O presidente Lula anunciou que irá cancelar o leilão
de GLP, o gás de cozinha, realizado pela Petrobras em 31/3. Na ocasião, alguns
contratos de fornecimento foram negociados com ágio de 117% em relação ao preço
de tabela que a companhia mantém desde 2024.
Em entrevista à TV Record da Bahia, Lula não mediu
palavras para achincalhar o leilão, afirmando se tratar de “cretinice” e
“bandidagem”. “Vamos rever esse leilão, vamos anular esse leilão”, prometeu.
Como se não bastasse, Lula ainda afirmou que a realização do certame ocorreu
contra a vontade da direção da empresa, o que beira o absurdo. É improvável que
um leilão de tamanha importância tenha ocorrido por voluntarismo de algum
funcionário que resolveu passar por cima da direção. A Petrobras se vale desse
instrumento para gerir a oferta e a demanda de GLP e ajustar margens de lucro
sem mexer na tabela de preços. Até agora, nada se ouviu de Magda Chambriard,
presidente da Petrobras, que, a julgar pelas declarações de Lula, não estaria a
par do leilão.
Na verdade, a única vontade que foi contrariada foi
a do próprio presidente. Amargando queda na popularidade em pleno ano eleitoral,
Lula se mostra disposto a rasgar contratos, prejudicando a empresa, seus
clientes e ampliando a sensação de insegurança jurídica no Brasil. Tudo isso
sob a desculpa de que o “povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço
dessa guerra”, em referência aos efeitos do conflito entre EUA e Israel contra
o Irã sobre os preços.
Ora, desautorizar a Petrobras dessa maneira não
atende aos interesses dos brasileiros de nenhuma maneira. Ao contrário: reforça
no mercado a imagem de um país onde o cumprimento de contratos depende do humor
de quem está no poder, e tal insegurança obriga o Brasil a pagar um prêmio
maior àqueles que se dispõem a investir por aqui, afetando o crescimento e a
geração de empregos.
Ao tratar a Petrobras como subalterna a seus
desejos, Lula age como se fosse um Luís XIV a proclamar: “A Petrobras sou eu”.
Isso cria um clima tenso na companhia e prejudica a tomada de decisões
estratégicas daqui em diante. Como prova disso, o Conselho de Administração da
Petrobras acaba de aprovar o “encerramento antecipado” do mandato do
diretor-executivo de Logística e Comercialização, Claudio Schlosser, a quem
estava subordinada a área responsável pelo leilão que tanto desagradou o
presidente da República.
É fato que, como principal acionista e controlador
da Petrobras, o governo federal tem mais força para impor seus interesses. Mas
uma coisa é o governo propor medidas que não necessariamente agradam aos demais
acionistas. Outra, bem diferente e mais grave, é sugerir que o contrato
assinado hoje será desrespeitado amanhã.
A guerra no Irã vai acabar em algum momento, mas o
governo deveria se limitar a trabalhar para mitigar seus efeitos, e não criar
mais problemas. Preocupado com as pesquisas eleitorais que põem em dúvida sua
reeleição, no entanto, Lula tem sua guerra particular para travar – deixando um
rastro de prejuízos para o País.
Opinião do Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário