domingo, 30 de agosto de 2026

RN perde US$ 37 milhões com tarifaço dos EUA e só redireciona 2% das exportações para outros mercados

 


Cláudio Oliveira
Repórter

Após o aumento das tarifas imposto pelo presidente americano Donald Trump, o Rio Grande do Norte perdeu espaço no mercado dos Estados Unidos e conseguiu redirecionar para outros países apenas cerca de 2% das vendas que deixaram de ser realizadas. Dos US$ 37,3 milhões que o Estado deixou de exportar aos americanos nos produtos diretamente afetados pelo tarifaço, somente US$ 0,9 milhão reapareceu em outros destinos. O dado indica que a retração foi, em sua maior parte, uma perda efetiva de mercado, e não apenas uma mudança na rota das mercadorias.

A conclusão consta da análise da balança comercial do RN, elaborada pelo Sebrae/RN, que acompanha o comércio exterior entre 2020 e o primeiro semestre de 2026. A substituição foi baixa ou inexistente para pescado, produtos de origem animal, granitos, confeitos e sal. A principal exceção parcial foi a castanha de caju, que conseguiu transferir parte da perda americana para compradores do Peru, Chile, Equador, El Salvador e França.

Para o economista Helder Cavalcanti, o resultado evidencia a dificuldade de substituir rapidamente relações comerciais consolidadas. “Uma relação comercial é construída ao longo do tempo. Envolve compradores, contratos, logística, padrões de qualidade, exigências sanitárias, preços e confiança entre as empresas”, afirma. Segundo ele, a barreira tarifária reduziu a competitividade dos produtos potiguares sem que surgissem compradores alternativos na mesma velocidade. “Em resumo, é muito mais rápido perder um mercado do que construir um novo”, resume.

A análise do Sebrae identifica uma relação temporal entre a imposição das tarifas e a redução das exportações potiguares aos EUA. Antes do tarifaço, o RN exportava, em média, US$ 8,7 milhões por mês para o mercado americano. Nos três meses de vigência plena da tarifa de 50%, a média caiu para cerca de US$ 3 milhões mensais. Considerando apenas os produtos afetados, a retração chegou a 58%.

A recuperação acompanhou o desmonte das barreiras após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em fevereiro de 2026. O fluxo passou para aproximadamente US$ 3,9 milhões mensais na fase de alívio parcial e chegou a US$ 4,8 milhões após a decisão, ainda abaixo dos US$ 8,7 milhões anteriores ao tarifaço.

Na comparação dos 11 meses entre agosto de 2025 e junho de 2026 com o período anterior, os produtos mais afetados foram os de origem animal impróprios para alimentação humana (-91%), atuns frescos, com perda superior a US$ 7,8 milhões, granitos trabalhados (-94%), outros peixes frescos (-90%), castanha de caju (-77%), confeitos (-29%) e sal marinho (-47%).

O Sebrae faz uma ressalva em relação ao pescado: os atuns também apresentaram retração em outros mercados, indicando a combinação de fatores específicos do setor com o ambiente tarifário. Por isso, o relatório não atribui toda a queda às tarifas. A redução das vendas de derivados de petróleo aos EUA também não é considerada efeito do tarifaço, já que esses produtos estavam isentos desde o início.

A TRIBUNA DO NORTE procurou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec/RN), a Federação das Indústrias do Estado (Fiern) e o Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca/RN) para avaliar os efeitos da perda de mercado, mas não recebeu retorno sobre o assunto até o fechamento desta edição.

Mudança leva a recorde

O impacto do tarifaço ocorreu em meio a um primeiro semestre de 2026 recorde para o comércio exterior potiguar. O RN exportou US$ 639,1 milhões entre janeiro e junho, alta de 30% em relação ao primeiro semestre de 2025. As importações somaram US$ 242 milhões, aumento de 5,9%, resultando em superávit recorde de US$ 397,1 milhões, 51,2% acima do registrado no ano anterior.

O resultado foi puxado principalmente pelas exportações. Petróleo e derivados responderam por US$ 291,1 milhões; ouro, por US$ 157,5 milhões; e frutas frescas, por US$ 105,2 milhões. Juntos, os três grupos representaram 86,7% das vendas externas do Estado no semestre. Na sequência aparecem tecidos de algodão (US$ 10,7 milhões), sal (US$ 9,4 milhões), açúcar (US$ 7,8 milhões) e tungstênio (US$ 6,8 milhões).

Petróleo e ouro responderam, sozinhos, por aproximadamente 71% da pauta. O petróleo alcançou US$ 291,1 milhões, praticamente o mesmo valor do primeiro semestre de 2025. O ouro ganhou relevância com a produção de Currais Novos e alcançou US$ 157,5 milhões, diante de uma base praticamente nula no ano anterior. Nenhum dos dois está no centro do impacto do tarifaço: o petróleo estava entre os produtos isentos das tarifas amplas americanas e o ouro tem como principais destinos Canadá e Suíça.

