segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Leite de jumenta vira aposta para saúde, cosméticos e economia

 


Muitos mistérios rondam a vida de Cleópatra, a rainha mais famosa do Egito. Há até dúvida sobre sua beleza, retratada nos livros e filmes. Mas, uma coisa é certa: ela estava à frente do seu tempo. Quando o mundo ainda contava o tempo Antes de Cristo, ela já usava batom vermelho e tomava banhos de leite de jumenta.

O bicho ameaçado de extinção no Nordeste banhava a pele de uma das mulheres mais importantes da história com a composição que pode ser a salvação do semiárido nordestino. Já conhecido como “ouro branco”, o leite de jumenta é rentável e muito mais nutritivo que o leite de vaca. É, inclusive, o que mais se aproxima do leite materno de nós, os seres humanos.

No Brasil, é quase impossível conseguir um vendedor. Não existe um comércio formal. Contudo, 2026 promete virar essa chave, inclusive, para abastecer os bancos de leite das UTIs neonatais pelo país, já que o leite se assemelha ao humano. Na Universidade do Agreste de Pernambuco (Ufape), cientistas trabalham para que, ainda este ano, o leite de jumenta possa ser utilizado com segurança em unidades de terapia intensiva pediátrica, graças ao seu potencial terapêutico.

O leite de jumenta apresenta baixo teor de gordura e calorias, alto teor de lactose e whey proteins, que são proteínas solúveis que facilitam a digestão, além de uma baixa proporção de caseína, a principal responsável pelas reações alérgicas ao leite de vaca. Essa combinação explica porque, em diversos estudos clínicos, entre 82,6% e 98,5% das crianças com alergia à proteína do leite de vaca toleram bem o consumo do leite de jumenta.

Esse perfil nutricional faz dele um candidato valioso como alternativa para indivíduos com alergias alimentares e sensibilidades digestivas, em especial crianças pequenas que não toleram o leite bovino e precisam de uma fonte de nutrientes de fácil digestão. Pesquisas apontam ainda que o leite de jumenta pode modular o microbioma intestinal, aumentar a defesa antioxidante e exercer efeitos anti-inflamatórios, embora a maior parte desses efeitos ainda esteja sendo estudada em modelos experimentais e ainda precisem de ensaios clínicos em larga escala para confirmar benefícios terapêuticos amplos. Mas, convenhamos, é um avanço.

Cosméticos
O leite de jumenta também é um bom produto para a confecção de cosméticos, sendo benéfico em outro aspecto: não precisa abater o animal, como ocorre atualmente e está dizimando a espécie na região Nordeste.

Os pesquisadores destacam ainda que essa experiência já é realidade em países como a Itália, que serviu de inspiração para o modelo adotado por aqui. “Além do consumo direto, o leite pode ser transformado em derivados cosméticos e alimentos funcionais, contribuindo para o desenvolvimento de cadeias produtivas locais e para a geração de renda complementar aos produtores rurais”, afirma o professor de veterinária Gustavo Carneiro, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

O leite de jumenta é rico em vitaminas (incluindo C e diversas do complexo B) e minerais, e os estudos apontam que esses constituintes podem favorecer hidratação, elasticidade e reparação cutânea (cicatrização), razão pela qual já é ingrediente de cremes, sabonetes e máscaras faciais usados especialmente no mercado europeu e asiático.

Nas plataformas de comércio eletrônico, o leite de jumenta começa a ganhar espaço no nicho fora do país. Consumidores interessados em versões liofilizadas (em pó) ou embaladas para consumo direto já encontram opções em marketplaces globais e em sites especializados em produtos naturais, embora a oferta ainda não é continuada e frequentemente envolve importação.

O interesse crescente também alimenta uma revalorização da asinocultura, a criação de jumentos voltada para produção de leite, como componente de uma economia rural mais diversificada. Com a possibilidade de transformar não apenas o leite, mas também subprodutos como colágeno, gelatina, queijos e biofármacos, a cadeia produtiva associa sustentabilidade, inovação e geração de valor agregado aos pequenos produtores. E, repetimos, preservando a espécie, que não precisa ser abatida - as principais causas para o abate da espécie são a exportação de pele e o desuso do trabalho do jumento no campo por causa da mecanização.

Segundo o zootecnista Alex Bastos, responsável técnico da Nordeste Pecuária, essa mudança de cenário remodela a importância do animal que, apesar de ser um símbolo do Nordeste, é oriundo da África. “Sem valor econômico e social, o animal doméstico tende ao abandono. Quando passa a ser valorizado, recebe cuidado, manejo adequado e passa a integrar um ciclo produtivo sustentável. O clima, a vegetação da caatinga e a rusticidade do animal formam uma combinação altamente favorável. Com manejo zootécnico adequado, o semiárido se torna uma região extremamente competitiva para a asinocultura”, pondera.

Com informações de Correio 24 horas

 

 

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