Era inevitável que houvesse sexo entre os
ingredientes do escândalo do Banco Master.
É o nosso destino, como diz Paulo Prado, no clássico
Retrato do Brasil: ao lado da cobiça, tem-se a luxúria, ingredientes essenciais
da tristeza brasileira, resultado psíquico do esgotamento moral e físico
causado por ambas.
Para não variar, a expectativa advém do celular (ou
nos celulares) de Daniel Vorcaro, dispositivo que se tornou eventual Deus
ex-machina.
Escuto já faz algum tempo e leio agora nos jornais
que há imagens das festinhas que o banqueiro promovia, misturando autoridades
dos três poderes e moças de fino trato — de resto, bem mais fino do que o das
autoridades.
A história ganha contorno mais nítido com a
representação do Ministério Público junto ao TCU que recomenda a abertura de um
processo para identificar quais seriam as autoridades que participaram das
festas que Vorcaro dava em uma casa em Trancoso.
“Esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam
contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República,
incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do
mercado financeiro, da política e do meio jurídico”, diz a representação.
Antes de ser adquirida por Vorcaro, ao preço de R$
300 milhões, a casa onde ocorriam as, digamos, exibições do Cine Trancoso
pertencia a uma ricaça de São Paulo, que a alugava ao banqueiro.
Em um ocasião, a proprietária ficou furiosa com
Vorcaro por causa de uma festa para lá de animada dada por ele.
“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos
e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do
permitido. Ontem foi pior”, escreveu a dona da casa ao corretor responsável
pelo aluguel, em 5 de outubro de 2022, véspera do aniversário de Vorcaro, como
revelado pelos jornalistas Guilherme Seto e Lucas Marchisini.
A revista diz ter uma fonte que afirma ter assistido
a um suposto vídeo exibido na reunião do board de uma distribuidora de títulos
e valores mobiliários.
O suposto vídeo seria uma compilação de cenas das
festas promovidas por Vorcaro, que contaria com moças vindas do exterior, bem
mais confiáveis pelas distâncias geográfica e linguística que as separam destes
tristes trópicos. Diz a revista:
“O vídeo era estrelado por um ‘pica das galáxias’ do
Poder Judiciário. Foi assim, ‘pica das galáxias’, que um dos principais
executivos da Reag classificou o personagem quando o tema terminou sendo
abordado na mesa de trabalhos da operadora agora em liquidação pelo Banco
Central.
O vídeo estava arquivado no celular de Daniel
Vorcaro, à época banqueiro e ainda controlador do Master. Hoje, Vorcaro é
ex-banqueiro, o Master não é mais banco, a Reag está em liquidação e o celular
está retido pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal sob custódia
do Supremo Tribunal Federal.”
Noticias-se que houve festas em Trancoso, em Nova
York e em Lisboa, um “after” para aliviar os cérebros que haviam fumegado no
Gilmarpalooza.
“No dia seguinte ao after do banqueiro, os
participantes do Gilmarpalooza que circulavam na avenida da Liberdade, onde
estão localizadas as grifes de luxo de Lisboa, só falavam do evento do Master,
segundo três pessoas que acompanharam o seminário.
Muitos dos participantes viajaram acompanhados por
esposas ou namoradas, e a circulação de algumas das mulheres convidadas por
Vorcaro em lugares públicos despertou desconfiança e gerou falatório nas rodas
femininas.
Pessoas no entorno do Master contam que algumas das
mulheres frequentadoras das festas teriam se tornado próximas de Vorcaro. Recebiam
mesada, moravam em hotéis de luxo em São Paulo e ajudavam a trazer amigas para
participar das festas promovidas na cidade”, escrevem as repórteres Alexa
Salomão e Joana Cunha.
Quando indagada por jornalistas a respeito das
bagunças de Vorcaro, a defesa do banqueiro diz que “a divulgação de conteúdos
carregados de juízo moral, dissociados de qualquer relevância jurídica,
contribui apenas para a criação de ilações e para a indevida invasão da esfera
privada”.
De fato, seriam ingerência indevida e moralismo
fuçar e condenar festinhas privadas promovidas por adultos para adultos, em
ambiente no qual o sexo é praticado de forma consensual.
A questão é que as festas de Vorcaro teriam como
peça de resistência, além do sexo, a corrupção e o tráfico de influência
envolvendo autoridades e políticos. Nesse caso, a coisa se torna de interesse
público e é passível de julgamento moral.
Movido de absoluto interesse público, portanto, é
que vocalizo a pergunta que não quer calar: quem seria o “pica das galáxias do
Judiciário” que protagonizaria o suposto vídeo que estaria no celular de
Vorcaro?
Mario Sabino - Metrópoles

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