Deputados que fazem parte da bancada de defesa do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Câmara fizeram críticas
ao governo Lula em reunião realizada nesta semana e um deles chegou a dizer que
está “difícil” fazer campanha para o petista.
Os parlamentares se queixam, entre outros pontos, da
resistência do Banco do Brasil para liberação de recursos ao grupo. Também
dizem que o ministro da Pesca, André de Paula (PSD), é “cabo eleitoral contra
Lula”, que quilombolas, pescadores e indígenas foram esquecidos pelo governo
petista e que a saúde no Rio Grande do Sul está pior que nos tempos do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Participaram do encontro o ministro do
Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, os deputados João Daniel (PT-SE),
Valmir Assunção (PT-BA) e Marcon (PT-RS), ambos ex-sem-terra, e o líder do PT
na Câmara, Pedro Uczai (SC), entre outros.
Em seu discurso, Uczai afirmou que a grande tarefa
para 2026, “mais do que eleger novos deputados federais, senadores, deputados
estaduais, governadores, é reeleger o presidente Lula”.
Na avaliação de outros petistas que participaram do
encontro, isso pode ser difícil. As principais queixas foram feitas pelo
deputado Marcon, que dedicou parte de sua fala para fazer autocríticas ao
governo Lula.
“Você acha que quilombola, pescador ou indígena tem
algum motivo social, econômico para votar no Lula? Os gaúchos não têm”, disse.
“O ministro da Pesca é cabo eleitoral contra o Lula.
Além de não fazer nada, promete e não faz. Os quilombolas e pescadores não
levaram um tostão fora Bolsa Família. A saúde está pior do que nos tempos de
Bolsonaro. Estou falando do meu Estado. Se outro Estado está melhor, me
oriente”, prosseguiu o deputado em discurso ao ministro Paulo Teixeira e demais
presentes.
Ele também fez críticas ao Banco do Brasil e ao
Sistema de Crédito Cooperativo (Sicredi), instituição financeira cooperativa.
“Está difícil fazer campanha para Lula na agricultura familiar. O Banco do
Brasil é uma tragédia. A Sicredi é outra. É um comitê contra o governo
federal”, disse. “O povo está bravo com nós mesmos. Nós somos vaiados quando
vamos falar. Fui vaiado na Feira da Agricultura Familiar, lá em Sarandi (RS).”
“O BB destaca que o país avança nas políticas para
os pequenos produtores e ressalta que, de acordo com dados divulgados na última
apresentação de resultados, a atuação do BB com agronegócio e agricultura
familiar teve um crescimento de 2,1% nos últimos 12 meses, totalizando R$ 406,1
bilhões”, disse, em nota.
“Especificamente no Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o saldo da carteira atingiu R$
68,8 bilhões, crescimento de 4% nos últimos 12 meses. No atual plano safra, já
desembolsamos R$ 17 bilhões em financiamentos por meio do Pronaf em mais de 215
mil operações para mais de 160 mil clientes”, acrescentou o banco.
O Estadão procurou também o Sicredi, a Secretaria de
Comunicação do governo federal, o deputado Marcon e o Ministério da Pesca.
Nenhum deles respondeu.
Antes, em exposição inicial na reunião, Teixeira
celebrou a queda no preço dos alimentos. Marcon criticou essa posição do
ministro.
“Fica muito ruim para nós quando comemoramos o preço
do produto com nossos agricultores gritando contra a gente. Pode falar lá em
São Paulo, em Porto Alegre, mas em minha terra não dá. Estamos comemorando a
falência do agricultor”, disse Marcon. “No tempo de Bolsonaro, eu ganhei
dinheiro das dívidas, foi renegociar nossa dívida. No nosso governo, nenhum
tostão.”
O deputado, que ressalvou estar fazendo as críticas
apenas por ser um ambiente reservado, disse que o governo perdeu a moral na
questão da agricultura. “Não tenho medo de defender o governo. Só crescemos
quando o povo fala contra a direita. E eu falo isso porque aqui é o lugar. Publicamente,
só depois da eleição. Nós do governo deixamos a desejar: dívida, água e casa”,
afirmou.
O deputado Fernando Mineiro (PT-RN) também pontuou
alguns incômodos e avaliou que a base de agricultura familiar, que “é
maciçamente lulista”, teria novas exigências.
“A gente tem que aproveitar esse momento, essa
experiência de todos esses três anos e meio, o Paulo (Teixeira) e a equipe,
todos nós, para pensar o que nós vamos oferecer, apontar para essa base se a
gente quer chegar no quarto mandato do Lula”, disse.
Para ele, o PT elabora o plano de governo sem ouvir
os problemas apontados pelos parlamentares. “Por exemplo, o primeiro projeto
que eu apresentei aqui foi um projeto de resolução para criar uma comissão
permanente na Câmara da Agricultura Familiar. Não foi nem a voto, ninguém nem
sabe desse projeto”, comentou.
Procurado, Mineiro disse que as declarações dele são
pontos distintos e não têm relação direta entre si.
“Durante o encontro do Núcleo Agrário na semana
passada, destaquei a importância de ampliar divulgação das ações do governo
organizadas por Estados e municípios, para que a população tenha mais
conhecimento sobre elas”, afirmou o deputado ao Estadão.
“Em outro momento da minha fala, tratei de um tema
diferente: a importância de que a construção do plano de governo de um eventual
quarto mandato de Lula considere tanto os acertos quanto os problemas
identificados na atual gestão.”
A base petista ligada ao MST na Câmara é conhecida
por ter postura crítica ao governo em reuniões internas. O Estadão revelou, em
2023, que esses mesmos parlamentares reclamavam do repasse orçamentário para a
reforma agrária e do isolamento para dialogar com os principais ministros,
todos do mesmo partido.
Na época, as principais queixas foram dirigidas a
Alexandre Padilha (que comandava a Secretaria de Relações Institucionais), a
Rui Costa (Casa Civil) e ao próprio Paulo Teixeira.
Sobre Rui Costa, parlamentares criticaram a atuação
do ministro, alegando não serem atendidos por ele, e sugeriram buscar Lula diretamente,
sem passar pela Casa Civil. Em relação a Padilha, Marcon disse que o ministro
“ganhou muito poder”. Na ocasião, o petista afirmou ainda que o Ministério do
Desenvolvimento Agrário, comandado por Paulo Teixeira, precisava ter mais
humildade.
Estadão
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