terça-feira, 4 de agosto de 2026

Algodão ressurge no RN e gera mais de R$ 1,2 mi para produtores

 


O “ouro branco”, que há décadas havia desaparecido da paisagem agrária do Rio Grande do Norte, está de volta exibindo potencial renovado e sintonia ambiental. A cultura do algodão vive um momento de resgate no Seridó e outras regiões do semiárido potiguar através de arranjos produtivos locais como o Projeto Agro Sertão, uma ação que envolve Sebrae-RN, Embrapa, Fundação Banco do Brasil, Instituto Riachuelo, estado, prefeituras, e agricultores familiares. A iniciativa, que retoma a cotonicultura por um viés agroecológico e sustentável, já proporcionou mais de R$ 1,240 milhão em renda para famílias e agricultores envolvidos.

O Agro Sertão foi implementado entre 2021 e 2025, estando presente atualmente em 17 municípios do Seridó. O projeto já produziu uma safra de 167 toneladas de algodão rama, resultando em 66,6 toneladas de pluma. Para 2026, o Agro Sertão está atendendo a 131 famílias, com estimativa de produção que vai corresponder a 25 toneladas de algodão de pluma.

A rede de parceiros em volta do Agro Sertão promove um modelo produtivo sustentável, baseado na agroecologia, sem uso de agrotóxicos. A analista técnica do Sebrae-RN, Sergina Dantas, gestora do projeto, ressalta que a ação é sustentável em todos os aspectos. “O Sebrae trabalha no âmbito da agroecologia, ou seja, não usamos insumos químicos que prejudicam o meio ambiente e a saúde humana. Orientamos o reúso da água, da energia solar, da polinização natural das abelhas, entre outras soluções ambientais”.

O sistema de cultivo agroecológico usa todas as possibilidades da terra de forma natural. Um desses espaços é a Fazenda Sítio Novo, na área rural do município de Lagoa Nova, a 200 km de Natal. O engenheiro agrônomo Chico Freire, consultor do Sebrae, explicou que há todo um processo antes do plantio, como análise de solo, escolha da área, diagnóstico do local e do produtor.

Os processos de plantio dispensam qualquer uso de produtos químicos não permitidos, ressaltou Chico Freire, preferindo insumos biofertilizantes, com uma ureia feita com fezes do gado, e fertilizantes à base de plantas, caldo de mamona, e outros recursos naturais – incluindo para controle de pragas como o temido bicudo, que destruiu as plantações na década de 80.

Fios de valor


Fábio Aquino, pesquisador da Embrapa, destacou a qualidade da fibra do algodão cultivado no RN. “A brancura do nosso algodão reflete sua qualidade, é diferente do algodão do Mato Grosso, que é amarelado. O nosso algodão atual é o herbáceo, diferente do mocó, mais comum no século passado. De modo geral, é um desafio esse cultivo no semiárido”, diz ele.

O Instituto Riachuelo adquire toda a produção de algodão do projeto para utilização na indústria têxtil. Fábio Aquino explica que o segmento valoriza bastante esse tipo de material pelo apelo ecológico, um marketing natural para qualquer tipo de confecção. Em 2025, esse trabalho ganhou visibilidade com o lançamento da coleção de camisetas produzidas com o algodão agroecológico do AgroSertão, apresentada durante o carnaval de Salvador e comercializada nas lojas Riachuelo de todo o Brasil.

João da Mata, proprietário da fazenda Sítio Novo, tem uma história longa de relação familiar com agricultura. “Essa terra era conhecida apenas pelo caju e a mandioca, há uns 100 anos. Foi só em 2024 que conheci o Agro Sertão, através da Prefeitura de Cerro Corá. Achei tão interessante que também resolvi apostar nessa cultura”, diz.

“O mais importante é que os agricultores locais sejam inseridos nesse projeto e sejam bem remunerados por isso, é como se fosse o 13º deles. Isso fortalece a base do projeto”, acrescenta João da Mata.

Além do Sebrae - que faz consultorias, capacitações e orientações diversas para os agricultores - e o Instituto Riachuelo, que compra o material, os demais parceiros do AgroSertão contribuem em diversas áreas: a Fundação Banco do Brasil apoia com equipamentos poupadores de mão de obra e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs); a Embrapa Algodão fornece sementes certificadas e promove a capacitação de produtores e consultores; e a Emparn disponibiliza palma forrageira e estrutura para o beneficiamento do algodão.

 

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