A fruticultura também alcançou seu melhor desempenho semestral, enquanto sal, pescado e tungstênio reforçaram a diversificação da pauta. Ao mesmo tempo, petróleo e ouro passaram a representar uma concentração de cerca de 71% das exportações.

Sal mantém produção e clientes, mas perde vendas

No setor salineiro, o impacto aparece principalmente na comercialização e nas margens, e não na produção. O presidente do Sindicato das Indústrias do Sal do Estado do Rio Grande do Norte (Siesal/RN), Airton Paulo Torres, relembra que o sal vendido aos Estados Unidos é utilizado principalmente no degelo de estradas, o que provoca oscilações conforme a intensidade do inverno americano. “Com isso, precisamos ver a estatística em um período maior”, aponta.

Segundo ele, entre 2019 e junho de 2025 o Brasil exportou, em média, cerca de 530 mil toneladas de sal por ano aos EUA. “A partir de julho de 2025, o impacto tem sido severo, afetando as margens das empresas exportadoras”, diz. “A partir da vigência do tarifaço não houve queda na produção. O excedente está sendo ofertado no mercado interno e, principalmente, utilizado para recomposição de estoques”, completa.

O sindicato não identifica ruptura das relações comerciais. “Enquanto perdurar o tarifaço, vai ocorrer perda de vendas, sem contudo estabelecer-se uma ruptura junto aos clientes”, afirma Airton Torres.

A dificuldade de encontrar novos compradores, segundo ele, está relacionada às características do produto. “O sal brasileiro, pelo baixo valor agregado que tem, está limitado à costa oeste da África, EUA e um pouco no Canadá.”

Os dados do Sebrae corroboram a concentração. Entre 2020 e junho de 2026, Nigéria e Estados Unidos responderam juntos por 81,3% do valor exportado de sal pelo RN. No primeiro semestre deste ano, o Estado exportou US$ 9,4 milhões do produto, 8,2% menos que no mesmo período de 2025. O volume físico, contudo, cresceu 15,3%, passando de 454,6 milhões para 524,3 milhões de quilos. A queda do valor foi provocada principalmente pelo recuo do preço médio.

Itamaraty cita negociações em andamento

O Ministério das Relações Exteriores afirma que “a busca pela diversificação de parcerias é uma diretriz da política comercial brasileira” e aponta a abertura de novos mercados e a consolidação de parcerias existentes como focos da atuação comercial. O Itamaraty cita o acordo Mercosul-União Europeia, em vigor desde maio; o acordo Mercosul-Singapura, em vigor para o Brasil desde agosto; e o acordo Mercosul-EFTA, com entrada em vigor prevista para outubro.

Também estão em negociação acordos com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e Japão, além da ampliação do acordo comercial com a Índia. Com Emirados Árabes Unidos e Canadá, as negociações estão em estágio avançado.

A necessidade de diversificação ocorre em meio à retração do comércio bilateral. Segundo o MDIC, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025. As importações brasileiras de produtos americanos também recuaram, levando a uma redução de 12,8% na corrente de comércio entre os dois países.

Para Helder Cavalcanti, o mercado americano não é insubstituível, mas difícil de substituir rapidamente. O economista defende que a diversificação seja permanente e diz que o desafio estratégico é reduzir a dependência de qualquer mercado específico. “É preciso conseguir chegar ao comprador com preço, qualidade, escala, regularidade e logística competitiva.”

COMO O TARIFAÇO EVOLUIU
Fevereiro de 2025:
EUA anunciam medidas tarifárias setoriais sobre produtos de ferro e aço.

Abril de 2025:
Governo americano anuncia uma tarifa “recíproca” de 10% sobre as importações brasileiras.

Agosto de 2025:
Entra em vigor uma tarifa adicional de 40%, elevando a alíquota total para 50% sobre grande parte dos produtos brasileiros, com uma lista de exceções que inclui, entre outros itens, o petróleo.

Novembro de 2025:
EUA retiram a sobretaxa de 40% de alguns produtos brasileiros, entre eles café, carnes e frutas.

Fevereiro de 2026:
Suprema Corte americana invalida a base legal das tarifas amplas impostas pelo governo Trump. Permanecem tarifas setoriais e uma sobretaxa global temporária de 10%.

Julho de 2026:
Estados Unidos anunciam novas sobretaxas sobre produtos brasileiros com encargos adicionais de 25% e 12,5% para diferentes grupos de produtos. Dependendo da mercadoria, as tarifas podem chegar a 37,5%.

 

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