Tribuna do Norte
Espalhadas por diferentes localidades e chamadas
popularmente de “Disk água”, cerca de 2.000 microempresas distribuidoras de
água mineral atuam no Rio Grande do Norte por meio do fornecimento ao
consumidor final, ao mesmo tempo que movimentam a cadeia produtiva da
indústria de água mineral potiguar. No Estado, o faturamento do segmento
cresceu 24% de 2021 para 2022, saindo de R$ 60 milhões para R$ 74 milhões. Os
microempreededores respondem por um terço desse volume, cerca de R$ 24,5
milhões. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais
(Abinam).
Ao todo, cerca de 70% da água envasada pelas
fornecedoras é levada à população pelas microempresas distribuidoras. Segundo
Carlos Alberto Lancia, presidente da Abinam, além do serviço prestado ao
consumidor, esses negócios também são responsáveis pela abertura de postos de
trabalho e renda. “Eles fazem um papel muito importante e, ao mesmo tempo, são
gerados muitos empregos com isso”, destaca.
O potiguar Luiz Antônio da Silva, de 45 anos, é um
dos responsáveis por fomentar essa cadeia. O microempreendedor começou a
trabalhar na distribuição de água mineral em 2008, após ser demitido do
trabalho de operador de máquina, e hoje administra o estabelecimento Tonho do
Gás com o apoio de dois funcionários. O espaço fica no centro de Arês, a cerca
de 61,2 km de Natal, e já tem clientela fidelizada na região por meio da
distribuição de água e gás.
O caminho para o cenário, contudo, exigiu muito
suporte e pesquisa de mercado. Segundo o microempreendedor, o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do RN foi essencial
tanto no suporte inicial para entender o mercado de bebidas quanto no
acompanhamento por meio de capacitações. “Se você não tem o apoio hoje do
Sebrae, você entra no mercado sem entender”, afirma o empreendedor.
E foi aliando conhecimento teórico e prático que
Luiz Antônio começou a empreender em um pequeno depósito voltado apenas à venda
de garrafões de água mineral de 20 litros e, após dois anos, passou a também
contemplar a venda de gás em uma novo espaço. Na visão dele, o comércio é uma
boa área para se investir, mas exige esforços. “É preciso saber como é o
mercado, preço e qualidade. Aí você vai para a frente. A divulgação também é
muito importante”, destaca.
Como muitos empreendedores, precisa ser multifunção
e dividir o tempo entre administração, comunicação e transporte dos produtos.
Mas a correria não o impede de prezar por um fator primordial em qualquer
negócio: a relação com o cliente. Na perspectiva de Luíz Antônio, é
preciso transmitir seu caráter e alegria junto ao público. “É muito bom
demonstrar certo carinho com a clientela e ganhá-la com quem você é”, enfatiza
com confiança.
Da área de TI ao mercado distribuidor de
água
Natural de Juiz de Fora, Minas Gerais (MG), Robert
Rocha, de 33 anos, também encontrou em solo potiguar uma oportunidade para
empreender. Formado em Gestão Financeira e com experiência na área de
Tecnologia da Informação (TI), conta que resolveu sair de sua cidade natal com
o objetivo de conhecer novos lugares e buscar qualidade de vida. Em 2017,
chegou em Natal, onde resolveu se estabelecer e trabalhou para dar vida a sua
empresa: a Distrix Distribuidora Express - Água Mineral, Gelo e Carvão em Ponta
Negra e Capim Macio, eleita melhor distribuidora da capital por dois anos
seguidos.
A princípio, o plano do mineiro era continuar
trabalhando na área de TI, mas percebeu que o mercado local não se encaixava
com sua forma de atuação. “Todas as vezes que eu ia na janela e pedia alguma orientação
a Deus, eu via um motoqueiro com água mineral chegando”, compartilha sorrindo.
Foi então que uniu a fé à visão de mercado e resolveu apostar na venda de água
mineral em virtude da recorrência do produto.
No fim de 2017, realizou uma campanha na região do
condomínio em que mora, em Natal, com 20 garrafões para teste. “Então eu vi que
começou a aparecer um pedido aqui, um pedido dali, e pensei ‘cara, isso vai dar
certo’. Só que eu não tinha um veículo para a entrega, porque a minha intenção
era trabalhar dentro do condomínio que eu morava. E o nosso [da empresa]
primeiro cliente, de fato, foi o meu condomínio e depois alguns moradores”,
relata Robert.
Com êxito na aposta inicial, o empreendimento
começou a tomar forma, tendo como primeiro depósito o fusca do empreendedor. Na
medida em que a demanda crescia, foram realizadas mudanças por quatro lojas
físicas até chegar ao estabelecimento atual da Distrix Distribuidora Express na
zona Sul de Natal. Hoje, os principais clientes da distribuidora se concentram
nos bairros de Capim Macio e Ponta Negra, sendo formado majoritariamente por
pessoas jurídicas.
Apesar da experiência no ecossistema mercadológico,
Robert Rocha demonstra a necessidade de não estacionar, seguir em busca do
aperfeiçoamento e prezar pela relação junto ao público-alvo. “É preciso cuidar
de si, mas também cuidar do próximo porque o nosso trabalho é o cuidado com o
cliente. Ser empreendedor em nosso país, especialmente, é muito difícil. Mas os
que estão dispostos a seguir esse caminho terão dificuldade no início, mas lá
na frente vão começar a colher os frutos porque tudo é difícil no início”,
finaliza.
