Fomos dormir ontem com a notícia de que o assassino
Ali Khamenei está morto, assim como outros cúmplices seus que pertenciam à
cúpula da teocracia que barbariza o Irã há 47 anos.
A reconstrução feita pela imprensa americana diz que
todos estavam reunidos no bunker de Khamenei, em Teerã, quando Israel desfechou
o bombardeio que os despachou ao encontro das 72 virgens prometidas pelo
Profeta.
Não foi o Mossad que descobriu que haveria essa
janela de oportunidade, mas a CIA. Os americanos avisaram os israelenses, que
mandaram caças para bombardear o bunker, o objetivo mais difícil de toda a
operação.
Trinta mísseis foram despejados sobre o complexo, e
Khamenei e seus camaradas, que não estavam na área subterrânea mais profunda da
fortaleza, foram eliminados imediatamente.
É sempre boa nova que ditadores e asseclas sejam
extirpados do convívio humano, e, assim, pode-se ficar feliz pelo Irã, mesmo
quando se é opositor ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, responsáveis pela ação militar
de ontem.
Você pode aplaudir o que ambos fizeram no caso
particular ainda que os critique ou os odeie no contexto geral. Criticar ou
odiar apenas pelos bons motivos é uma conquista da maturidade.
Há que se ter presente, e acho que já disse isto
aqui, que, frequentemente, coisas certas são feitas por motivos não
inteiramente louváveis ou até completamente errados na sua essência, seja na
política internacional, na política nacional e até na nossa vida pessoal, veja
você.
Há a bondade impulsionada pela maldade; o altruísmo
movido pelo egoísmo; a generosidade exercida pelo interesse — e desse modo
caminha a humanidade, ainda que não se saiba exatamente para onde, o que nos
leva a outro ponto, bem mais circunstancial.
O que acontecerá agora no Irã? Ninguém sabe. Não há
plano grandioso para o Irã, a não ser o de obliterar o seu programa nuclear e a
sua capacidade de produzir mísseis balísticos, os pretextos para o ataque
fulminante do sábado.
Nem Trump nem Netanyahu, preocupados que estão
principalmente com a sua própria sobrevivência política, fazem o que fazem em
prol da erradicação do atual regime no Irã, apesar de toda a prosopopeia nesse
sentido.
Obviamente, a mudança de uma teocracia para algo próximo
a uma democracia ocidental seria o melhor subproduto para lustrar a biografia
do presidente americano e do primeiro-ministro israelense. Mas basta que o Irã
deixe de ser ameaça para Estados Unidos e Israel, e que os dois possam vender o
feito aos seus respectivos públicos internos, que eles pouco se importam se o
regime iraniano continuará a ser um ditadura ou não.
Trump disse que será ouvido sobre o nome que
substituirá Khamenei no comando do Irã. Afirmou que os americanos estão
informados de que a Guarda Revolucionária, os militares e demais forças de
segurança iranianos não querem mais lutar e que procuram apenas obter imunidade
da parte dos Estados Unidos.
Talvez Trump tenha a ilusão de que o Irã seja uma
versão da Venezuela. Não é. O Irã é um país muito maior e mais complexo do que
o vizinho latino-americano. Khamenei não era um Nicolás Maduro, e não haverá um
aiatolá moderado para bancar a Delcy Rodriguez.
A revolução iraniana que colocou os aiatolás no
poder tem a sua razão de ser no ódio aos Estados Unidos, o “Grande Satã”, ao
modo de vida ocidental e a Israel, visto como intruso no Oriente Médio.
Os aiatolás nunca brincaram em serviço nesse sentido
— o terrorismo islâmico patrocinado por Teerã está aí para mostrar ao que essa
gente veio –, e quase meio século de teocracia sanguinária deixou os iranianos
sem oposição organizada que ofereça opção viável neste momento.
Tanto é que os cidadãos que arriscaram e
sacrificaram as suas vidas para protestar contra Khamenei e a sua camarilha
voltaram-se para esse patético filho mais velho do xá Reza Pahlavi, homônimo do
pai, exilado nos Estados Unidos desde a juventude, como se ele pudesse ser
líder de um movimento democrático.
Fiquemos felizes pelos iranianos; assistamos
embevecidos à sua comemoração pela morte do aiatolá que infernizava as suas
vidas, principalmente as das mulheres, as mais oprimidas pelo regime
teocrático; aceitemos que coisas certas podem ser feitas por motivos não
inteiramente louváveis ou completamente errados. Essa história, no entanto,
ainda está longe de ter final razoavelmente feliz, o regime pode permanecer
acuado por longuíssimo tempo, salvo prova em contrário, e eu vou adorar estar
enganado.
PS: o ex-presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad,
amigão de Lula, também foi morto ontem. Outro a pagar tarde pelos seus crimes.
Mario Sabino - Metrópoles

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