamente sobre esse contrato.

A Procuradoria Geral da República mandou arquivar um pedido de investigação contra o ministro e disse que o contrato não era ilícito.Moraes teve várias conversas com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao longo de 2025. Galípolo nega ter sofrido qualquer pressão do ministro a respeito de como o BC deveria atuar no caso. Moraes não se pronunciou publicamente sobre esse tema.

Em uma oportunidade, entretanto, Galípolo mostrou para o presidente da República uma mensagem que havia recebido de Moraes em seu celular. Ao tomar conhecimento do teor do que dizia o ministro do STF, Lula recomendou ao chefe do BC que guardasse esse arquivo.

O conteúdo da mensagem nunca foi divulgado.Dias Toffoli e Alexandre de Moraes não são investigados pela Compliance Zero.Nas duas fases já realizadas da operação foram coletados materiais para corroborar o que são apontados como crimes de gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Ninguém do STF nem do Banco Central aparece como investigado no caso.

Compliance Zero – Fase 1

A 1ª fase, deflagrada em 18 de novembro de 2025, mirou a venda pelo Master de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas ao BRB (Banco de Brasília). Foram presas 7 pessoas.

Daniel Vorcaro e outros 4 executivos do banco foram presos preventivamente e outros 2 empresários tiveram prisões temporárias decretadas.

Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e no Distrito Federal, autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao todo, 10 pessoas foram alvos diretos dessa 1ª fase da operação.

Os números conhecidos do que se passou em 18 de novembro de 2025 são incompletos, pois a PF não divulga os detalhes nem para o STF. A seguir, o que se sabe:

5 prisões preventivas (todos já estão soltos):

Daniel Vorcaro (na noite de 17), fundador do Banco Master

Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do Master e responsável por trazer a operação conhecida como Credcesta (de empréstimos consignados) para dentro do banco

Luiz Antônio Bull, diretor de Riscos, Compliance, RH, Operações e Tecnologia do Master

Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente executivo de Tesouraria do Master

Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, sócio do Master

2 prisões temporárias (todos já estão soltos):

Henrique Souza e Silva Peretto, CEO da fintech Cartos

André Felipe de Oliveira Seixas Maia, ex-funcionário do Master, diretor da Tirreno e sócio da Cartos

3 afastados (a Justiça determinou que deixassem seus cargos no BRB, mas não foram presos):

Paulo Henrique Costa, era presidente do BRB

Dario Oswaldo Garcia, era diretor financeiro do BRB

Robério Mangueira, era superintendente de operações financeiras do BRB

Lista de bens apreendidos:

aeronave Falcon 7X (usada por Vorcaro para tentar fugir do país pelo Aeroporto de Guarulhos): R$ 200 milhões

obras de arte: R$ 12,4 milhões

veículos: R$ 9,2 milhões

relógios: R$ 6,15 milhões

dinheiro em espécie: R$ 2 milhões

celulares: 13 aparelhos

joias: R$ 380 mil

Os 13 aparelhos de celulares nessa 1ª fase da Compliance Zero estavam assim divididos: 9 com as pessoas presas que eram ligadas ao Master, Cartos e Tirreno e outros 4 com os que foram afastados de seus cargos no BRB.

Desses celulares apreendidos, 2 aparelhos eram de Daniel Vorcaro, que não quis fornecer as senhas de acesso aos equipamentos. Os 4 celulares dos agora ex-executivos do BRB foram entregues com as respectivas senhas de acesso aos seus conteúdos – ou seja, com tudo à disposição da PF para leitura imediata desde novembro de 2025.

Dos 4 celulares entregues pelos ex-executivos do BRB, o principal é o de Paulo Henrique Costa, que foi presidente do Banco de Brasília – instituição estatal que pertence ao governo do Distrito Federal. Era ele quem interagia mais diretamente com os dirigentes do Master, agora apontados pela PF e pelo BC como autores das fraudes.

Há nesse aparelho de Paulo Henrique Costa inúmeras mensagens recebidas de Daniel Vorcaro relatando com quem o então banqueiro tinha conversado no governo federal e no Banco Central e como negociava para salvar o Master. O fundador do Master fala nessas mensagens sobre diálogos que manteve dentro do Palácio do Planalto, inclusive com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar de esses 4 celulares apreendidos dos ex-executivos do BRB estarem com a Polícia Federal desde a 1ª fase da operação Compliance Zero, realizada em novembro de 2025 – há mais de 3 meses – e com o conteúdo 100% aberto, a Polícia Federal optou por não compartilhar com o ministro Dias Toffoli, que foi relator do caso Master no Supremo Tribunal até 12 de fevereiro de 2026. O novo relator, nomeado na mesma data, André Mendonça, tampouco recebeu os dados.

A PF prometeu a Mendonça um relatório sobre o caso na 2ª feira (23.fev.2026), mas não está clara a abrangência do que estará contido nesse documento – se haverá ou não transcrição de mensagens encontradas em celulares apreendidos pela Compliance Zero.

O material em posse da PF sobre o caso Master, contido em celulares, computadores e arquivos de câmeras de segurança, tem informações a respeito de encontros pessoais das pessoas investigadas, festas em vários endereços e presença de mulheres contratadas especialmente para essas ocasiões. Nada foi até agora divulgado nem é possível saber exatamente quem está envolvido nesse tipo de evento.

Um arquivo com cerca de 7 terabytes, que tem sido mencionado em reportagens em alguns veículos de comunicação, é só um acervo de imagens sobre quem entrou e quem saiu de um dos endereços usados por Daniel Vorcaro em São Paulo. Nada indica que esses 7 terabytes de imagens revelem as cenas de festas promovidas pelo fundador do Master – e que têm deixado parte do establishment preocupada. Os relatos disponíveis até agora indicam que Vorcaro preferia fazer os encontros mais descontraídos em uma propriedade que alugava em Trancoso, uma praia na Bahia – e as informações disponíveis até o momento, mas não confirmadas oficialmente, dão conta de que há imagens sobre essas festas na Bahia.

