Uma negociação empresarial que envolve o ex-ministro
das Comunicações e ex-deputado federal potiguar Fábio Faria e uma empresa
vinculada ao empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, veio à tona
nesta semana após uma série de reportagens detalhar a transação de um projeto
de energia eólica potiguar por aproximadamente R$ 67,5 milhões.
No centro da controvérsia, está a Fazenda São Pedro
Geradora de Energia SPE Ltda., uma sociedade de propósito específico (SPE)
criada para desenvolver um parque eólico em área pertencente à família de Faria
há três gerações, localizada entre Guamaré e Galinhos, na região da Costa
Branca do Rio Grande do Norte.
Em fevereiro de 2024, cerca de um ano depois de
deixar o Governo Federal, o ex-ministro negociou a venda de 90% das cotas do
empreendimento com a Super Empreendimentos e Participações, empresa que teria
sido usada para desviar patrimônio do Banco Master em favor de Daniel Vorcaro.
Pelo contrato, a família de Fábio Faria não é mais
administradora do empreendimento de energia eólica, mas receberá pagamentos
pela produção de energia, com base no contrato firmado, quando o projeto
começar.
Como parte da transação, o pagamento incluiu a
entrega de um apartamento de alto padrão em São Paulo, avaliado inicialmente em
cerca de R$ 50 milhões na região da Avenida Faria Lima, que Fábio Faria teria
posteriormente revendido por R$ 54 milhões.
Apesar do acordo assinado entre as partes — através
de um “contrato de cessão de quotas sociais” — o registro formal da alteração
societária não foi levado adiante na Junta Comercial do Rio Grande do Norte nem
na Receita Federal, e a SPE continuava, dois anos depois, figurando
oficialmente apenas no nome de Fábio Faria, com capital social simbólico de R$
1 mil. Na prática, trata-se do tradicional contrato “de gaveta”, sem a
transparência exigida em transações de grande vulto.
Questões de compliance e PEP
Ainda que a legislação não proíba transações entre
pessoas politicamente expostas (PEP) e investidores privados — Faria permanece
classificado como tal por até cinco anos após deixar o ministério —,
especialistas destacam que a operação exige maior rigor de compliance e
transparência, conforme normas do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf).
Além disso, a Super Empreendimentos e Participações
era na época da negociação dirigida por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel
Vorcaro, que chegou a ser preso e solto em janeiro de 2026 durante a segunda
fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal, que mira esquemas de
fraude relacionados ao Banco Master, em novembro de 2025.
Viabilidade técnica duvidosa
O projeto eólico da Fazenda São Pedro tinha previsão
inicial de gerar 240 megawatts, com expansão para até mais 132 MW, instalado em
terreno de quase 10 mil hectares, entre dois parques eólicos já operantes.
Contudo, relatórios do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que
a rede de transmissão na região Nordeste enfrenta sobrecarga, sem capacidade de
escoar energia adicional no curto prazo — entrave que já havia afastado outros
investidores antes da transação com Vorcaro.
Versões conflitantes
Em nota, Fábio Faria afirmou que a negociação foi
conduzida depois de sua saída do cargo público, que não houve interação entre
ele e a empresa compradora durante o exercício de suas funções políticas, e que
todas as obrigações fiscais e regulatórias foram cumpridas. Ele também
ressaltou que o valor do projeto foi atestado por auditoria de mercado.
Por sua vez, a defesa de Vorcaro declarou que a
relação com a Super Empreendimentos e Participações é estritamente comercial,
tratando-se de compra e venda de ativos e contratos de inquilinato, e que a
participação do cunhado no quadro societário é de conhecimento público.
Dois anos após a assinatura do acordo, não há
registro de que a empresa ligada a Daniel Vorcaro tenha desenvolvido qualquer
atividade concreta no projeto eólico, que permanece sem avanços técnicos ou de
construção, conforme apurado pelas reportagens recentes.
O caso Master
O caso vem à tona em meio ao avanço das
investigações sobre as fraudes envolvendo o Banco Master, que foi liquidado
pelo Banco Central em novembro de 2025.
O Banco Master passou a ser investigado após
levantar grandes volumes de dinheiro por meio de CDBs, com suspeitas de que
parte dos ativos apresentados como lastro desses investimentos era inexistente,
superavaliada ou sem liquidez real. A partir disso, a Polícia Federal passou a
apurar se bens e recursos estariam sendo retirados da estrutura formal do banco
e redistribuídos por meio de outras empresas, como forma de ocultar patrimônio
e dificultar fiscalizações.
Em depoimento à PF, o diretor do BC Ailton Aquino
afirmou que o Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa antes de a liquidação
extrajudicial ser decretada.
É nesse contexto que entra o negócio com Fábio
Faria. A compra do projeto eólico foi feita por uma dessas empresas ligadas a
Vorcaro, usando uma estrutura pouco transparente: contrato não registrado
oficialmente, pagamento parcial com imóvel de alto valor e ausência de avanço
prático do empreendimento mesmo após dois anos. Isoladamente, a venda não prova
irregularidade, mas ela chama atenção por repetir o mesmo padrão investigado no
Banco Master — uso de empresas paralelas, ativos de difícil comprovação econômica
e negócios fora do balanço principal. Por isso, a operação passou a ser vista
como parte do mesmo ambiente empresarial que deu origem às investigações.
No caso do Banco Master, são investigados crimes
como gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa, entre outros.

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