Fernando Azevêdo
Repórter
Comércios tradicionais resistem à onda de
fechamentos que atinge grandes redes no Centro de Natal, graças à relação com
os clientes. Consumidores frequentam o mesmo ambiente há anos, passam o hábito
para as próximas gerações e ajudam a manter vivo o comércio de rua no centro
histórico da capital potiguar.
Os fechamentos ocorreram especialmente no período
pós-pandemia, quando aumentou a preferência dos consumidores por compras
online. Mas quem acompanha a situação do centro diz que o problema do
esvaziamento é mais antigo. Segundo Rodrigo Vasconcelos, presidente da
Associação Viva o Centro de Natal (Avicen), o desaquecimento é notado desde os
anos 1990.
A reportagem percorreu as ruas do Centro de Natal.
Na avenida Rio Branco, entre o IFRN campus Centro Histórico e o Sesc Rio
Branco, a equipe identificou ao menos 30 imóveis comerciais com placas de
“vende-se” ou “aluga-se”, além de outros estabelecimentos fechados.
São exemplos de grandes redes que deixaram essa
avenida: a loja Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial em agosto
e encerrou as atividades na Av. Rio Branco no último dia 14; a Magazine Luiza;
a C&A; a Marisa e as Americanas. A TRIBUNA DO NORTE perguntou o número
total de imóveis comerciais fechados no Centro à Prefeitura do Natal, mas não
obteve resposta a essa informação.
Por outro lado, lojas tradicionais seguem
funcionando. Quem entra na Casas Cardoso, por exemplo, nota o espaço amplo, que
reúne clientes fiéis há décadas. “Aqui é uma loja de tradição. Ainda
conseguimos vender. A Casas Cardoso sempre foi e sempre será uma loja muito
boa”, conta Ernanes Solano de Andrade, 64 anos, vendedor há 36 anos.
A empresa resiste no Centro há 65 anos (desde 1961)
e tem uma clientela devota. “O atendimento é mais próximo, é mais humano. A
gente tem muita qualificação aqui nos artigos, mais do que nas outras, e mais
quantidade também”, diz Ernanes Solano. Segundo ele, ainda assim, o movimento
diminuiu desde o período pós-pandemia.
Um dos diferenciais da Casas Cardoso é o atendimento
personalizado. A figurinista Wanderleia Dias, 41, desenha modelos exclusivos
para quem compra tecidos na loja – croquis que depois viram referência para as
costureiras. “Eu crio de acordo com a proposta da cliente”, explica a
estilista.
Izabela Lourenço, 42, vem de Santa Cruz apenas para
comprar na loja, um hábito que herdou da mãe e da avó. “Minha mãe falava, tanto
para mim como para minha irmã, que minha avó já comprava aqui na Casas
Cardoso”, conta a dona de casa. Para ela, o atendimento, a variedade de tecidos
e o preço são atrativos.
A loja Rio Center também tem história no Centro de
Natal. São 89 anos na região, segundo conta o gerente da unidade, Gustavo de
Freitas, 41. O empresário Alcides Araújo abriu a loja nos anos 1930. “Começou
praticamente na Segunda Guerra Mundial, onde ele começou a vender meias e
aprendeu a falar inglês para poder crescer lá no comércio”, diz Gustavo.
A empresa aposta na fidelidade dos clientes e na
variedade de itens. “Nosso cliente, basicamente, é o mesmo. Atendemos à família
toda. É um público mais clássico. Temos clientes que estão conosco há 50, 60 anos”.
A funcionária pública aposentada Maria José Lemos do Nascimento, 72, compra na
Rio Center há mais de 20 anos. “A loja, para mim, é referencial em tudo. Em
artigo, em atendimento, em embalagens. Só compro aqui”, afirma.
Para ela, o Centro de Natal precisa de
investimentos. “Fico com o coração partido quando eu venho aqui na Cidade
[Alta] e vejo as lojas, a maioria fechadas. Fico muito constrangida com isso.
Às vezes, quando eu subo ali, é orando. Quando a gente vê um comércio fechar, a
gente pensa logo no desemprego”, reflete.
