O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (20)
pelo Banco Central trouxe um dado que, apesar de esperado, não deixa de ser
grave: a projeção de inflação para 2026 saltou para 4,80%, ultrapassando
oficialmente o teto da meta de 4,50%. É a sexta semana consecutiva de alta.
Antes do início da guerra no Oriente Médio, no final de fevereiro, os analistas
projetavam inflação abaixo de 4%.
O número não é apenas estatístico — é um termômetro
de deterioração acelerada. O IPCA acumulado em 12 meses até março já marca
4,14%, com alta mensal de 0,88%, acima do que o mercado esperava. A pressão vem
de múltiplas frentes: o petróleo encarecido pelo conflito entre EUA e Irã no
Estreito de Ormuz, o repasse cambial ao custo de alimentos e combustíveis, e
uma atividade econômica que, embora desacelerada, não perdeu força o suficiente
para aliviar os preços.
O que mais chama atenção, no entanto, é o comportamento
das expectativas de médio prazo. A inflação projetada para 2027 subiu pela
quarta semana seguida, para 3,99% — praticamente no teto. O IGP-M para 2026
disparou de 3,86% para 4,66% em apenas uma semana, puxado pelos preços no
atacado, especialmente commodities energéticas. Quando as expectativas de
inflação se desancoram dessa forma, o Banco Central perde uma de suas
principais ferramentas: a credibilidade da meta.
A armadilha do Copom. A reunião dos dias 28 e
29 de abril coloca Gabriel Galípolo e o colegiado diante de um dilema real. O
mercado precifica um corte de apenas 0,25 ponto percentual, levando a Selic de
14,75% para 14,50%. Mas mesmo esse corte modesto já é questionado por parte dos
analistas. A projeção para a Selic no fim de 2026 saltou de 12,50% para 13%,
indicando que o mercado espera um ciclo de flexibilização mais curto e mais
lento do que imaginava semanas atrás. Para 2027, a expectativa subiu de 10,50%
para 11%.
O cenário ganha contornos ainda mais complexos
quando se consideram os efeitos práticos dos juros elevados. O endividamento
das famílias bateu 80,4% em março — recorde histórico. Quase 30% da renda está
comprometida com o serviço da dívida. Manter os juros altos combate a inflação,
mas aprofunda a crise do endividamento. Cortá-los rápido demais alimenta a
espiral inflacionária. Não há saída indolor.
O paradoxo do real. Um dado aparentemente
contraditório emerge do mesmo Focus: a projeção para o dólar ao fim de 2026
caiu para R$ 5,30, ante R$ 5,40 na semana anterior. Como é possível projetar
inflação mais alta e câmbio mais baixo ao mesmo tempo? A resposta está no fluxo
de capital estrangeiro. Investidores internacionais estão apostando pesado no
Brasil — o Ibovespa bate recordes nominais e o real é a moeda de melhor
desempenho no ano. Mas esse fluxo é atraído justamente pelos juros altos. Se o
BC cortar mais do que o esperado, o diferencial de juros diminui e o fluxo pode
se reverter. Se não cortar, a economia real sufoca.
O Boletim Focus desta segunda não é apenas mais uma
atualização semanal. É a fotografia de uma economia comprimida entre uma guerra
externa que encarece tudo, uma política monetária sem margem de manobra e um
ano eleitoral que pressiona por bondades fiscais. O PIB, aliás, segue projetado
em magros 1,86% — crescimento que mal acompanha o ritmo populacional.
A grande questão que nenhum número do Focus responde
é: quem paga a conta dessa compressão? Até aqui, quem tem pago é o trabalhador
endividado, o consumidor no supermercado e o pequeno empresário que não consegue
crédito acessível. E a fatura continua em aberto.

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