Quando as nuvens da Lava Jato se aproximavam de
Brasília, um político experiente comentava, à boca pequena, que os nomes
envolvidos no escândalo que se avizinhava seriam exatamente os integrantes do
chamado alto-clero da política brasileira. Ou seja, se um parlamentar não
estivesse nas listas de doações eleitorais das principais empreiteiras nos anos
anteriores, significaria que era uma pessoa pública irrelevante no grande jogo.
Dito e feito. Não por acaso, um dos maiores sobreviventes/beneficiários do
escândalo foi o então deputado Jair Bolsonaro, que por décadas foi um mero
representante da arraia-miúda da Câmara dos Deputados.
Após uma série de reviravoltas na política
brasileira, com condenações, prisões, anulações e volta por cima de envolvidos,
retornamos a um ponto semelhante ao ocorrido com a Lava Jato. Saem de cena
empreiteiras que tocaram as principais obras no País e entra um banqueiro até
há pouco quase anônimo, o belo-horizontino Daniel Vorcaro, que parece ter
colocado todo mundo em seu bolso – um personagem mais cafona e exibicionista do
que os seus predecessores. Em seu celular, aprendido e descodificado pela
Polícia Federal, pode haver um pequeno microcosmo do que de mais significativo
ocorreu na história brasileira nos últimos anos.
Existe a informação de que o telefone de Vorcaro
possui citações e conversas de políticos numa lista partidária bastante ampla.
Ainda não sabemos se e quando os nomes virão à tona, porque a rotina de
vazamentos que marcou a Lava Jato traumatizou tanto os envolvidos que uma série
de medidas de vedação foi tomada. Por enquanto, nas conversas do aparelho,
consta o ministro do STF Dias Toffoli, que acumula as incríveis funções de juiz
e investigado no mesmo caso, segundo a Polícia Federal. As inverosimilhanças do
caso fazem o filme “O agente secreto”, cheio de cenas absurdas, se tornar uma
obra tradicionalista.
Em certo sentido, as revelações do Banco Master são
um aprimoramento de nossa jornada de escândalos. No caso da Lava Jato, o poder
Judiciário foi poupado das denúncias de desvios de bilhões. No máximo, houve
relações indevidas entre juiz e procuradores deslumbrados, o que, na prática,
levou ao cancelamento da operação. Empreiteiros que admitiram culpa tiveram
suas multas canceladas. Principalmente pelo onipresente Dias Toffoli, uma
espécie de elo entre os dois escândalos. Agora, o próprio STF está no centro da
trama – o caso da esposa do ministro Alexandre de Moraes ter um contrato de R$
129 milhões com o banco liquidado é mais uma das dezenas de pontas soltas desse
rolo master.
Um dos motes das campanhas eleitorais este ano é ser
o “anti-sistema”. Tanto o PT quanto o PL gostam de levantar esta bandeira.
Então fica o critério: quanto mais próximas as pessoas do celular de Vocaro,
mais representante do sistema a autoridade pública ou agente privado será. Até
onde a vista alcança, todos os poderes e todas as ideologias foram atingidos
por mais essa onda violenta.
Fabiano Lana - Estadão

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