O setor de serviços também resiste na região, como a
empresa Relâmpago Malas e Calçados, que já tem 60 anos de história. O sócio
Kleber Rocha Pontes, 58, relata que a loja foi fundada por seus avós, que
tinham uma fábrica de sapatos nas Rocas. Hoje, os serviços se mantêm, desde
ajustes e consertos em acessórios até a confecção de itens sob medida. “A gente
sobrevive ainda por ser serviço, porque o cliente corre atrás do serviço [...]
Temos clientes de muito tempo, desde [a época] dos meus avós”, diz.
Comércio de bairro é fator para
esvaziamento
Segundo Rodrigo Vasconcelos, manter uma loja aberta
no Centro de Natal ficou mais caro, principalmente, devido aos custos do
aluguel. O que também ajuda a explicar o esvaziamento do Centro é a expansão
dos comércios de bairro: “Se a pessoa pode comprar no seu bairro, ela deixa de
ir ao centro comercial”, explica. “Mas há uma solução, que é o investimento
público no próprio centro comercial, para gerar aquele movimento e tentar se
reconstruir”, acrescenta.
Ele avalia que lojas tradicionais mantêm sua
presença no Centro porque têm prédio próprio ou uma clientela fiel.
Na visão do economista Helder Cavalcanti, “algumas
lojas tradicionais do Centro atravessaram décadas porque aprenderam a conhecer o
cliente. Muitas vezes conhecem seu nome, seus hábitos, sua família e aquilo que
ele procura”. Essa relação produz confiança e memória afetiva.
As grandes redes, por sua vez, trabalham com outra
lógica. “Dependem de escala, grande circulação de consumidores, padronização e
determinados níveis de faturamento por loja. Quando aquele ponto deixa de
atender a esses critérios, a empresa tende a migrar para shoppings centers,
corredores comerciais mais valorizados ou ampliar sua presença digital”,
afirma.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
do Rio Grande do Norte (Fecomércio-RN) avalia que a “expansão dos shopping
centers e, mais recentemente, do comércio eletrônico, também ampliou as opções
do consumidor. Soma-se a isso um ambiente de forte concorrência.”
Para a entidade, a Cidade Alta segue sendo um
importante corredor comercial de Natal. “Seu fortalecimento passa tanto pela
adaptação do setor a essa nova realidade quanto pela continuidade das ações de
revitalização da região”, diz a Fecomércio-RN.
Revitalização exige investimentos
públicos
Para a Avicen, a revitalização da Cidade Alta exige
habitação e investimentos públicos em infraestrutura, como segurança e
mobilidade, além de incentivos fiscais para atrair negócios. Rodrigo
Vasconcelos diz que é preciso estancar o encerramento gradual das atividades na
região. “Sem investimento público, a cada dia que passa vai fechando mais
lojas, e a gente vai ficando nesse deserto”.
Para Helder Cavalcanti, a recuperação do Centro
depende de uma ação integrada entre o setor público, entidades empresariais e a
sociedade para enfrentar desafios urbanos, econômicos e tecnológicos. “Temos
crédito caro, consumidores endividados, concorrência digital, custos
operacionais elevados e mudanças rápidas nos hábitos de consumo. Somam-se a
isso questões de segurança, mobilidade, estacionamento, limpeza, iluminação,
conservação urbana e ocupação dos espaços”, detalha.
Prefeitura aposta na circulação de
pessoas no centro
A Prefeitura de Natal afirma adotar uma estratégia
de revitalização do bairro Cidade Alta. A ação “combina intervenções de
infraestrutura e urbanismo com medidas voltadas à retomada da atividade
comercial e à ocupação residencial dos imóveis atualmente vazios ou
subutilizados”, diz o secretário municipal de Planejamento, Vagner Araújo.
Segundo ele, entre as ações há obras de
revitalização das ruas João Pessoa e Coronel Cascudo, além de intervenções que
“estão em retomada e caminhando para conclusão”. Além disso, a Prefeitura
afirma dialogar com comerciantes do Centro, que têm apresentado demandas.
“A avaliação da Prefeitura é de que a recuperação do
Centro depende da retomada da circulação de pessoas e, consequentemente, da
criação de um ambiente com maior sustentabilidade econômica. A reocupação dos
imóveis e a diversificação das atividades são consideradas fundamentais para
que os investimentos em infraestrutura tenham efeitos duradouros”, diz o
secretário.

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