Felipe Salustino
Repórter
Enquanto a produção industrial potiguar registrou
recuo de 15,5% de janeiro a maio de 2026, o mais intenso do país, puxado pela
cadeia de petróleo e indústrias extrativas, a confecção de artigos do vestuário
e acessórios seguiu na contramão e apresentou avanço expressivo. Com 44% de
crescimento, o setor de confecções foi o único na indústria do RN com alta
acumulada nos cinco primeiros meses do ano. A atividade também teve aumento de
53,8% em maio de 2026, no comparativo com igual período do ano anterior e,
considerando o acumulado de 12 meses, o crescimento foi ainda maior, de 54,5%,
segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal – Pessoa Física (PIM-PF), do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta demanda do mercado
é o fator principal de expansão do setor.
De acordo com a Federação das Indústrias do RN (Fiern), a cadeia de confecções
é o maior empregador da indústria de transformação do estado, com 20.915
trabalhadores formais (32,9% do total), com PIB pouco maior de R$ 1 bilhão/ano
(4,2% do total) e massa salarial de R$ 706 milhões injetados na economia.
Marinho Herculano, presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário do Rio
Grande do Norte (Sindvest-RN), estima que as confecções potiguares reúnem cerca
de 1,5 mil a 2 mil empresas e oficinas, distribuídas principalmente pelos polos
do Seridó, Grande Natal e Agreste.
“Os principais polos produtivos estão concentrados em Caicó, Jardim de
Piranhas, São José do Seridó, Serra Negra do Norte, Natal, Parnamirim, Macaíba,
Currais Novos, Acari e Santa Cruz. Grande parte dessas unidades produtivas é
composta por micro e pequenas empresas, além de oficinas de costura e facções
que atendem marcas locais e nacionais”, afirma Marinho Herculano.
O secretário de Desenvolvimento Econômico do RN, Lahyre Rosado Neto, aponta que
42 empresas do setor são beneficiadas pelo Programa de Estímulo ao
Desenvolvimento Industrial do Estado (Proedi), as quais somam 13,3 mil empregos
diretos e cerca de 3,5 mil indiretos.
Segundo a presidente do Sindicato dos Oficiais Alfaiates, Costureiras e
Trabalhadores nas Indústrias de Confecções de Roupas do Estado
(Sindconfecções-RN), Maria dos Navegantes dos Santos, existem mais de 100
pequenas fábricas espalhadas pelo RN.
“O desempenho é resultado de um conjunto de fatores que vêm fortalecendo a
competitividade do segmento nos últimos anos”, avalia Marinho Herculano, do
Sindvest-RN. Segundo ele, destacam-se a retomada da demanda do mercado
nacional, os investimentos realizados pelas empresas em modernização e
qualificação da mão de obra, além da capacidade de adaptação do setor às novas
exigências dos consumidores.
O secretário Lahyre Rosado destaca o Proedi como política de incentivo
responsável pela expansão do setor e lembra que o grupo Guararapes, o maior do
estado no segmento, encerrou as atividades no Ceará em 2023 para concentrar os
investimentos no RN. O secretário destaca ainda o investimento de R$ 1 milhão
já aplicado no programa Costura Mais RN, para levar qualificação ao interior do
estado.
O montante total previsto para o projeto, lançado no ano passado, é de R$ 10
milhões em crédito, para capacitar 1,8 mil pessoas em 37 municípios. “O RN tem
programas de incentivos e de qualificação que beneficiam bastante o setor.
Então, a expansão observada está relacionada a esses fatores”, analisa o
secretário.
“O que a gente acompanha é que nossa atividade está crescendo, com geração de
emprego e alta demanda junto às fábricas”, fala Maria dos Navegantes,
presidente do Sindconfecções-RN.
Empresas aumentam produção
O crescimento do setor de confecção de vestuário no
RN está ligado, dentre outros fatores, à alta demanda do mercado pelos
produtos, considerados de “excelente qualidade”, conforme apontou o economista
Fernando Amaral à TRIBUNA DO NORTE. “Temos as facções têxteis e o setor de
boné, este último, muito competitivo. Tudo isso atrai demanda para o estado”,
diz.
O especialista explica que este é um dos aspectos que colocaram a confecção de
vestuários na contramão de setores como o petróleo, que recuou 27,8% no
acumulado de janeiro a maio de 2026.
“Obviamente que fatores da própria cadeia de petróleo também nos ajudam a
entender essa diferença, porque o coque, usado na indústria intensiva como
combustível, está recebendo menos demanda por causa da desaceleração da
indústria em geral”, analisa Fernando Amaral.
