A Via Costeira, um dos principais polos turísticos
de Natal, concentra uma rede hoteleira que sustenta parte relevante da economia
do turismo na capital. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no RN
(ABIH-RN) estima que, dos 11 hotéis da região, nove empreguem pelo menos 1.700
trabalhadores diretos. Essas unidades, segundo a entidade, oferecem 1.900
apartamentos e 6.700 leitos. Além disso, um levantamento da TRIBUNA DO NORTE
junto a cinco empreendimentos aponta que, juntos, eles somam aproximadamente R$
192 milhões de faturamento anual. Embora os números não abarquem todos os
estabelecimentos e ainda não exista um estudo consolidado sobre o impacto
econômico total do trecho, eles dimensionam a importância da via para o turismo
potiguar.
Entre retomadas e ampliações de operações, como a
reabertura do Costeira Palace após reformas de ao menos R$ 130 milhões, o setor
destaca a Via Costeira como ativo estratégico, mas empresários e executivos
relatam que a insegurança jurídica e a subutilização do espaço têm travado
novos investimentos e limitado o aproveitamento turístico e de lazer do trecho.
O presidente da ABIH-RN, Edmar Gadelha, aponta que
além do destaque na hotelaria, a Via Costeira exerce um papel decisivo na busca
por maior competitividade do Estado na região Nordeste. “Hoje, como principal
polo do setor, com grandes hotéis, a Via Costeira permanece sendo um pilar
estratégico da economia potiguar, atraindo investimentos de alto impacto como o
recente Costeira Palace”, aponta.
O Costeira Palace Beach Resort retomou as operações
em Natal em janeiro do ano passado. O diretor comercial e de marketing do Ocean
Palace Beach Resort & Bangalows e do Costeira Palace, Ruy Gaspar, aponta
que atualmente o empreendimento emprega 350 trabalhadores diretos.
Já o Ocean Palace Resort, pertencente ao mesmo
Grupo, emprega cerca de 450 profissionais. De acordo com o diretor, um outro
terreno na região chegou a ser oferecido para a empresa, mas as atuais
discussões jurídicas para as construções no local têm travado a perspectiva de
novos investimentos. “Não temos segurança para comprar [um novo terreno],
porque não sabemos se conseguiríamos fazer [um novo empreendimento]. Sem isso,
não há geração de emprego e impostos. Fica tudo atrasado”, completa.
O empresário Manoel Andrade, fundador e líder do El
Aram Imirá Beach Resort e El Aram Natal Mar Hotel, ambos localizados na Via
Costeira, aponta que o grupo também chegou a receber propostas para novos
investimentos no local. Ele observa, contudo, que não teve interesse pelo mesmo
motivo: insegurança jurídica. Atualmente, os dois hotéis liderados pelo
empresário empregam 240 trabalhadores diretos e aproximadamente 500 indiretos.
O membro do conselho do Grupo Wish, José Henrique
Azeredo, traz uma perspectiva semelhante. Na avaliação dele, a Via Costeira é
um importante ativo econômico gerador de empregos. Apenas o Wish Natal é
responsável por 195 empregados diretos, além de 55 empregados indiretos.
O representante do grupo ressalta, por outro lado,
que a via é subutilizada do ponto de vista turístico e de lazer. “A via hoje é
excessivamente utilizada como faixa de passagem de carros e estagnada,
subutilizada do ponto de vista turístico ou de lazer. Não há usufruto das
praias e calçadas, não há acesso seguro para a costa da praia, limitando sua
utilização aos aventureiros”, completa.
PGE responde a ação e defende Costeira
Parque
Em paralelo ao potencial turístico, os embates
jurídicos têm se destacado nas pautas sobre a Via Costeira. Em reportagem
especial publicada no último fim de semana, a TRIBUNA DO NORTE mostrou que uma
ação do Ministério Público Federal (MPF) contesta a íntegra ou trechos do Plano
Diretor de Natal (Lei Complementar nº 208/2022) e outras resoluções municipais,
além da Lei Estadual nº 12.079/2025. O órgão aponta preocupações com a ocupação
intensiva da avenida, como a ampliação de processos erosivos.
O processo foi movido contra o Município de Natal, o
Idema, a Câmara Municipal (CMN) e a Assembleia Legislativa (ALRN). A Lei
estadual contestada, sancionada pela ALRN, foi a responsável por estabelecer a
adequação do Projeto Parque das Dunas/Via Costeira ao Plano Diretor de Natal.
O procurador-geral do Estado, Antenor Roberto,
afirma que, ao entrar com a ação, o MPF não verificou que o Idema não é mais o
responsável pela execução do projeto, uma vez que o parque será construído em
uma área de jurisdição municipal. Além disso, ele esclarece que a Lei Estadual
nº 12.079/2025 não foi sancionada e nem vetada pelo Governo do Estado, o que
deu à ALRN a responsabilidade de promulgá-la.
