Pesquisas eleitorais divulgadas nos últimos dias por
alguns dos principais institutos do País apontam para o mesmo diagnóstico: a
menos de seis meses da eleição, Lula (PT) não conseguiu reverter a avaliação
negativa de seu governo e enfrenta um cenário adverso no segundo turno, aparecendo
agora numericamente atrás de Flávio Bolsonaro (PL) e empatado com outros
pré-candidatos da direita, como o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD).
Os fatores que levam ao avanço de Flávio, segundo
especialistas indicaram ao Estadão, incluem a transferência do capital político
do pai em tempos de polarização, o cansaço após três mandatos de Lula e
percepções econômicas negativas, que impactam a popularidade do presidente.
Apesar disso, eles apontam também haver desafios a serem enfrentados por Flávio
Bolsonaro, sendo o principal deles o desconhecimento de parte do eleitorado.
Nas pesquisas Datafolha, Quaest e Meio/Ideia, o
filho de Jair Bolsonaro está empatado com Lula dentro da margem de erro, mas,
pela primeira vez, numericamente à frente do petista. Os dois também têm as
maiores taxas de rejeição.
O quadro de polarização que hoje está dado ganhou
forma ao longo dos últimos meses. Em agosto do ano passado, Lula aparecia a
confortáveis 16 pontos de distância de Flávio no segundo turno da Quaest. Em
janeiro, cerca de um mês depois da confirmação de seu nome como substituto do
pai, a diferença caiu para sete pontos, ainda com Lula à frente. Agora, é de
dois pontos, empate técnico com vantagem numérica para Flávio.
A definição das candidaturas no campo conservador
impulsionou a ascensão de Flávio. Ao ser escolhido como sucessor do pai, Jair
Bolsonaro, o senador se beneficiou da transferência do capital político do
ex-presidente e inviabilizou a candidatura de Tarcísio de Freitas
(Republicanos), nome preferido do Centrão e da Faria Lima. Mais recentemente,
outro potencial candidato deixou a disputa: Ratinho Júnior, cotado pelo PSD,
decidiu permanecer no governo. Na pesquisa Quaest de fevereiro, ele chegou a
pontuar 8% no primeiro turno.
Uma vez escolhido pelo pai, Flávio conseguiu
unificar quase todo o eleitorado da direita e do bolsonarismo e, mais do que
isso, avançou sobre o centro, entre eleitores que não se identificam nem com o
lulismo nem com o bolsonarismo. O senador tinha 21% de intenção de voto entre
os eleitores independentes no segundo turno da pesquisa Quaest de janeiro.
Agora, soma 33%. Lula seguiu na direção oposta: caiu de 37% para 26% no mesmo
período.
Cansaço e economia jogam contra Lula
O avanço de Flávio Bolsonaro nos últimos meses
acompanha o desgaste vivido pelo presidente Lula. Segundo Cila Schulman, CEO do
Ideia, esse cenário beneficia o candidato da oposição. “A maioria do eleitorado
(51,5%) declara na nossa pesquisa que Lula não merece mais um mandato. Isso
favorece o candidato da oposição, no caso, o Flávio.”
Para a especialista, há dois fatores por trás da
resistência do eleitorado a um quarto mandato de Lula: o cansaço com a figura
do petista, que disputará a Presidência pela sétima vez, e a avaliação
predominantemente negativa do governo, influenciada sobretudo pela piora na
percepção da economia e diminuição do poder de compra.
Esse quadro é reforçado pelos dados da
Genial/Quaest: 50% dos brasileiros dizem que a situação econômica do País
piorou nos últimos 12 meses. Em dezembro do ano passado, esse porcentual era de
38%. Para Felipe Nunes, CEO da Quaest, o principal motor desse movimento é o
aumento no preço dos alimentos nos mercados: a fatia dos que dizem ter
percebido alta nos preços saltou de 58% em março para 72% este mês.
O especialista destaca o desgaste do governo em dois
grupos estratégicos: eleitores de renda média e de centro. Entre os que ganham
de 2 a 5 salários mínimos, a desaprovação ao governo Lula chegou a 57% em
abril, no segundo mês de alta. Já entre eleitores independentes do lulismo e do
bolsonarismo, a desaprovação é de 58%.
“A grande mudança no cenário eleitoral talvez possa
ser explicada pela frustração do eleitor de 2 a 5 salários mínimos, para quem a
isenção do imposto de renda não produziu o efeito esperado até agora. É um
público muito afetado pelo contexto econômico negativo e pelo endividamento
crescente”, diz o CEO da Quaest. Ele lembra que, segundo dados da última
pesquisa, 72% dos brasileiros têm muitas ou poucas dívidas a pagar.
Uma eventual recuperação do governo passa por
avançar nesses dois grupos, segundo Felipe Nunes. Para ele, o governo precisará
apresentar soluções concretas para o endividamento e convencer esses eleitores
de que há entregas e resultados concretos.
Cila Schulman também vê o eleitorado apartidário
como peça-chave na disputa. “Esses eleitores são majoritariamente mulheres e
pequenos empreendedores e vivem nas regiões metropolitanas do Sudeste — São
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Esse é o eleitorado em disputa em 2026,
cerca de 5 milhões de pessoas”, diz. Segundo a especialista, o incumbente
costuma melhorar no período eleitoral, o que deve ocorrer com Lula. “Portanto,
será uma eleição apertada para os dois lados.”
Flávio precisa superar desconhecimento e imagem de
radical
Do outro lado, o eventual favoritismo de Flávio
Bolsonaro dependerá da forma como ele se apresentará ao eleitorado na campanha.
Apesar do bom desempenho do senador nas pesquisas, a
diretora do Datafolha Luciana Chong chama atenção para o nível de conhecimento
do pré-candidato. A última pesquisa do instituto mostra que Lula é conhecido
por 99% dos eleitores, sendo que 61% afirmam conhecê-lo “muito bem”. Já Flávio
é conhecido por 93%, mas apenas 34% dizem conhecê-lo muito bem e 35% só de
ouvir falar.
“Lula tem uma taxa de conhecimento consistente.
Flávio ainda está se apresentando ao eleitorado. E a campanha não começou de
fato. Quando a campanha for para rua é que vamos saber se Flávio, ao ficar mais
conhecido, conseguirá manter e expandir o capital que herdou do pai. Esse é um
ponto importante se considerarmos que hoje, mesmo sendo menos conhecido, ele já
está empatado tecnicamente em rejeição com Lula”, afirma Luciana.
Já Felipe Nunes sustenta que o senador tem o desafio
de se descolar da imagem mais radical associada à família. “A maioria dos
brasileiros ainda enxerga Flávio tão radical quanto os demais Bolsonaro. Por
isso, o prognóstico hoje é o mesmo: uma eleição dura, difícil e polarizada.”
O fundador do Instituto Locomotiva, Renato
Meirelles, pondera que “existe uma ilusão dos dois lados” no cenário atual. “No
governo, a ilusão de que a máquina pública e os programas sociais vão
reconquistar esse eleitor a tempo. Na oposição, a ilusão de que o sobrenome
Bolsonaro é suficiente para vencer. Nenhuma das duas coisas é verdade para
aquele eleitor que hoje está nos 62% de indecisos do voto espontâneo”, diz ele,
em referência aos dados da Genial/Quaest.
Estadão

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