Verônica Melo, gerente da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae-RN,
avalia que os pequenos negócios têm um papel fundamental no desempenho das
confecções, pois representam grande parte da indústria do setor no estado.
“Das cerca de 4,8 mil empresas da área registradas no RN, aproximadamente 4,7
mil são microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) ou empresas
de pequeno porte (EPPs), segundo dados recentes da Receita Federal. A expansão
da produção reflete a capacidade dessas empresas de atender à demanda com
agilidade, flexibilidade e diversificação de produtos”, diz Verônica Melo.
Para além dos dados, o próprio mercado atesta o bom momento. A Del Rayssa, marca
de lingerie fundada em 1995, acabou de inaugurar a 13ª loja, em Cerro-Corá. A
CEO Fátima Menezes conta que a empresa, com fábrica em Jucurutu, cidade do
Seridó potiguar onde o negócio surgiu, tem capacidade para produzir até 180 mil
peças por mês, número que será ampliado em breve.
“Temos 153 colaboradores diretos e outros 100 que nos fornecem confecções, mas
sem vínculo empregatício. Estamos presentes também na Paraíba, com duas lojas”,
conta Fátima.
A meta é ampliar a produção para 200 mil peças ao mês, com a ampliação de um
dos galpões da fábrica. “Estamos contratando 10 novos funcionários para dar
conta da nossa demanda, que está alta porque, com o nível de desemprego em
baixa, mais pessoas estão com dinheiro no bolso e querem consumir nossos produtos”,
afirma Fátima Menezes.
Na Matersol, marca que está no mercado desde 1987, a produção cresceu 34% desde
2024. Com fábrica na zona Norte de Natal, a empresa produz moda praia e
prainha, atua com varejo, private label (marca própria), exportação e distribuição
em todo o país.
“Temos três lojas físicas, 51 funcionários, estamos
no digital e temos um ônibus-loja em circulação”, detalha Déborah Sayonara,
diretora-executiva da empresa. “Acredito que a expansão da nossa marca e do
setor, de um modo geral, tem a ver com a competitividade com o mercado online”,
acrescenta.
Para Déborah, a competição com o digital tem levado à queima de preços e
atraído clientes. De olho nas mudanças, a Matersol tem buscado se adaptar.
“Potencializamos bastante o digital, com participação em marketplaces e no
WhatsApp, que é bastante forte. Com isso, passamos a investir em inteligência
artificial e em CRM (software para gestão de clientes), onde 11 vendedoras
atendem”, fala a diretora.
Na Arteira, que fabrica peças personalizadas como camisetas e uniformes, o
crescimento dos últimos dois anos levou à aplicação de investimentos para
ampliar a capacidade de produção de 1,8 mil peças para 3 mil peças por mês.
“Somos oito pessoas trabalhando, entre costureiras, pessoal do corte,
acabamento e atendimento. Vendemos para todo o Brasil, graças ao mercado
online”, cita Julia von Bahr, diretora da Arteira Personalizados, fábrica
localizada na Cidade Alta, no Centro de Natal.
“Acho que o crescimento vem do desejo das pessoas em ter um produto
diferenciado, com a marca do próprio cliente nas peças dele. Ainda temos
desafios como a escassez de mão de obra e uma matéria-prima que nos permita
agregar preço acessível à boa qualidade”, afirma.
Para Marinho Herculano, do Sindvest-RN, entre os desafios destacam-se a
necessidade permanente de ampliar a produtividade, incorporar novas tecnologias
e fortalecer a inovação.
“Além disso, há preocupações relacionadas às discussões sobre mudanças na
legislação trabalhista, especialmente no que se refere ao modelo de jornada
6x1, bem como aos impactos das novas regras de tributação sobre produtos
importados, popularmente conhecidas como ‘taxa das blusinhas’”, fala Marinho
Herculano.
Diversificação industrial
Para
o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, o desempenho das confecções aponta para
uma diversificação da indústria potiguar, que conta ainda com forte potencial
para as energias renováveis. “O RN reúne um portfólio de setores estratégicos transversais
que, somados, credenciam o RN a ocupar posição de destaque nos cenários
nacional e internacional. A Fiern entende e tem estimulado o crescimento da
indústria de transformação pelo seu potencial no setor de laticínios, de
reciclagem, mineração a indústria de plásticos e a bonelaria”, afirma Serquiz.
“O estado também avança para fronteiras de alto valor agregado como energias
renováveis (hidrogênio verde, amônia verde e eólica offshore), petróleo e gás,
mineração estratégica (ouro, lítio, terras raras e minério de ferro) e economia
do mar, com destaque para a energia offshore e o turismo costeiro premium”,
completa o presidente da Fiern.

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