Numa reunião secreta realizada no feriado de 1º de
maio, diretores e técnicos do Banco Central (BC) pressionaram dirigentes do BRB
por uma alternativa rápida à crise de liquidez, e chegaram a sugerir que alguma
medida poderia ser tomada ainda no final de semana caso a situação do banco
estatal de Brasília se revelasse insolúvel.
Durante o encontro, que não foi registrado na agenda
oficial de nenhum dos participantes, falou-se em realizar uma intervenção, mas
cogitou-se também fatiar algumas áreas do banco e repassar a concorrentes, no
que foi interpretado pelos executivos do BRB como uma pressão pela privatização
da instituição.
Participaram das discussões pelo BC os diretores
Ailton de Aquino (Fiscalização) e Gilneu Vivan (Organização do Sistema
Financeiro e de Resolução) e três técnicos do órgão regulador. Pelo BRB estavam
o presidente, Nelson de Souza, os diretores Antônio José Barreto de Araújo
Júnior (Finanças e Controladoria) e Ana Paula Teixeira (Controles e Riscos) e o
secretário de Economia do Distrito Federal, Valdivino José de Oliveira.Na
conversa que durou duas horas, os diretores do BC se disseram preocupados com a
crise de liquidez e pediram aos dirigentes do BRB que fossem transparentes a
respeito da situação do banco, mencionando a necessidade de encontrar uma
“solução”.
No final de março, quando o BRB deixou de publicar
seu balanço em razão de um rombo que, se exposto, poderia levar à intervenção
ou à liquidação imediata, o BC deu até o final de maio para a instituição
encontrar uma saída para a crise. Desde então, o banco estatal de Brasília vem
pagando uma multa diária de R$ 30 mil por dia, enquanto tenta captar recursos
para pagar seus compromissos, resolvendo o problema de liquidez, e cobrir o
rombo no patrimônio, avaliado em R$ 8,8 bilhões.
No último dia 20, o BRB anunciou a venda para a
gestora Quadra de uma carteira de ativos que recebida do Banco Master numa
troca pelas carteiras fraudadas compradas da instituição de Daniel Vorcaro. O
negócio, pelos quais o BRB receberá R$ 4 bilhões, ainda não foi concretizado,
mas na reunião os executivos do banco de Brasília disseram que o dinheiro
entrará no caixa até o dia 20 de maio e cobraram do BC que respeite o prazo que
ele mesmo estabeleceu.
Os executivos disseram ainda que estão tentando
formas de financiamento alternativas ao empréstimo de outros R$ 4,5 bilhões que
pediram ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), e que pode não sair se não
tiverem o aval da União, como já informamos no blog.
A chancela da União é a exigência do FGC e de um
consórcio de bancos coordenados pelo Bradesco para aportar os recursos no BRB,
mas o presidente Lula deu ordens nos bastidores aos bancos estatais e ao
Tesouro para que não participe do salvamento do banco de Brasília.
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP),
esperava ser recebida nesta segunda-feira por Lula para discutir o assunto, mas
até agora não conseguiu.
Privatização
Caso nenhuma das alternativas em negociação pelos
executivos do BRB vá adiante, a privatização é uma possibilidade real.
Uma das razões é que o BC sempre prefere uma solução
de mercado, e uma intervenção em um banco estatal, com programas sociais,
depósitos judiciais de vários tribunais pelo Brasil e carteiras de crédito
consignado, seria bem mais complexas do que as realizadas em bancos privados.
Outro dificultador é o fato de estarmos às vésperas de uma eleição em que o BRB
certamente entrará na pauta dos debates. O fato de o BC já estar sobrecarregado
com a liquidação do Master também não ajuda.
Celina tem se colocado contra uma eventual
privatização do BRB. Seus aliados enxergam na pressa do BC o resultado da
pressão de concorrentes privados. Mas o fatiamento dos negócios ou a venda de
todo o banco para um concorrente pode acabar sendo mesmo a saída para estancar
a crise da liquidez.
Entre as possibilidades discutidas está a venda do
espólio de depósitos judiciais mantidos pelo BRB. Esses depósitos são, em
geral, as cauções determinadas por juízes e que funcionam como garantias para
evitar calotes ao final de ações dos processos. Os valores são custodiados
pelos tribunais de Justiça, que fazem licitações para escolher o banco em que
eles ficarão depositados.
O banco de Brasília ganhou certames nos últimos anos
para custodiar os valores prometendo taxas de retorno maiores do que outras
instituições como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, mas ainda
assim abaixo dos juros de mercado.
Atualmente, o BRB tem R$ 30 bilhões dos Tribunais de
Justiça de Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba e também do Distrito Federal e dos
Territórios.
Diferentemente de aplicações financeiras
tradicionais, esses recursos têm natureza sensível: são garantias de processos
judiciais e pressupõem segurança absoluta. Qualquer risco de perda ou atraso na
disponibilidade pode gerar efeitos em cadeia sobre tribunais e governos.
Também estão sobre a mesa as carteiras de crédito do
BRB e o consignado ofertado pelo banco no próprio Distrito Federal, em Goiás e
no Tocantins.
Como mostramos no blog no último dia 20, o BRB
beirou a insolvência nos últimos meses. Para contornar as dificuldades, o banco
vendeu um lote de carteiras de crédito consideradas boas pelo mercado, mas as
alternativas não foram suficientes.
Além disso, o banco não tem conseguido captar mais
empréstimos ou depósitos, o que nos cálculos dos executivos do banco vem
encurtando o limite de tempo para que se encontre uma solução.
Ao final da reunião com o BC, o BRB conseguiu
segurar o prazo do fim de maio para entregar uma solução. Se vai conseguir, é
um outro problema.
Malu Gaspar - O Globo

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