Gravações da Polícia
Federal obtidas no âmbito da Operação Mederi revelaram que a Prefeitura de
Mossoró era tratada por operadores de um esquema bilionário de desvio de
medicamentos como o “pulmão” de toda a engrenagem criminosa no Rio Grande
do Norte.
Em áudios capturados por
uma câmera escondida, os sócios da distribuidora Dismed confessam que a
estrutura financeira dependia quase inteiramente dos contratos com
a gestão de Allyson Bezerra (União Brasil), conforme divulgou o Blog
do Dina nesta quarta-feira (20).
Segundo os autos, os
empresários Oseas Monthalggan e Raimundo Wandecy, o “Nenén”, detalharam em
conversas gravadas em maio de 2025 que, sem o volume de recursos de Mossoró,
seria impossível sustentar as fraudes em outras prefeituras do estado. “Se não
tivesse Mossoró, nós não tinha volume para ganhar não. (…) O pulmão enchia de
ar”, afirmou Nenén em um dos trechos transcritos pela PF.
Os números levantados pelo
Ministério Público Federal (MPF) confirmam o peso da cidade no esquema. Entre
2021 e 2025, a prefeitura repassou mais de R$ 13,5 milhões à distribuidora.
Esse montante supera a
soma de tudo o que a empresa recebeu de outros cinco municípios potiguares
juntos (Serra do Mel, José da Penha, Apodi, Paraú e Pau dos Ferros).
Mossoró respondia por 59% de todo o faturamento documentado nos autos.
A “Matemática de Mossoró”
e os 15%
No diálogo mais forte, os
investigados revelam o cálculo exato da divisão de propinas sobre as Ordens de
Compra (OCs) emitidas pelo município. Conforme a transcrição da PF, para cada
R$ 500 mil pagos pela prefeitura, a empresa entregava apenas metade em
medicamentos. A outra metade era dividida entre a margem de lucro e o pagamento
de vantagens indevidas.
Na conversa, Oseas cita
uma barreira de retenção de 25% para pagamentos ilícitos, especificando “quinze
do homem e dez disso aí”. Segundo o relatório da Polícia Federal (página 1043
do processo), “o homem” refere-se ao então prefeito, enquanto os 10% restantes
seriam destinados a uma assessora de comunicação da gestão: “Se você vender um
milhão, você só vai ver quinhentos”, resumiu o empresário.
Desdobramentos
A dependência do esquema
em relação à prefeitura ficou comprovada após a fase ostensiva da Operação
Mederi, deflagrada em 27 de janeiro de 2026. Sem o fluxo de caixa proveniente
de Mossoró, o faturamento da Dismed despencou 87,13% em apenas um mês,
inviabilizando as operações comerciais que a empresa mantinha em mais de 20
municípios do estado.
A defesa de Oseas
Monthalggan nega a legalidade e o cabimento das medidas cautelares aplicadas
pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). Em notas anteriores, a
assessoria jurídica da Prefeitura de Mossoró sustentou que todos os contratos
com a distribuidora seguiram rigidamente os trâmites legais de licitação. A
atual administração municipal ainda não emitiu pronunciamento oficial sobre o
teor das escutas divulgadas.
Inquérito sob análise do
TFR-5
O desembargador federal
Rogério Fialho Moreira, do TRF-5, decidiu manter na Corte a supervisão do
Inquérito Policial nº 0815703-53.2023.4.05.0000, que investiga as suspeitas de
fraudes e desvios de recursos públicos na compra de medicamentos por
prefeituras potiguares.
A decisão rejeita
manifestação do Ministério Público Federal, que defendia o envio do caso para a
primeira instância. Para o relator, há elementos concretos que justificam a
permanência do inquérito no âmbito do Tribunal.

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