O “ouro branco”, que há décadas havia desaparecido
da paisagem agrária do Rio Grande do Norte, está de volta exibindo potencial
renovado e sintonia ambiental. A cultura do algodão vive um momento de resgate
no Seridó e outras regiões do semiárido potiguar através de arranjos produtivos
locais como o Projeto Agro Sertão, uma ação que envolve Sebrae-RN, Embrapa,
Fundação Banco do Brasil, Instituto Riachuelo, estado, prefeituras, e
agricultores familiares. A iniciativa, que retoma a cotonicultura por um viés
agroecológico e sustentável, já proporcionou mais de R$ 1,240 milhão em renda
para famílias e agricultores envolvidos.
O Agro Sertão foi implementado entre 2021 e 2025,
estando presente atualmente em 17 municípios do Seridó. O projeto já produziu
uma safra de 167 toneladas de algodão rama, resultando em 66,6 toneladas de
pluma. Para 2026, o Agro Sertão está atendendo a 131 famílias, com estimativa
de produção que vai corresponder a 25 toneladas de algodão de pluma.
A rede de parceiros em volta do Agro Sertão promove
um modelo produtivo sustentável, baseado na agroecologia, sem uso de
agrotóxicos. A analista técnica do Sebrae-RN, Sergina Dantas, gestora do
projeto, ressalta que a ação é sustentável em todos os aspectos. “O Sebrae
trabalha no âmbito da agroecologia, ou seja, não usamos insumos químicos que
prejudicam o meio ambiente e a saúde humana. Orientamos o reúso da água, da
energia solar, da polinização natural das abelhas, entre outras soluções
ambientais”.
O sistema de cultivo agroecológico usa todas as
possibilidades da terra de forma natural. Um desses espaços é a Fazenda Sítio
Novo, na área rural do município de Lagoa Nova, a 200 km de Natal. O engenheiro
agrônomo Chico Freire, consultor do Sebrae, explicou que há todo um processo
antes do plantio, como análise de solo, escolha da área, diagnóstico do local e
do produtor.
Os processos de plantio dispensam qualquer uso de
produtos químicos não permitidos, ressaltou Chico Freire, preferindo insumos
biofertilizantes, com uma ureia feita com fezes do gado, e fertilizantes à base
de plantas, caldo de mamona, e outros recursos naturais – incluindo para
controle de pragas como o temido bicudo, que destruiu as plantações na década
de 80.
Fios de valor
Fábio
Aquino, pesquisador da Embrapa, destacou a qualidade da fibra do algodão
cultivado no RN. “A brancura do nosso algodão reflete sua qualidade, é
diferente do algodão do Mato Grosso, que é amarelado. O nosso algodão atual é o
herbáceo, diferente do mocó, mais comum no século passado. De modo geral, é um
desafio esse cultivo no semiárido”, diz ele.
O Instituto Riachuelo adquire toda a produção de
algodão do projeto para utilização na indústria têxtil. Fábio Aquino explica
que o segmento valoriza bastante esse tipo de material pelo apelo ecológico, um
marketing natural para qualquer tipo de confecção. Em 2025, esse trabalho
ganhou visibilidade com o lançamento da coleção de camisetas produzidas com o
algodão agroecológico do AgroSertão, apresentada durante o carnaval de Salvador
e comercializada nas lojas Riachuelo de todo o Brasil.
João da Mata, proprietário da fazenda Sítio Novo,
tem uma história longa de relação familiar com agricultura. “Essa terra era
conhecida apenas pelo caju e a mandioca, há uns 100 anos. Foi só em 2024 que
conheci o Agro Sertão, através da Prefeitura de Cerro Corá. Achei tão
interessante que também resolvi apostar nessa cultura”, diz.
“O mais importante é que os agricultores locais
sejam inseridos nesse projeto e sejam bem remunerados por isso, é como se fosse
o 13º deles. Isso fortalece a base do projeto”, acrescenta João da Mata.
Além do Sebrae - que faz consultorias, capacitações
e orientações diversas para os agricultores - e o Instituto Riachuelo, que
compra o material, os demais parceiros do AgroSertão contribuem em diversas
áreas: a Fundação Banco do Brasil apoia com equipamentos poupadores de mão de
obra e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs); a Embrapa Algodão fornece
sementes certificadas e promove a capacitação de produtores e consultores; e a
Emparn disponibiliza palma forrageira e estrutura para o beneficiamento do
algodão.

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