Determinar o que é centralidade e o que é
lateralidade faz toda diferença. Mas é ali que o STF se enredou. Disso depende
a leitura da realidade e, portanto, como agir diante dos fatos.
Na visão de enorme parcela do público, o que hoje
constitui a centralidade na crise de credibilidade (portanto, de legitimidade)
do STF não passa de lateralidade na visão de pequeno grupo dentro da corte.
Estamos falando do comportamento individual de integrantes do Supremo.
Mais ainda: como capturaram a instituição em defesa
própria, sem terem conseguido — ou sequer se declararem dispostos — explicar de
maneira convincente ligações com o escândalo do Master documentadas por fatos
incontroversos, e não por ilações.
Pode-se argumentar que códigos de conduta ou maior
“proximidade” com a sociedade alterem muito pouco as proporções da crise de
confiança na instituição, portanto são perda de tempo, mas esse não é o ponto.
O STF rachou não em função do que fazer diante da crise mas — e isso é decisivo
— em função da compreensão da natureza da crise.
Para a ala personificada em torno de Gilmar Mendes,
o comportamento individual de integrantes (especificamente Alexandre de Moraes
e Dias Toffoli) é “lateralidade”, conforme declarou em recente entrevista a
Band. Em outras palavras, não é o que realmente pesa, nem deveria estar no
centro das atenções.
Nessa visão das coisas não há nada de novo no
fronte: uma nova versão de “lavajatismo”, associada à imprensa burra (ou
comprada) e a tradicional bandidagem do Legislativo, mais o bolsonarismo,
fabricaram a tal crise de legitimidade. Num escândalo turbinado também pela
malandragem de outros banqueiros, que lucraram muito vendendo papeis que sabiam
serem podres. Ao Supremo só restaria então utilizar seus supremos poderes e
resistir.
Numa linguagem bem simples, o capitão do Titanic ao
bater no iceberg mandou o engenheiro averiguar a avaria no casco e concluiu que
ia afundar. Os capitães do STF (têm vários, nem sempre de acordo entre si)
acham que nem bateram num iceberg, enquanto o restante da ponte de comando tem
dificuldades de avaliar os danos no casco, embora reconheçam que a nau está
difícil de navegar e parece adernada.
O ineditismo dessa crise prossegue criando mais
ineditismos. Como se antecipava, o STF virou fator eleitoral de peso, e está
sendo atacado do PL ao PT, e fornecendo bandeiras fáceis para candidatos à
presidência. Quem busca a reeleição, obedecendo ao instinto desse tipo de
animal político, já pulou fora do barco.
Dentro da instituição esses fatos reforçaram as duas
visões da realidade, que são irreconciliáveis. Não há mais volta a algum tipo
de status quo ante.
William Waack

Nenhum comentário:
Postar um comentário