Passou-se quase um mês entre as primeiras denúncias
sobre irregularidades no Túnel Major Sales e a resposta oficial do governo
federal. Nesse intervalo, prefeitos, a governadora Fátima Bezerra e o
ex-secretário da Fazenda Cadu Xavier, hoje pré-candidato ao governo pelo PT,
mantiveram silêncio absoluto sobre as imagens que mostravam contêineres provisórios
e bombeamento de água interrompido pouco depois da inauguração.
Esse silêncio é, por si só, revelador. Se a
inauguração tivesse sido apresentada com transparência, como uma etapa de
testes de uma obra ainda em construção, não haveria motivo para constrangimento
algum. A omissão só se sustenta quando existe algo a esconder: a consciência de
que o evento foi montado para parecer mais do que realmente era.
A nota do Ministério da Integração, ao confirmar que
a obra só deve ser concluída em fevereiro de 2027, muito além do prazo inicial
de julho de 2025, apenas formaliza o que já era evidente pelas imagens: a
inauguração de Lula ocorreu antes da entrega real da obra. Isso significa que,
no melhor cenário, o mesmo túnel precisará ser inaugurado de novo, por outro
governo ou pelo próprio Lula, caso reeleito, uma repetição que seria, no
mínimo, embaraçosa.
Enquanto isso, a população do sertão potiguar
continua sem a certeza de quando a água efetivamente chegará de forma estável.
E os prefeitos que participaram da celebração, muitos deles enfrentando
dificuldades financeiras e atrasos em repasses do FPM por parte do próprio
governo estadual, aceitaram fazer parte da encenação sem qualquer garantia de
que os problemas reais de suas cidades seriam resolvidos.
O episódio ilustra um padrão perigoso na política
nacional: substituir entregas concretas por eventos de comunicação, jogando com
a esperança de populações vulneráveis. Naturalizar esse tipo de espetáculo, sem
cobrar explicações claras de quem participou dele, é abrir caminho para que a
prática se repita indefinidamente, sempre que houver urnas em disputa.

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