O presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou em
maio uma medida provisória que afrouxa as regras para a atuação profissional
como mototaxista e motofretista. Numa canetada, o petista eliminou a idade
mínima de 21 anos para o trabalho e o tempo mínimo de 2 anos de carteira
nacional de habilitação. Mas não só isso: o presidente achou por bem dispensar
os profissionais da realização de cursos e ainda acabou com a inspeção
semestral dos veículos.
É daquelas boas intenções das quais o inferno está
cheio: a justificativa é a de que a simplificação vai gerar trabalho e renda,
sobretudo entre as camadas mais vulneráveis, parecendo pouco importar se isso
pode custar a vida de brasileiros. Por isso, diante da escalada da violência no
trânsito, da qual os motociclistas são as principais vítimas, respondendo por
mais de 40% dos óbitos, a Medida Provisória (MP) 1.360 é mais do que uma
irresponsabilidade de Lula. É uma perversidade.
O petista sabe, ou deveria saber, que, se todas
essas exigências estavam definidas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e na
Lei n.º 12.009, de 2009, que regulamenta as atividades de mototaxistas e
motoboys, não era por mero capricho do legislador. Eram regras necessárias para
garantir a segurança tanto dos profissionais como também dos usuários e
passageiros que fazem uso desses serviços. Eram, na verdade, normas que
definiam patamares mínimos de civilidade e que, se respeitadas ou violadas,
podem definir os limites entre a vida e a morte.
Especialistas em trânsito ouvidos pela reportagem do
Estadão criticaram a MP de Lula. Para o CEO do Observatório Nacional de
Segurança Viária, Paulo Guimarães, faltaram debate público e embasamento
técnico, algo que se torna dispensável quando o único objetivo é angariar votos
numa eleição. Já o superintendente da Associação Nacional de Transportes
Públicos (ANTP), Luiz Carlos Néspoli, afirmou que um condutor de apenas 18 anos
de idade não tem maturidade para exercer essas atividades profissionais, o que
parece óbvio.
A violência do trânsito brasileiro assusta,
particularmente aquela protagonizada por motos. É bastante comum ver os
motociclistas desrespeitando os semáforos, as faixas de pedestres, as calçadas,
as ciclovias e as ciclofaixas. Por isso, manda a prudência que justamente as
regras para os motoqueiros sejam reforçadas, e não afrouxadas, como fez Lula.
Ademais, diz a Constituição que uma MP pode ser
editada quando a matéria é relevante e urgente. E, hoje, a única urgência e
relevância quando o assunto é trânsito deveria ser salvar vidas, não torná-las
ainda mais vulneráveis. Por isso, o Congresso, que tem 120 dias para analisar a
proposta, tem o dever de enterrar todas essas mudanças.
Lula editou uma MP que pode tornar o cenário urbano
brasileiro ainda mais caótico e letal. É o que lhe resta: sem um discurso
político para os trabalhadores de plataformas digitais, Lula apelou mais uma
vez para a demagogia, assim como havia feito ao lançar recentemente uma linha
de crédito para estimular a compra de motos por entregadores de aplicativos.
Como se vê, a única matéria relevante e urgente para o petista é a sua
reeleição.
Opinião do Estadão

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