No dia 3 de janeiro de 2026, horas após a captura de
Nicolás Maduro por forças militares norte-americanas em Caracas, o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou no X uma imagem associando o presidente Lula
ao ditador venezuelano. No post, escreveu: "Lula será delatado. É o fim do
Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de
dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas."
A reação institucional foi rápida e pesada. O
Ministério da Justiça solicitou apuração. A Polícia Federal encaminhou
representação ao STF. A Procuradoria-Geral da República emitiu parecer
favorável à investigação, afirmando que Flávio atribuiu "de maneira
pública e vexatória" fatos criminosos ao presidente. No dia 13 de abril, o
ministro Alexandre de Moraes determinou a abertura de inquérito por calúnia,
com prazo de 60 dias para a PF concluir as diligências. A mensagem do Estado
foi clara: associar Lula a Maduro é crime. A defesa de Flávio classificou o
inquérito como "tentativa de cercear a liberdade de expressão e o livre
exercício do mandato parlamentar".
Onze dias depois, no dia 24 de abril, o próprio
Partido dos Trabalhadores fez o que a Justiça disse que Flávio Bolsonaro não
poderia fazer: associou Lula a Maduro. Na abertura do 8º Congresso Nacional do
PT, em Brasília, um banner oficial foi exibido em um dos palcos do evento com a
foto de Nicolás Maduro e Cilia Flores e a frase "Los Queremos de
Vuelta". O material não foi obra de militante avulso. Foi produzido e
exposto pela Secretaria de Relações Internacionais do partido, chefiada pelo
senador Humberto Costa (PE), dentro de um "ato de solidariedade
internacional pela paz". A cerimônia contou com a presença do parlamentar
venezuelano Saúl Ortega, do embaixador de Cuba e de representantes da Palestina
e da Liga Árabe. Militantes ainda abriram uma bandeira da Venezuela no meio da
plateia.
A contradição é gritante e não precisa de
interpretação sofisticada. Quando Flávio Bolsonaro publicou um post em rede
social ligando Lula a Maduro, o aparato estatal se movimentou: Ministério da
Justiça, Polícia Federal, PGR e STF se coordenaram para abrir um inquérito
criminal por calúnia. Quando o partido do próprio presidente exibiu, em
congresso oficial, com organização institucional, um banner defendendo a volta
do mesmo Maduro, chamando-o de "presidente da Venezuela", o silêncio
foi absoluto. Nenhum órgão se manifestou. Nenhum inquérito foi cogitado.
Nenhuma autoridade questionou se o ato configurava apologia a um líder preso
por narcotráfico internacional.
O ponto não é se Flávio Bolsonaro errou ou acertou
no que disse. O ponto é a disparidade de tratamento. Se ligar Lula a Maduro é
calúnia quando feito pela oposição, o que é quando o próprio PT pendura um
banner de Maduro no palco de seu congresso, a metros de onde se discute o plano
de governo de Lula para 2026? Se a associação entre os dois nomes é falsa e vexatória,
por que o partido do presidente a fez voluntariamente, com fotógrafo, palco e
convidados internacionais?
A postagem de Flávio Bolsonaro em janeiro dizia:
"Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo." O banner do PT em
abril dizia: "Los Queremos de Vuelta." As duas frases foram escritas
em contextos diferentes, com intenções diferentes, por atores diferentes. Mas
ambas fazem exatamente a mesma coisa: colocam Lula e Maduro na mesma moldura. A
diferença é que uma gerou inquérito no STF. A outra gerou aplausos no congresso
do partido.

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