Gustavo Negreiros/Opinião - Estadão
Lula ‘perdido’ da Silva
Sem plano estratégico para o País, o
petista parece desorientado. As crises que já engolfam um governo de apenas
cinco meses formam o retrato de um presidente fora do prumo
É difícil acompanhar a política nacional e não se
espantar com o fato de que o governo do presidente Lula da Silva não completou
cinco meses, mas já está imerso em confusões que o fazem parecer precocemente
envelhecido, como se já estivesse padecendo da fadiga de material típica de fim
de mandato.
Lula parece perdido. Sabe-se que ele queria governar
o País pela terceira vez, ou não teria se submetido, a essa altura da vida, ao
desgaste de uma virulenta campanha eleitoral como foi a do ano passado. Mas,
até agora, ainda não se sabe exatamente para quê. Afinal, aonde Lula quer levar
o Brasil? Qual seu plano estratégico para o País?
Desencontros são naturais no início de qualquer
governo. No entanto, não há explicação razoável para tantas crises políticas,
em tão pouco tempo, a não ser a desorientação do presidente da República. Mais
especificamente, a falta de um programa de governo consistente e de uma
política de comunicação que sejam capazes de unir a sociedade em torno de
objetivos comuns, malgrado todas as divergências políticas que possa haver
entre os cidadãos, como as há em qualquer democracia saudável.
Enquanto as reais intenções de Lula não forem
conhecidas, é lícita a inferência de que o presidente só está se movendo por
seus caprichos e por sua pulsão pela desforra. É nítida a intenção do petista
de demolir tudo o que foi feito de bom no País enquanto o PT esteve fora do
poder, em particular o Marco Legal do Saneamento, a Lei das Estatais, a
autonomia do Banco Central (BC), as reformas do Ensino Médio e a trabalhista e
a capitalização da Eletrobras, entre outras medidas.
Lula pode vir a público e afirmar, como o fez há
poucos dias, que “não voltaria à Presidência para ser menor” do que foi em seus
mandatos anteriores. Porém, até o momento, isso é exatamente o que se
descortina. Lula também pode fazer afagos públicos nas ministras do Meio
Ambiente, Marina Silva, e dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, mas nada
compensará o fato de que, em nome de uma certa governabilidade, permitiu que o
Centrão desfigurasse esses Ministérios que, bem ou mal, serviam para ser a cara
do governo petista. Como bem disse o próprio Lula depois da humilhação de suas
ministras, “tudo parece normal”.
Em um Congresso infenso às pretensões do presidente,
Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) brotam por todos os lados, em
número sem precedentes para uma legislatura que mal começou. O que é isso senão
o retrato de um governo fraco, como já destacamos nesta página?
Enquanto claudica na articulação para formar uma
base de apoio no Legislativo consistente o bastante para aprovar projetos
realmente importantes para o Brasil, Lula se perde entre questões distantes das
prioridades do País, como a guerra na Ucrânia, sua rixa pessoal contra o
presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, suas agressões aos
empresários do agronegócio, sobretudo os paulistas, e os endossos aos
arruaceiros do MST. Enquanto o mundo já discute como serão as cidades do
futuro, Lula dobra a aposta no transporte individual por meio de carros baratos
movidos a combustíveis fósseis.
O que haveria de ser pior para o Brasil do que ser
governado por um presidente desorientado, alguém que, ao invés de servir à
Nação como fonte de estabilidade, funciona como vetor de crises perfeitamente
evitáveis?
O País teve a infelicidade de ser governado por um
desqualificado como Jair Bolsonaro durante a mais grave emergência sanitária em
mais de um século. Seu despreparo e, principalmente, seu descaso com a vida dos
brasileiros fizeram de sua gestão da crise, por assim dizer, uma tragédia
dentro de outra tragédia. A razia promovida pelo ex-presidente em praticamente
todas as áreas da administração pública demandava do sucessor um esforço de
união e reconstrução sem precedentes.
Lula se apresentou como a única pessoa à altura
dessa tarefa, o líder de uma fenomenal “frente ampla” capaz de reconectar os
brasileiros com a esperança de dias melhores. Tempo há para que esse Lula,
enfim, apareça. Resta saber se era isso o que ele realmente se propôs a fazer
pelo País.

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