Cláudio Oliveira
Repórter
Entidades empresariais e a Secretaria de Desenvolvimento
Econômico do Rio Grande do Norte (Sedec) convergem na avaliação de que a
desaceleração na geração de empregos formais em 2025 reflete um ambiente
econômico menos favorável, marcado por juros elevados, desaceleração do
crescimento e perda de dinamismo em setores sensíveis ao consumo e ao
investimento. Ainda assim, destacam que o saldo positivo no acumulado do ano
demonstra resiliência da economia potiguar em um contexto nacional igualmente
mais moderado.
Apesar de o estado ter encerrado o ano no azul, com
15.870 vagas, o resultado foi o menor desde a pandemia da covid-19 e
representou uma queda superior a 50% na comparação com 2024, quando foram
criados mais de 34 mil postos formais.
Na avaliação do secretário-adjunto de
Desenvolvimento Econômico do RN, Hugo Fonseca, o comportamento do mercado de
trabalho potiguar acompanhou a tendência observada no país. Segundo ele, a
política monetária restritiva adotada pelo Banco Central para conter a inflação
teve impacto direto sobre o ritmo da economia. “Como conseqüência, há a
desaceleração da economia com a diminuição no volume de contratação. O Brasil
estava crescendo na casa dos 3,4% em 2024, bem acima do patamares dos países
emergentes, fora China e Índia”, afirmou.
O diagnóstico é compartilhado pela Fecomércio RN. O
presidente da entidade, Marcelo Queiroz, ressaltou que, embora comércio e
serviços tenham liderado a geração de vagas no estado em 2025, o saldo foi
consideravelmente menor do que no ano anterior. Para ele, o resultado está
diretamente ligado à desaceleração da economia potiguar, que saiu de um
crescimento estimado em 6% em 2024 para cerca de 2% em 2025. “Esse
comportamento do RN acompanha a economia brasileira, que também desacelerou em
crescimento e geração de empregos”, avaliou.
Além do cenário macroeconômico, a Fecomércio aponta
fatores locais que impactaram diretamente os setores que representa. Entre
eles, estão o aumento da carga tributária, os juros elevados e a concentração
do crescimento econômico na capital, o que limita a expansão do consumo e da
atividade nos municípios do interior. Segundo a entidade, comércio e serviços
dependem fortemente do desempenho da economia local e sentem de forma mais
intensa quando o interior cresce menos. “Os maiores desafios ao crescimento
encontram-se na área de infraestrutura, rodovias e saneamento, principalmente.
Segurança jurídica para investimentos é outro ponto de especial atenção a que o
poder público tem de estar atento”, diz o presidente da Fecomércio.
Quanto ao mês de dezembro, a retração no mercado de
trabalho formal já é esperada, segundo Queiroz, “em razão de fatores sazonais,
como a demissão dos temporários contratados nos meses anteriores por conta das
festas do final do ano e a conclusão de contratos públicos e privados”.
Na indústria, a leitura é semelhante. Dados
analisados pelo Observatório da Indústria Mais RN, ligado à FIERN, indicam que,
embora 2025 tenha mantido saldo positivo de empregos, houve perda de
intensidade na geração de vagas. De acordo com o assessor técnico Pedro
Albuquerque, a produção e a geração de novas vagas de trabalho formal na
indústria estão correlacionadas.
“A percepção de queda da produção, especialmente no
petróleo e gás e estabilização em outros setores como indústrias extrativas
(+0,78%) e alimentos (+0,74%) corroboram a percepção de que, mesmo diante de
2025 positivo, revela-se pior que 2024”, destaca.
Conforme dados do IBGE, a produção industrial
potiguar registrou queda de 2,3% em novembro de 2025, na comparação com o mesmo
mês do ano anterior, e acumulou retração de 11,8% entre janeiro e novembro. O
Observatório analisou que entre as micro e pequenas indústrias a queda se
verifica desde outubro de 2024, alcançando os menores valores dos últimos anos,
chegando a 39 pontos em abril e, atualmente, medindo 43 pontos (o que revela
completa desconfiança do setor com o futuro); o Índice de Utilização da
Capacidade Instalada (UCI) das fábricas caiu de 78% em 2024 para 72% em 2025 e,
por fim, o Índice de produção caiu de 51,6 pontos para 42,4 pontos neste ano.
“Por tudo isso, se confirma um 2025 mais desafiador que 2024 com perspectivas
para estabilização em 2026”, prevê Albuquerque.
Estabilidade no agro
A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio
Grande do Norte (Faern) destacou que a avaliação é de maior estabilidade no
campo e que o saldo positivo de empregos formais, mesmo em um cenário de
desaceleração econômica, evidencia a resiliência do setor e sua importância
para a ocupação no estado, especialmente em regiões onde a atividade
agropecuária tem peso relevante.
O presidente da entidade, José Vieira, diz que os
subsegmentos que mais contribuíram para o saldo positivo foram aqueles ligados
ao cultivo e à colheita. “Com destaque para a fruticultura irrigada, atividade
estruturante no Vale do Açu e no Oeste potiguar. Cadeias como melão, melancia e
banana mantiveram demanda consistente por mão de obra formal ao longo do ano,
sustentando o desempenho do setor”, destacou. O comportamento mensal, no entanto,
apresentou oscilações, com retração em dezembro, reflexo da sazonalidade típica
das atividades agrícolas e da redução de contratos temporários após os períodos
de colheita.
Atividades com ciclos curtos ou concentrados
registraram retração de vagas em dezembro, refletindo a vulnerabilidade dos
contratos temporários e a oscilação natural da atividade agrícola. A pecuária,
por sua vez, manteve estabilidade, mas com menor capacidade de geração líquida
de empregos.
Para ele, a valorização do trabalho rural, com
estímulo a vínculos mais longos e previsíveis, é fundamental para reduzir a
rotatividade e ampliar a formalização. “A qualificação profissional, área em
que o Senar tem atuado de forma decisiva, deve seguir alinhada às demandas
tecnológicas e operacionais das cadeias produtivas do estado”, disse o
presidente.
Além disso, Vieira defende que o aprimoramento da
infraestrutura rural (estradas, logística, energia e conectividade) é essencial
para reduzir custos e ampliar a competitividade das atividades agropecuárias.
“O fomento à agregação de valor, à diversificação produtiva e à adoção de
tecnologias que reduzam a sazonalidade também pode contribuir para gerar
oportunidades formais mais estáveis”, disse ele.

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