Aos 39 anos, o microempreendedor Angelo Macedo
conhece bem as adversidades que atravessam a atividade empreendedora.
Assim como Luiz Antônio da Silva, a demissão do trabalho foi um dos principais
indutores de seu negócio. Em 2018, buscando uma forma de sustento para a
família, começou a trabalhar com a distribuição de água mineral apenas com seu
caminhão e acumulava todas as funções da atividade.
Atualmente, a empresa do microempreendedor, a 3A
Distribuidora de água Mineral, já tem um estabelecimento na zona Leste de Natal
e cinco funcionários. Neste ano, especialmente, ele comemora a retomada gradual
das vendas após quase dois anos de dificuldades. “Em 2021 passei por um grande
aperto financeiro. Não sou um bom administrador, mas sou bom de logística”,
reconhece.
Vindo de uma família de comerciantes e com ensino
fundamental incompleto, o microempreendedor demonstra ser graduado quando o
assunto é atender o cliente com agilidade e segurança. Para o futuro da sua
distribuidora, almeja ampliar o leque de produtos disponibilizados aos seus consumidores,
em sua maioria concentrados nos bairros Cidade Alta, Rocas e Petrópolis. Até
lá, deixa claro um de seus maiores combustíveis: “A gente procura uma
realização financeira, se realizar profissionalmente, dar um conforto para a
família e dar um emprego para quem precisa”, finaliza.
Sebrae RN apoia a formalização dos
negócios
Para que possam atuar regularmente no ramo de água
mineral, os microempreendedores precisam formalizar o seu negócio e buscar
maneiras de se capacitar. O Sebrae, nesse sentido, atua com orientações
técnicas para que o empresário possa se formalizar, tornar-se uma pessoa
jurídica e entrar no mercado de trabalho. Horácio Barreto, gestor responsável
pelo atendimento às indústrias de alimentos e bebidas do Sebrae RN, observa que
mesmo os microempreendedores precisam conhecer as noções básicas sobre gestão
empresarial.
“É importante que aquela pessoa que deseja
empreender no segmento de água mineral tenha o mínimo de conhecimento sobre o
setor, ou seja, quais as exigências que se tem para poder atuar conforme a
lei”, orienta. Somado a isso, o estabelecimento físico das distribuidoras
também são um ponto de atenção, pois após o envase a água é considerada um
alimento. Isso significa que ela precisa estar bem acondicionada, atendendo aos
protocolos dos órgãos de saúde e vigilância sanitária.
A regularização dos pequenos negócios pode ser
realizada online, presencialmente no Sebrae ou em escritórios nas cidades
regionais do estado. O procedimento exige que o empreendedor entregue
identidade e comprovante de residência. A depender do tamanho e da
atividade do negócio, o empreendedor torna-se um microempreendedor individual
(MEI), ou formaliza uma micro ou pequena empresa.
“Após a formalização, dependendo das necessidades do
empresário, ele pode continuar utilizando os serviços do Sebrae-RN para
melhorar a sua gestão e até apresentar e elaborar planos de negócio para
obtenção de crédito junto às instituições oficiais de crédito”, enfatiza
Horácio Barreto.
Pequenos: estratégicos na entrega
O presidente do Sindicato das indústrias de
cervejas, refrigerantes, águas minerais e bebidas em geral do RN (Sincramirn),
Joafran Antonio Guedes Nobre, destaca o papel do ecossistema da indústria de
água mineral na geração de emprego e renda. “Hoje a Indústria de água mineral
está estabelecida no RN há mais de 50 anos. A gente tem 22 empresas e mais de
1.500 empregos diretos e mais de 10.000 indiretos entre distribuidores, disks,
revendedores e transportadores”, pontua.
No que se refere aos microempreendedores, ele chama
atenção para o papel exercido por eles na entrega de água mineral com qualidade
e segurança à população. “Nas fontes, a legislação sanitária é muito rigorosa e
isso faz com que o produto tenha uma garantia de qualidade ao sair das indústrias.
A partir disso, cabe aos transportadores e pequenos comerciantes, o bom
manuseio do produto para que chegue ao consumidor final”, explica.
Roberto Serquiz, sócio proprietário da tradicional
empresa Água Santa Maria e presidente eleito da Federação das Indústrias do Rio
Grande do Norte (Fiern), aponta que os microempreendedores exercem papel
significativo na distribuição dos garrafões de 20 litros de água mineral. Em
sua fornecedora, dos cerca de 130 distribuidores cadastrados cerca de 70% são
microempreendedores.
Na atuação da Naturágua, uma das sete empresas do
Grupo Telles, a distribuição dos garrafões retornáveis de 10 litros e 20 litros
no RN só funciona com a cadeia estruturada dos pequenos empreendedores. É o que
aponta Aline Chaves, vice-presidente de operações do Grupo Telles. “O nosso
forte [no RN] são os mercadinhos, os disks e as conveniências que atendem o
consumidor e sem isso você não pulveriza o produto e não o enraiza”,
explica. Hoje, mais de 70% da distribuição da empresa no estado é feita
pelos pequenos negócios.

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