O motivo, segundo ele, foi o fato da proposta ter
copiado o termo aditivo da PGE aos acordos de concessão de sete terrenos na Via
Costeira, estendendo os critérios para um uso mais amplo que não foi estudado
pelo Governo. Conforme já apontado pela TRIBUNA DO NORTE, o objetivo dos
aditivos nos sete acordos é precisar o processo de construção nas áreas, que
pertencem à Companhia de Processamento de Dados (Datanorte), e adaptar as
regras ao Plano Diretor de Natal.
Ainda segundo o procurador-geral, a decisão de não
vetar considerou o fato de que seria contraditório ir contra uma legislação
baseada em critérios defendidos pelo governo nos termos aditivos. Além disso,
observa, a lei pode ser favorável para guiar estudos para novas concessões que
possam surgir na Via Costeira.
O trecho contestado pelo MPF, de acordo com Antenor,
é o artigo 3º da legislação. O trecho estabelece, dentre outros pontos, que o
início do funcionamento dos respectivos equipamentos deve ocorrer no prazo
máximo de 36 meses, contados a partir da entrada da lei em vigor, excluindo a
contagem do prazo para licenciamento dos projetos.
Antenor Roberto explica que cabe à PGE realizar a
representação para a defesa da lei. “E vamos defender, também, o Costeira
Parque. Estamos em tratativas administrativas e o Ministério Público pediu
algumas diligências para entender por que o parque não é alcançado sequer pela
tese deles. É um parque que vai ajudar, inclusive, na erosão presente no
terreno [em que será construído]. Então, temos dois pontos nessa ação que nos
diz respeito diretamente”, completa.
O canteiro de obras, além da inclusão dos tapumes,
já foi realizado para dar prosseguimento ao Costeira Parque, em fase atual de
licenciamento. De acordo com Antenor Roberto, apesar dos atuais embates
jurídicos, o projeto não está sendo prejudicado. “Nós vamos manter o nosso
objetivo, que é entregá-lo à sociedade. É um direito da sociedade ter um
passeio público na Via Costeira”.
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato
com a Setur/RN para conseguir dados detalhados sobre a participação da Via Costeira
na economia potiguar, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. A
Secretaria de Turismo de Natal também foi procurada, mas não conseguiu obter os
dados.
*Essa reportagem integra uma série publicada pela
Tribuna do Norte sobre a Via Costeira. A primeira, intitulada “Via Costeira:
impasse judicial sobre leis urbanísticas trava novos investimentos”, está
disponível em tribunadonorte.com.br.
Polo de turismo e qualificação
Além da geração de empregos, a hotelaria da Via
Costeira passou a desempenhar um papel expressivo na formação de novos
profissionais, com a inauguração do Complexo Hotel-Escola Senac Barreira Roxa.
De acordo com dados cedidos pela instituição à reportagem da TRIBUNA DO NORTE,
anualmente são capacitados, em média, mais de 3 mil pessoas nos segmentos de
gastronomia, turismo e hospitalidade.
A estrutura do Complexo Barreira Roxa inclui um
Centro de Ensino Profissionalizante, 52 apartamentos que podem acomodar até 150
leitos, além de um Centro de Eventos, com capacidade para receber até 300
pessoas. O equipamento foi o primeiro hotel da América Latina a obter o
Certificado ISO 21401 de Sustentabilidade e recebeu o Prêmio Braztoa, concedido
pelo Ministério do Turismo.
Na avaliação da instituição, a Via Costeira se
posiciona como uma área estratégica sob os aspectos turístico, social e urbano.
“A Via Costeira é de grande relevância para o setor turístico, pois concentra
uma expressiva infraestrutura hoteleira, além de equipamentos urbanos de
destaque, como o Centro de Convenções”, apontou por meio de nota.
O gerente de cozinha do Barreira Roxa, o gastrólogo
Jonatã Canela, de 37 anos, é uma das pessoas que ganharam uma oportunidade de
crescimento profissional por meio da instituição. Natural de Natal, ele conta
que realizou seu primeiro curso na área de gastronomia em 2007, por meio do
Senac. Na época, já realizava a graduação em gastronomia, mas reforça que foi a
qualificação a responsável por seu ingresso no mercado.
Atualmente, Jonatã Canela é responsável por todas as
operações de gastronomia do Hotel, que vão desde o que é servido no bar da
piscina até a formação do cardápio do Restaurante Navarro. “Estando à frente da
cozinha do hotel, posso dividir não só as minhas pesquisas, mas também
compartilhar com as pessoas muito do que a nossa cultura e os nossos produtores
e os produtos têm a oferecer, fortalecendo a cultura do Rio Grande do Norte”,
compartilha.

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