A esta altura, pouco importa o que pensam os
doutores da Justiça Eleitoral a respeito da flagrante antecipação de campanha
eleitoral levada ao sambódromo do Rio de Janeiro pela escola de samba
Acadêmicos de Niterói, na forma de “homenagem” ao presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. Provavelmente, alguns ministros do Tribunal Superior Eleitoral
produzirão muitos prolegômenos parnasianos para sustentar argumentos destinados
a exonerar os carnavalescos, bem como os beneficiários da patuscada, de
qualquer ilícito eleitoral, citando alíneas e parágrafos de uma legislação que,
ao fim e ao cabo, só serve para aplicar multas irrisórias contra quem delinque
de forma contumaz, caso de Lula.
Mas, para quem viu o horroroso desfile e ouviu o
destrambelhado samba-enredo, não restou dúvida nenhuma de que se estava diante
de um ato característico de campanha – que, bem ao estilo petista, debochou da
inteligência alheia, da lei, dos adversários de Lula, dos evangélicos e da
instituição da família.
Tudo isso sob as bênçãos de Lula em pessoa, que não
só acompanhou o desfile de um camarote do sambódromo, como desceu à avenida
para cumprimentar os integrantes da escola. Por muito pouco, a primeira-dama
Janja da Silva não desfilou como destaque num carro alegórico. Ela chegou a se
preparar para o desfile, mas alguém de bom senso deve tê-la convencido de que
sua presença ali selaria simbolicamente a relação direta entre a apresentação
da escola e a campanha do marido à reeleição.
Mas a ausência da primeira-dama na undécima hora não
muda a essência da vergonha. De início, saliente-se que o presidente de honra
da Acadêmicos de Niterói é um vereador do PT, Anderson Pipico, o que autoriza a
supor que a escolha do tema da escola neste ano não tinha outro objetivo senão
o de dar destaque ao candidato do partido à Presidência. Obviamente, como era
de se esperar, Pipico negou que o desfile tenha tido caráter eleitoral. O
vereador petista disse que a escolha do enredo foi um gesto de “coragem e
audácia” da escola, ao decidir homenagear a trajetória de Lula.
É difícil, mas vamos dar o benefício da dúvida ao
sr. Pipico. Digamos que o objetivo da escola fosse mesmo apenas celebrar Lula,
que é, de fato, um dos políticos mais relevantes da história brasileira. No
entanto, o desfile foi muito além de uma homenagem a Lula. Primeiro,
destaque-se o carro alegórico que trazia o ex-presidente Jair Bolsonaro
caracterizado como um palhaço preso. Depois, um integrante da escola que
representava o ex-presidente Michel Temer apareceu “roubando” a faixa de Dilma
Rousseff, numa encenação do impeachment da petista.
Ora, depreciar adversários políticos é coisa típica
de campanha eleitoral. O fato de Lula aviltar seus adversários políticos todos
os dias, mesmo fora da época de campanha, não muda essa realidade. Logo, será
preciso muita ginástica hermenêutica para não ver nesses pontos do desfile a
intenção de contrastar Lula com seus opositores, o que geralmente os candidatos
fazem quando pedem votos.
Por fim, mas não menos relevante, uma ala da escola
de samba fantasiou-se de “latas de conserva” para satirizar a “família
tradicional”. De quebra, esses personagens carregavam bíblias, em clara
intenção de debochar dos evangélicos. Nesse caso, parece óbvio que a ideia era
menosprezar os eleitores conservadores, sobretudo os evangélicos, que, conforme
indicam as pesquisas, vão continuar a votar contra Lula.
Tudo isso, recorde-se, foi transmitido ao vivo pela
maior emissora de TV do País, com enorme alcance. Outros candidatos não tiveram
nem terão a mesma oportunidade. É isso o que caracteriza o desequilíbrio
eleitoral que demanda atuação da Justiça. Esse desequilíbrio ficou tão evidente
que o próprio governo mandou que seus ministros se abstivessem de participar do
desfile. Ora, se não havia nada de errado na apresentação da Acadêmicos de
Niterói, os ministros e o próprio Lula deveriam ter sambado, cantando o samba-enredo
a plenos pulmões, em agradecimento a tamanha deferência. Se não o fizeram, é
porque sabiam que se tratava de escandalosa propaganda eleitoral, passível de
punição.
Por ora, o único castigo para tanto cinismo foi o
rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Que seja um presságio.
Opinião do Estadão

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