Para além de avançar entre grupos tradicionalmente
mais resistentes ao PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará
também convencer uma fatia dos eleitores que o apoiaram em 2022, mas que agora
estão em dúvida se devem repetir o voto no "13" em outubro deste ano.
Uma pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Plaza Publica entre maio e junho
com eleitores nesse grupo revela que a percepção de que houve uma perda de
fôlego no discurso do petista e a repercussão de crises recentes ligadas ao
governo, como o escândalo do INSS e a chamada "taxa das blusinhas" —
cobrança de 20% para produtos importados de até US$ 50 depois revogada —, ainda
pesam na avaliação da gestão federal entre quem não definiu o voto, mas apoiou
o presidente há quatro anos.
Responsável pelo levantamento, conduzido a partir de
20 entrevistas em profundidade com moradores de oito capitais brasileiras,
entre elas São Paulo e Rio, o pesquisador Eduardo Sincofsky explica que o
segmento é majoritariamente formado por integrantes das classes média baixa e
alta. Os integrantes da primeira faixa de renda representam eleitores que estão
um pouco acima dos que recebem benefícios sociais e, muitas vezes, têm o sonho
de empreender. Já o segundo grupo é formado por eleitores que votaram em Lula
em 2022 por rejeitar Jair Bolsonaro, mas que agora esperam do presidente um discurso
diferente do adotado na última campanha, mais voltado para temas como inovação
e crescimento econômico.
Os resultados da pesquisa não são generalizáveis
para toda essa população, por se tratar de uma análise qualitativa, mas
oferecem pistas sobre como esses eleitores pensam.
Dados da pesquisa Genial/Quaest divulgados nesta
quarta-feira mostram que, entre eleitores com renda familiar de dois a cinco
salários mínimos, o índice de desaprovação do governo (50%) ainda supera o de
aprovação (45%), apesar de, em números gerais, o quadro estar invertido pela
primeira vez desde dezembro de 2024. Também nesse grupo, 38% declaram voto em
Lula no primeiro turno e 29% dizem que apoiarão o senador Flávio Bolsonaro
(PL). Outros candidatos, como os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu
Zema (Novo), além do ex-deputado federal Cabo Daciolo (Mobiliza), têm 4%, 3% e
3%, respectivamente.
Por trás da divisão do segmento, o relatório do
Plaza Publica aponta que, para esses eleitores, as "fórmulas" usadas
pelo petista no passado não reverberam da mesma forma no presente e muito menos
no futuro imaginado. No segmento, essa percepção é acentuada pela impressão de
que, ao longo deste mandato, as melhorias foram obtidas em "gotejos"
e que as mudanças estão em "banho-maria".
"Os ganhos do Lula estão no passado",
comentou um dos entrevistados ouvidos pelo levantamento. "Hoje o
presidente não consegue mais avançar em políticas públicas", pontuou
outro.
— Entre as demandas desses eleitores em 2022, estava
a necessidade de colocar em ordem as coisas básicas e deixar para trás o legado
deixado pelo bolsonarismo. Havia um desejo de melhoria, que hoje continua
existindo, mas está estancado e em baixa intensidade. As pessoas não estão mais
vibrando com a perspectiva de melhora — explica Eduardo Sincofsky. — Os
programas sociais são vistos como iniciativas bem executadas, mas o que há além
disso?
A sensação se materializa na discussão de temas como
a economia, segundo levantamento, em que prevalecem opiniões de que o salário
mínimo teve poucos ganhos reais, ao ser comparado com a inflação, somado ao
entendimento de poucos ganhos substanciais no poder de compra, afetado por uma
"sanfona de preços", que ora diminui, ora sobe novamente.
"É difícil falar ‘vou guardar esse dinheiro
para o futuro’. Se a gente só trabalha e paga conta, em que momento a gente se
diverte?", acrescentou um eleitor ouvido pelo Plaza Publica.
Impactos causados pelas crises
O diagnóstico feito pela Plaza Publica mostra que,
para esse grupo de eleitores, também reverbera a imagem do governo como um
agente interessado no aumento da carga tributária, mesmo após a revogação da
taxa das blusinhas. A cobrança foi suspensa pelo Planalto em maio como uma
alternativa para recuperação da popularidade do petista diante da
competitividade da campanha de Flávio Bolsonaro. Mesmo depois da medida ser
revogada, o segmento dos indecisos ainda questiona, no entanto, a demora para
suspensão e como a interrupção da arrecadação gerada pela taxa será compensada.
— A questão de retirar a taxa é um ponto em que já
havia uma tensão embutida, porque muitas pessoas reclamavam e associavam essa
cobrança não apenas às blusinhas, mas a uma série de outros produtos que foram
taxados. Agora, quando o governo passa a mexer em algo que era visto como um
problema, a percepção é a seguinte: "Pô, tirou só no fim do segundo
tempo". Ou seja, a medida chega tarde, pode ser interpretada como
eleitoreira — afirma Sincofsky.
A pesquisa também indica que a gestão Lula teve a
imagem afetada pelos desdobramentos dos descontos fraudulentos no INSS, que
passaram a ser investigados pela Polícia Federal (PF) no ano passado. O caso,
com o passar do tempo e com o avanço das investigações, se tornou um
"problema do governo", avalia Sincofsky. "Por que o governo não
apoiou a CPI do INSS?", questionou um entrevistado ouvido pelo Plaza
Publica.
Em paralelo, a reputação do governo também teria
sido impactada pela crise dos Correios, que resultou na declaração de um
prejuízo de R$ 3,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, segundo demonstrações
financeiras aprovadas pelo Conselho de Administração da empresa. Aos olhos
desse grupo de eleitores, questões como a falta de transparência e de clareza
na gestão da crise ainda pesam contra a gestão petista. "Como pode ser que
falte dinheiro e o governo patrocina o Lollapalooza ou o Gilberto Gil?",
questionou um dos entrevistados ouvidos pelo instituto.
O Globo

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