Nada é mais perigoso para a República do que o vício
que deixa de escandalizar. A voracidade política sobre cargos-chave é um desses
vícios. A politização excessiva dos tribunais de contas Brasil afora também
integra a galeria dos males nacionais. Somados, ajudam a explicar o que ocorre
agora no Tribunal de Contas da União (TCU): uma intensa batalha pela vaga
aberta com a aposentadoria compulsória do ministro Aroldo Cedraz, à qual pode
se somar a eventual saída antecipada de Augusto Nardes, que avalia disputar o
Senado. A possibilidade de duas vagas simultâneas estimula acordos cruzados –
apoio hoje em troca de sustentação amanhã – e escancara um apetite ainda maior
que os já conhecidos costumes de Brasília.
O TCU é composto por nove ministros, todos com cargo
vitalício e aposentadoria aos 75 anos: seis escolhidos pelo Congresso e três
indicados pelo presidente da República, sendo dois oriundos da carreira técnica
do próprio tribunal. A composição faz do TCU uma casa repleta de egressos do
Parlamento, conferindo-lhe grau de politização além do desejável. É o modelo
legal. Na prática, as vagas de Cedraz e de Nardes pertencem à Câmara. Após
eleição interna, o nome ainda passa por sabatina e votação no Senado.
A bancada governista lançou o deputado Odair Cunha
(PT-MG), com apoio do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Do
outro lado, Centrão e oposição articulam ao menos quatro nomes – Danilo Forte
(União-CE), Hugo Leal (PSD-RJ), Elmar Nascimento (União-BA) e Altineu Côrtes
(PL-RJ). A pletora de candidaturas tem um traço comum: todos com mandato,
políticos profissionais que veem no TCU um destino natural. Em campos
formalmente opostos, PT e PL já conversam sobre um possível acordão envolvendo
as duas indicações.
Não surpreende que o Congresso concentre esforços na
disputa por cargo vitalício e bem remunerado. O problema surge quando essa gula
se combina com o papel decisivo de controle externo que o TCU exerce sobre a
administração pública. O que deveria provocar desconforto institucional passou
a integrar a engrenagem ordinária do sistema.
A ocupação política de tribunais de contas, em todos
os níveis da Federação, deixou de causar espanto. Consolidou-se a percepção de
que essas vagas são peças do tabuleiro partidário, prêmio de consolação ou
extensão do poder político por outros meios. Perde-se de vista a finalidade
constitucional desses órgãos.
Criados para fiscalizar a aplicação de recursos e
aferir legalidade, legitimidade e economicidade dos gastos, os tribunais de
contas são pilares do sistema de freios e contrapesos. O modelo brasileiro,
inspirado em tradições europeias, estruturou essas instituições como órgãos
colegiados autônomos, com garantias semelhantes às do Judiciário, para
assegurar independência técnica e estabilidade decisória. A expectativa era
blindar o controle externo de pressões conjunturais.
A prática, porém, afastou-se desse desenho. Não
apenas pelo peso das indicações recorrentes de ex-deputados e ex-senadores,
embaralhando as fronteiras entre fiscalizado e fiscalizador, mas também pelo
avanço de interesses específicos. O episódio envolvendo o TCU e o caso do Banco
Master evidenciou como a atuação de ministro com forte padrinho político pode tensionar
a relação com o Banco Central (BC) e gerar insegurança institucional. O empenho
do ministro Jhonatan de Jesus, apontado como apadrinhado do ex-presidente da
Câmara Arthur Lira (PP-AL), ao restringir o acesso do BC ao processo em
tramitação no tribunal – justamente a autoridade responsável pela liquidação da
instituição financeira –, acendeu o alerta institucional.
A controvérsia suscitou uma discussão que vai além
do caso concreto: até onde vai o controle e onde começa a intervenção indevida.
O controle externo é indispensável à boa governança e à accountability, mas
encontra limites na separação de funções e na discricionariedade
administrativa. Nada disso, porém, diminui a importância dos tribunais de
contas.
Ao contrário, reforça a necessidade de preservá-los
como instituições técnicas e independentes. Se continuarem a ser tratados como
extensão do jogo político, perderão autoridade moral e eficácia prática. E a
República sentirá o peso da conta de mais uma distorção convertida em rotina.
Opinião do Estadão

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