terça-feira, 28 de abril de 2026

Ex-presidente do Banco Central vê fim da ordem global, alerta para estagflação e critica cenário fiscal do Brasil

 


O atual cenário internacional, marcado por tensões geopolíticas, tem acendido alertas entre economistas sobre os rumos da economia global. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada nesta segunda-feira (27), o economista e ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, afirmou que o mundo atravessa uma ruptura estrutural na ordem internacional e alertou para riscos econômicos relevantes, como o aumento do endividamento global e a possibilidade de estagflação.

Segundo o economista, o cenário atual é marcado pela fragilização de instituições multilaterais e pelo fortalecimento do papel dos Estados nacionais, em um ambiente de maior disputa geopolítica. “É um mundo onde a ordem global acabou. Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo. Acabou mesmo”, afirmou. Como fatores que influenciam nesse cenário de instabilidade global, o economista cita o enfraquecimento de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial, além de conflitos em curso, como a guerra na Ucrânia e tensões no Oriente Médio.

"Com esse cenário que vivemos, incomoda, a médio prazo, o endividamento global das nações. Está todo mundo muito endividado. Isso pode criar certas tensões econômicas. No momento, há o choque de oferta que tem origem claríssima no que acontece no Oriente Médio. Nos indicadores de mercado e implícito nos preços dos ativos ainda existe certo otimismo de que aquilo vai acabar bem, mas não há quem possa garantir. É um choque de oferta muito grande. Então, já está criando essa situação de estagflação", considerou Fraga.

Fraga também destacou o peso das transformações econômicas e tecnológicas em curso, incluindo os impactos da inteligência artificial e as dificuldades de coordenação global em temas como mudanças climáticas. Para ele, a ausência de uma resposta coordenada compromete iniciativas como o mercado global de carbono. “Sem coordenação, o bem público fica mal atendido”, afirmou, ao comentar os desafios para enfrentar a crise climática em um cenário de menor cooperação entre países.

Ao analisar o Brasil, Fraga reconheceu resultados positivos recentes, como o crescimento econômico e o nível de emprego, mas fez ressalvas sobre a situação fiscal. “Acho preocupante um país que está com 80% do PIB de dívida pagando na média perto de 8% acima da inflação, uma economia que já mostra sinais de estresse. Embora tenham sido três anos de bom crescimento e desemprego baixo, e tudo isso é ótimo, mas ainda com taxa de investimento relativamente baixa e muita fragilidade fiscal, e, de certa forma, em decorrência dessas taxas de juro. Todo dia vemos notícias que as famílias estão endividadas e carregando dívidas pesadas”, afirmou.

Ele avaliou que, apesar de iniciativas do Ministério da Fazenda, ainda faltam medidas mais estruturais. “O Banco Central precisa de ajuda fiscal, mas imensamente. Não é coisa pequena. Há muitas áreas onde vai ser possível, se houver vontade política, dar uma guinada, mas isso hoje ninguém fala. Mesmo alguns economistas mais ortodoxos dizem que o Ministério da Fazenda está trabalhando bem e fez muita coisa boa. É fato e merece crédito. Mas o mais importante, na parte fiscal, não fez”, declarou.

Apesar do cenário desafiador, Fraga apontou oportunidades para o Brasil em áreas como energia renovável e economia verde, mas esse avanço depende de maior coordenação internacional. “O Brasil tem energia eólica, é um gigante em hidro. Espero que os rios não sequem. É uma potência solar, em biomassa. Tem tudo. O Brasil está muito bem nessa área, e isso é bom para o Brasil e para o mundo. Mas não significa que um choque de petróleo não vá nos afetar", considerou. Arminio é um dos principais investidores e conselheiros da re.green, empresa brasileira de restauração ecológica que pretende recuperar 1 milhão de hectares na Amazônia e na Mata Atlântica.

Ao comentar perspectivas futuras, o economista evitou previsões mais concretas, mas reforçou o ambiente de incerteza. “Essa situação macroeconômica não vai acabar bem. O que vai acontecer? Difícil prever”, disse. Para ele, o momento atual reflete uma transição global marcada por "turbulências", com impactos ainda indefinidos para a economia mundial e para o Brasil.

 

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