A casa que era usada por Vorcaro em Brasília é uma propriedade ampla no Lago Sul, bairro nobre de Brasília (SHIS QI 26, chácara 7, casa A) – com ampla vista para o Lago Paranoá, como é conhecida a represa artificial construída com Brasília no final dos anos 1950. A residência já havia sido alugada antes para outras autoridades, como o fundador da Localiza, o empresário mineiro Salim Mattar, que por um breve período participou da equipe do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, no início do governo Jair Bolsonaro (de 2019 a 2020).

Não há informações se essa casa tem um circuito interno de câmeras de segurança nem se, caso exista esse sistema, se as imagens foram apreendidas pela PF. Era nessa casa do Lago Sul em que Vorcaro recebia políticos, integrantes do governo e até juízes, com o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Todos os 7 presos na 1ª fase da operação foram soltos. Em 28 de novembro de 2025, o TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) determinou a soltura de Vorcaro e dos outros 4 executivos do Master. Os 5 colocaram tornozeleiras eletrônicas e cumprem medidas cautelares.

Já Henrique Souza e Silva Peretto e André Felipe de Oliveira Seixas Maia foram soltos em 21 de novembro. Os pedidos de prisão dos 2 eram temporários. Valiam 3 dias e não foram renovados. Eles comandam, respectivamente, a Cartos e a Tirreno, empresas que, segundo as investigações, teriam participado das operações de vendas de carteiras de crédito falsas.

Liquidações

No mesmo dia da 1ª fase da Compliance Zero, o BC (Banco Central) decretou a liquidação extrajudicial do Master. No dia anterior, a Fictor Holding havia anunciado a compra do banco junto a um consórcio de investidores dos Emirados Árabes. Antes, o BRB também havia tentado comprar o Master. A operação recebeu aval do Cade e da Câmara do DF, mas foi barrada pelo BC.

Depois, já em 2026, o BC ainda liquidaria os bancos Will Bank e Pleno, ligados ao Master.

Compliance Zero – Fase 2

A 2ª fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro de 2026, teve buscas em endereços ligados a Daniel Vorcaro e de alguns de seus parentes – entre eles, o pai, a irmã e o cunhado. Foram autorizados pelo STF 42 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Nessa etapa, foram apreendidos 39 aparelhos de celular – somados aos 13 da 1ª fase, o total desse tipo de equipamento em posse da PF chegou a expressivos 52.

Também foram presos temporariamente os empresários Nelson Tanure, dono de empresas que cresceram rápido com fundos de investimentos administrados pela Reag, e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, pastor, empreendedor e um dos aliados mais próximos do banqueiro. Como mostrou o Poder360, ao realizar a operação contra Zettel, a PF quase o deixou escapar do Brasil antes de ser preso – o que causou estranhamento entre Andrei Rodrigues e o ministro Dias Toffoli. O magistrado entendeu que a PF desejava criar uma armadilha para que houvesse uma falha do STF e assim desmoralizar a relatoria do caso.

Sabe-se que os alvos de busca e apreensão da fase 2 foram os seguintes, embora a PF não tenha divulgado uma relação oficial detalhando o que foi feito:

Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master (teve 5 celulares apreendidos nesta fase)

Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro (preso temporariamente pouco antes de embarcar para Dubai)

Felipe Cançado Vorcaro, sócio do Master e primo de Vorcaro (cumpre medidas cautelares)

Nelson Tanure, empresário e investidor (cumpre medidas cautelares)

João Carlos Mansur, fundador e ex-CEO da gestora de fundos Reag, também liquidada pelo BC e suspeita de ter ligação com esquemas de lavagem de dinheiro e administrar fundos que atuaram em operações do Master

Henrique Vorcaro, pai de Vorcaro

Natália Bueno Vorcaro Zettel, irmã de Vorcaro e mulher de Fabiano Zettel

Eis o detalhamento dos bens apreendidos na fase 2 da Compliance Zero:

sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões para assegurar a recuperação de ativos

veículos: 23, avaliados em R$ 9,2 milhões

dinheiro em espécie: R$ 645 mil

celulares: 39 aparelhos

computadores: 31

armas: 30

Sigilo e celulares

O caso tramita no Supremo porque foi argumentado que há, pelo menos, uma autoridade citada e que tem prerrogativa de foro. É que foi encontrado pela Polícia Federal um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) em um endereço ligado a Daniel Vorcaro.

O material considerado mais sensível desse caso ainda não foi revelado por completo. Encontra-se nos 52 celulares apreendidos na investigação. Sabe-se que há citações a outras autoridades com foro. Esse é um dos pontos que dificulta o envio de toda a apuração à 1ª Instância, como é desejo de parte dos citados.

Acareação

O Poder360 revelou em 29 de janeiro de 2026, com exclusividade, os depoimentos dos principais citados no caso Master – Paulo Henrique Costa (BRB) e Daniel Vorcaro (Master) e o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino. Este jornal digital divulgou a íntegra dos vídeos e também da acareação entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro. As gravações foram realizadas em 30 de dezembro de 2025.

O procedimento foi conduzido pela delegada Janaina Pereira Lima Palazzo, na sede do Supremo Tribunal Federal.

São 32 reportagens, 8 vídeos com as íntegras dos depoimentos e 15 vídeos com cortes de trechos dos depoimentos e uma apuração extensa.

Poder 360

 

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