segunda-feira, 27 de abril de 2026

O famigerado liberalismo atacado pelo manifesto do PT melhorou espetacularmente as condições sociais



Para conquistar o eleitorado de centro, decisivo para a vitória nas eleições presidenciais que se avizinham, o Partido dos Trabalhadores suavizou o manifesto resultante de seu oitavo congresso partidário, finalizado neste domingo. Saíram do texto as críticas ao Banco Central, por exemplo. Também ninguém cogitou atacar as classes-médias, uma das culpadas pelos fracassos do Brasil, quando se conversa com um militante mais exaltado, no tête-à-tête.

Apareceu uma faixa pedindo a volta do ditador Nicolas Maduro ao poder na Venezuela, mas no máximo causou certo constrangimento e a ideia não prosperou.

O texto, no final das contas, ficou algo anódino. Uma pena, porque se o PT tem uma qualidade, é a de se posicionar. Um diferencial e tanto em comparação à média das agremiações brasileiras, uma massa amorfa de agremiações que anda aos sabores dos ventos, das conveniências e dos desejos de seus donos ou líderes.

O PT pode ser anacrônico (parece que nunca superou a queda do muro de Berlim), inflacionista (não apresenta saída para a economia brasileira que não embute o risco da alta de preços ou da dívida pública), ou equivocado (não consegue captar a nova sociedade do empreendedorismo e dos aplicativos), mas pelo menos se expressa. Os demais, nem isso.

Algo sem saída na crítica à sociedade brasileira, sobrou ao Partido dos Trabalhadores atacar o inimigo de sempre: o famigerado “neoliberalismo”, que recebeu palavras duras logo no primeiro parágrafo do manifesto: “A promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria. Em seu lugar, consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade, a precarização do trabalho, a insegurança e o enfraquecimento das instituições democráticas”, afirma o documento “Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país”.

Aliás, o presidente Lula reiterou a crítica, semana passada, em Barcelona, quando lamentou que os governos de esquerda, no final das contas, não aplicam seu próprio programa e se curvam à ordem neoliberal.

A questão é que o manifesto petista está profundamente errado. Historicamente errado. Nos últimos duzentos anos, desde o advento da ordem liberal, a partir da revolução industrial na Inglaterra, as condições de vida dos habitantes do planeta Terra melhoraram dramaticamente. Alguns dados para ilustrar: a esperança de vida, por exemplo, passou de cerca de 30 para mais de 70 anos. A mortalidade infantil de mais de 1/3 das crianças para menos de duas dezenas por cada mil nascidos vivos.

O percentual da população que vive em regimes democráticos saltou de 1% para cerca de 50% nesses dois séculos que se passaram. A renda per capita aumentou cerca de 10 vezes em valores atualizados. Os índices de miséria e pobreza extrema desabaram na mesma proporção, assim como a fome.

Para conhecer alguns desses números, fica a dica do site “Our World in Data” (https://ourworldindata.org/). Mas muitas fontes oficiais, como o Banco Mundial ou a ONU, confirmam as informações.

É claro que a ordem liberal tem inúmeras crises, contradições e permite a chegada ao poder de pretensos autocratas como Donald Trump, Vladmir Putin, Viktor Orbán e tantos outros – que adotam um discurso antiliberal, assim como os manifestos do PT. Há também problemas ambientais decorrentes de todos os avanços citados, guerras e a continuidade da pobreza em muitos bolsões pelo mundo. São problemas a solucionar, não questões intrínsecas ao sistema, já que conflito, cobiça e miséria existem há dezenas de séculos, antes do advento do liberalismo.

 A ordem liberal ainda conta com a característica de ser continuadamente atacada para que, quando no poder, os críticos a administrem, como disse Lula. Os números dos avanços sociais mostram as verdadeiras razões para esse curioso fenômeno da hipocrisia política mundial.

Fabiano Lana - Estadão

 

 

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