terça-feira, 5 de maio de 2026

Em reunião secreta, Banco Central pressionou BRB e citou intervenção e privatização

 


Numa reunião secreta realizada no feriado de 1º de maio, diretores e técnicos do Banco Central (BC) pressionaram dirigentes do BRB por uma alternativa rápida à crise de liquidez, e chegaram a sugerir que alguma medida poderia ser tomada ainda no final de semana caso a situação do banco estatal de Brasília se revelasse insolúvel.

Durante o encontro, que não foi registrado na agenda oficial de nenhum dos participantes, falou-se em realizar uma intervenção, mas cogitou-se também fatiar algumas áreas do banco e repassar a concorrentes, no que foi interpretado pelos executivos do BRB como uma pressão pela privatização da instituição.

Participaram das discussões pelo BC os diretores Ailton de Aquino (Fiscalização) e Gilneu Vivan (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução) e três técnicos do órgão regulador. Pelo BRB estavam o presidente, Nelson de Souza, os diretores Antônio José Barreto de Araújo Júnior (Finanças e Controladoria) e Ana Paula Teixeira (Controles e Riscos) e o secretário de Economia do Distrito Federal, Valdivino José de Oliveira.Na conversa que durou duas horas, os diretores do BC se disseram preocupados com a crise de liquidez e pediram aos dirigentes do BRB que fossem transparentes a respeito da situação do banco, mencionando a necessidade de encontrar uma “solução”.

No final de março, quando o BRB deixou de publicar seu balanço em razão de um rombo que, se exposto, poderia levar à intervenção ou à liquidação imediata, o BC deu até o final de maio para a instituição encontrar uma saída para a crise. Desde então, o banco estatal de Brasília vem pagando uma multa diária de R$ 30 mil por dia, enquanto tenta captar recursos para pagar seus compromissos, resolvendo o problema de liquidez, e cobrir o rombo no patrimônio, avaliado em R$ 8,8 bilhões.

No último dia 20, o BRB anunciou a venda para a gestora Quadra de uma carteira de ativos que recebida do Banco Master numa troca pelas carteiras fraudadas compradas da instituição de Daniel Vorcaro. O negócio, pelos quais o BRB receberá R$ 4 bilhões, ainda não foi concretizado, mas na reunião os executivos do banco de Brasília disseram que o dinheiro entrará no caixa até o dia 20 de maio e cobraram do BC que respeite o prazo que ele mesmo estabeleceu.

Os executivos disseram ainda que estão tentando formas de financiamento alternativas ao empréstimo de outros R$ 4,5 bilhões que pediram ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), e que pode não sair se não tiverem o aval da União, como já informamos no blog.

A chancela da União é a exigência do FGC e de um consórcio de bancos coordenados pelo Bradesco para aportar os recursos no BRB, mas o presidente Lula deu ordens nos bastidores aos bancos estatais e ao Tesouro para que não participe do salvamento do banco de Brasília.

A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), esperava ser recebida nesta segunda-feira por Lula para discutir o assunto, mas até agora não conseguiu.

Privatização

Caso nenhuma das alternativas em negociação pelos executivos do BRB vá adiante, a privatização é uma possibilidade real.

Uma das razões é que o BC sempre prefere uma solução de mercado, e uma intervenção em um banco estatal, com programas sociais, depósitos judiciais de vários tribunais pelo Brasil e carteiras de crédito consignado, seria bem mais complexas do que as realizadas em bancos privados. Outro dificultador é o fato de estarmos às vésperas de uma eleição em que o BRB certamente entrará na pauta dos debates. O fato de o BC já estar sobrecarregado com a liquidação do Master também não ajuda.

Celina tem se colocado contra uma eventual privatização do BRB. Seus aliados enxergam na pressa do BC o resultado da pressão de concorrentes privados. Mas o fatiamento dos negócios ou a venda de todo o banco para um concorrente pode acabar sendo mesmo a saída para estancar a crise da liquidez.

Entre as possibilidades discutidas está a venda do espólio de depósitos judiciais mantidos pelo BRB. Esses depósitos são, em geral, as cauções determinadas por juízes e que funcionam como garantias para evitar calotes ao final de ações dos processos. Os valores são custodiados pelos tribunais de Justiça, que fazem licitações para escolher o banco em que eles ficarão depositados.

O banco de Brasília ganhou certames nos últimos anos para custodiar os valores prometendo taxas de retorno maiores do que outras instituições como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, mas ainda assim abaixo dos juros de mercado.

Atualmente, o BRB tem R$ 30 bilhões dos Tribunais de Justiça de Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba e também do Distrito Federal e dos Territórios.

Diferentemente de aplicações financeiras tradicionais, esses recursos têm natureza sensível: são garantias de processos judiciais e pressupõem segurança absoluta. Qualquer risco de perda ou atraso na disponibilidade pode gerar efeitos em cadeia sobre tribunais e governos.

Também estão sobre a mesa as carteiras de crédito do BRB e o consignado ofertado pelo banco no próprio Distrito Federal, em Goiás e no Tocantins.

Como mostramos no blog no último dia 20, o BRB beirou a insolvência nos últimos meses. Para contornar as dificuldades, o banco vendeu um lote de carteiras de crédito consideradas boas pelo mercado, mas as alternativas não foram suficientes.

Além disso, o banco não tem conseguido captar mais empréstimos ou depósitos, o que nos cálculos dos executivos do banco vem encurtando o limite de tempo para que se encontre uma solução.

Ao final da reunião com o BC, o BRB conseguiu segurar o prazo do fim de maio para entregar uma solução. Se vai conseguir, é um outro problema.

Malu Gaspar - O Globo

 

 

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