Em meio à crescente disputa entre Supremo Tribunal
Federal (STF) e Tribunal Superior do Trabalho (TST) sobre as competências de
cada um para decidir em matéria trabalhista, o decano do STF, Gilmar Mendes,
que relata recurso de repercussão geral sobre a “pejotização”, afirmou em
evento com empresários que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) se tornou
uma “vaca sagrada” — portanto, não poderia ser tocada.
As declarações de Gilmar foram feitas durante o
Seminário Econômico Lide na quarta-feira, 27, em Brasília. O evento foi
organizado pelo ex-governador de São Paulo e presidente do Lide, João Doria, e
contou com a presença de diversos empresários, com destaque para os setores
industrial, bancário e de saúde.
O ministro do STF Gilmar Mendes suspendeu todos os
processos sobre pejotização no País em abril de 2025 Foto: Foto: Fellipe
Sampaio/STF
Em sua fala, Gilmar defendeu a flexibilização das relações de trabalho e listou
uma série de processos em que o STF já decidiu favoravelmente a modelos
alternativos aos determinados pela CLT. “A insistência em manter modelos
ultrapassados de relações de trabalho gera insegurança jurídica, mina a livre
iniciativa e contamina o ambiente econômico”, afirmou o ministro.
A “pejotização” se refere à contratação de
profissionais como pessoas jurídicas (PJ) — sejam autônomos,
microempreendedores, terceirizados ou outras modalidades que não estão enquadrados
na CLT. Esse modelo de relação trabalhista cresceu no Brasil após a reforma
trabalhista de Michel Temer, em 2017, e gera críticas sobre precarização, perda
de direitos trabalhistas e evasão de encargos sociais.
“A CLT é um tipo desses dogmas. Talvez a substancial reforma que se venha a
fazer nesses últimos 80 anos seja essa feita no governo do presidente (Michel)
Temer. A CLT de alguma forma se tornou uma ‘vaca sagrada’, que não podia mexer.
Mexemos em tanta coisa. Antes era a Petrobras. Depois lideramos a Petrobras
para contratos mistos e outras coisas, mas a CLT continuava ‘imexível’”,
afirmou Gilmar.
STF e TST têm entrado em atrito diante do crescente
número de ações trabalhista que tratam de pejotização, sobretudo reclamações
constitucionais que chegam ao STF e invalidam decisões dos juízes do trabalho.
Os processos que pedem vínculo de emprego no
contexto da pejotizaçãocresceram 57% em 2024.
Para magistrados defensores da atuação do TST, a
quantidade de reclamações que chega ao Supremo se deve ao alargamento de
critérios para recebimento dessas ações pelos ministros. Eles afirmam ainda que
as decisões pró-trabalhador são dadas de acordo com disposições legais e não se
trata de escolha política. O diagnóstico também é de que o STF tem se imiscuído
em competências da Justiça do Trabalho.
Em abril deste ano, Gilmar suspendeu monocraticamente todos os processos em
tramitação no País sobre o tema. Ficaram suspensas ações que debatem a
contratação dos trabalhadores autônomos ou registrados como pessoa jurídica
para a prestação de serviços.
Gilmar convocou para o próximo dia 10 de setembro um
audiência pública para reunir dados e opiniões técnicas sobre os impactos
econômicos desse modelo de contratação. Antes do encontro, contudo, o ministro
já manifesta sua avaliação de que “não se pode se preservar pela caneta
relações jurídicas de emprego que na prática já desapareceram”. Para o
ministro, o que está em discussão é a “escolha entre modelo com trabalho e
outro sem trabalho”.
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