quarta-feira, 8 de abril de 2026

Master contratou mulher e filho de desembargador para receber precatórios expedidos antes da hora

 


O Banco Master contratou a mulher e o filho do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), para tentar liberar pagamentos de R$ 1,6 bilhão em precatórios da União que foram expedidos indevidamente e estão travados no tribunalEm nota, a mulher do desembargador, Camilla Ramos, e o filho dele, Gabriel Ramos, afirmaram que têm experiência e formação técnica para processos empresariais. Newton afirmou que se declara impedido nos casos de seus familiares.

“A advogada Camilla Ramos tem 20 anos de experiência na advocacia, com atuação em centenas de processos empresariais relevantes. Seu sócio, Gabriel Ramos, é mestre em Direito Tributário pela USP. O escritório, fundado há mais de 15 anos, possui 50 advogados que atuam em mais de 7 mil processos. A banca de advocacia foi contratada para atuar em casos que envolvem o setor sucroalcooleiro de variados clientes antes da referida decisão do CNJ, que não trata especificamente sobre precatórios do Banco Master. O Desembargador Federal, Newton Ramos, se declara impedido em todos os processos dos referidos advogados”, diz a nota. A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou.

A atuação se deu em processos judiciais envolvendo usinas de açúcar e álcool que cobram indenizações bilionárias do governo federal. O Master comprou esse tipo de crédito enquanto emitia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) acima dos valores de mercado.

A Justiça Federal de Brasília, em primeira instância, mandou a União pagar os precatórios antes do trânsito em julgado das ações (ou seja, ainda cabia recurso). Ao detectar suspeitas de irregularidades nas decisões, a Presidência do TRF-1 determinou a suspensão dos pagamentos, em uma decisão proferida em junho de 2022.

Nos anos seguintes, o Master passou a comprar parte desses precatórios e ingressou como interessado nos processos que tramitam no TRF-1 para tentar destravar e receber os valores. Os papéis foram parar no banco de Daniel Vorcaro por meio de uma cadeia de fundos de investimento ligados à Reag e ao próprio Master.

A Justiça Federal de Brasília mandou a União pagar os precatórios entre 2021 e 2022, mas o governo contestou a decisão porque as ações ainda não haviam transitado em julgado. A lei exige que os repasses sejam feitos apenas quando os valores são incontestáveis, ou seja, quando não há mais oportunidade para recursos.

A Advocacia-Geral da União (AGU) argumentou que as decisões “violaram gravemente o ordenamento jurídico” e causariam um prejuízo de R$ 14 bilhões aos cofres públicos. Para se ter uma ideia, o montante supera todos os precatórios da União no TRF da 1ª Região em 2022.

Os pagamentos envolvem precatórios de oito usinas. O Master comprou parte dos créditos de três usinas, no valor de R$ 1,6 bilhão: a Una Agroindustrial, da Paraíba, a Usina São João, também da Paraíba, e a Usina Capricho, de Alagoas.

Com a demora em uma definição, o banco contratou em dezembro de 2024 dois advogados com relações familiares com o desembargador do TRF-1 Newton Ramos: a mulher, Camilla Ewerton Ramos, e o filho Gabriel Ramos, integrantes do mesmo escritório de advocacia.

Newton Ramos não atuou diretamente nos processos desses precatórios, mas é considerado um desembargador influente nos bastidores do tribunal. Ele é amigo do atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques, que fez carreira como desembargador no TRF-1 e mantém influência na Corte.

Como revelou o Estadão, Nunes Marques teve uma viagem a Maceió paga pela advogada Camilla Ewerton Ramos em novembro passado, para comemoração do aniversário dela. Newton Ramos também estava presente na viagem.

Camilla e Gabriel apresentaram um pedido de revogação da suspensão dos pagamentos e insistiram que os pagamentos fossem feitos ao Banco Master. A Presidência do TRF-1 rejeitou a solicitação, em decisão de janeiro de 2025.

“Em sua petição inicial, a União aduziu que o Juízo da 6ª Vara da SJDF antecipou-se à conclusão do processo de liquidação de danos referentes ao tabelamento de preços do setor sucroalcooleiro, expedindo requisições de pagamento que ocasionam grave lesão à ordem econômica”, citou a decisão do desembargador João Batista Moreira.

Nos bastidores do TRF-1, passou a ser travada uma disputa para que o tema voltasse a ser pautado para julgamento. Mas novas suspeitas de irregularidades foram enviadas ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Com isso, em junho, o CNJ determinou a paralisação de 35 processos do TRF-1 envolvendo a liberação irregular de precatórios e ordenou um pente-fino nos outros tribunais sobre o assunto.

“A partir dessa decisão da corregedoria, o TRF-1 realizou levantamento, identificou e suspendeu outros 4.525 precatórios irregulares, atingindo o montante de mais de R$ 20,5 bilhões”, afirmou o CNJ, em comunicado.

Como os precatórios foram parar no Banco Master

Os precatórios foram parar no Banco Master por meio de uma cadeia de fundos de investimentos ligados ao próprio banco. As usinas venderam aos fundos os valores que tinham para receber, e os fundos venderam esses créditos para o Master. Vorcaro adotou essa prática com dezenas de precatórios. A estrutura fazia com que, na origem, os papéis fossem comprados por valores mais baratos e entrassem inflados no balanço do banco.

No caso das três usinas, os precatórios foram vendidos para um fundo da Reag, suspeita de lavagem de dinheiro e ligação com o crime organizado, um fundo da Entrepay, do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, que autoridades suspeitam ser do próprio Vorcaro, e o fundo Dublin, administrado pela Sefer Investimentos, do empresário Benjamin Botelho, que estava por trás da arquitetura de criação do Master. Depois, os créditos foram transferidos para o Master.

O banco de Vorcaro não comprou tudo de uma vez, mas adquiriu os precatórios em várias parcelas. Os créditos eram repassados de uma mão para outra em pouco tempo. Em um dos casos, um crédito de R$ 16,6 milhões de uma das usinas foi vendido por um escritório de advocacia para a Entre Investimentos em 30 de março de 2023. No mesmo dia, a Entre vendeu para o fundo Dublin, que repassou o precatório para o Master cinco meses depois.

Em outro caso, envolvendo uma parcela de R$ 180 milhões, a usina vendeu o papel para a Entre no dia 9 de dezembro de 2022. A Entre passou para o Dublin três dias depois. No mês seguinte, o precatório já estava com o Master.

Prestes a ser liquidado, em novembro de 2025, o Master começou a se desfazer dos precatórios e a repassar os valores para outras empresas ligadas a Daniel Vorcaro, incluindo o Bluebank, que pertencia ao banqueiro, e o fundo BTS, administrado pela Sefer.

O que diz a defesa da Una Agroindustrial

O advogado da Una Agroindustrial, João Loyo de Meira Lins, afirmou à reportagem que a empresa vendeu o precatório para um fundo da Reag regularmente e não negociou com o Banco Master. Além disso, a companhia contestou na Justiça a transferência do crédito para o banco de Daniel Vorcaro, por não ter participado da operação, e todas as outras negociações que ocorreram depois.

A usina insiste em receber os valores da Justiça. “Já estava no momento legal correto para a expedição do precatório e o condicionamento ao trânsito em julgado é comum. A empresa está brigando para que transite em julgado e possa receber”, disse o defensor.

As outras usinas não comentaram.

Estadão

 

 

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