domingo, 19 de julho de 2026

Com impulso dos pequenos negócios e alta demanda, confecções do RN crescem 54% em 12 meses

 


Felipe Salustino
Repórter

Enquanto a produção industrial potiguar registrou recuo de 15,5% de janeiro a maio de 2026, o mais intenso do país, puxado pela cadeia de petróleo e indústrias extrativas, a confecção de artigos do vestuário e acessórios seguiu na contramão e apresentou avanço expressivo. Com 44% de crescimento, o setor de confecções foi o único na indústria do RN com alta acumulada nos cinco primeiros meses do ano. A atividade também teve aumento de 53,8% em maio de 2026, no comparativo com igual período do ano anterior e, considerando o acumulado de 12 meses, o crescimento foi ainda maior, de 54,5%, segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal – Pessoa Física (PIM-PF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta demanda do mercado é o fator principal de expansão do setor.

De acordo com a Federação das Indústrias do RN (Fiern), a cadeia de confecções é o maior empregador da indústria de transformação do estado, com 20.915 trabalhadores formais (32,9% do total), com PIB pouco maior de R$ 1 bilhão/ano (4,2% do total) e massa salarial de R$ 706 milhões injetados na economia.

Marinho Herculano, presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário do Rio Grande do Norte (Sindvest-RN), estima que as confecções potiguares reúnem cerca de 1,5 mil a 2 mil empresas e oficinas, distribuídas principalmente pelos polos do Seridó, Grande Natal e Agreste.

“Os principais polos produtivos estão concentrados em Caicó, Jardim de Piranhas, São José do Seridó, Serra Negra do Norte, Natal, Parnamirim, Macaíba, Currais Novos, Acari e Santa Cruz. Grande parte dessas unidades produtivas é composta por micro e pequenas empresas, além de oficinas de costura e facções que atendem marcas locais e nacionais”, afirma Marinho Herculano.

O secretário de Desenvolvimento Econômico do RN, Lahyre Rosado Neto, aponta que 42 empresas do setor são beneficiadas pelo Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do Estado (Proedi), as quais somam 13,3 mil empregos diretos e cerca de 3,5 mil indiretos.

Segundo a presidente do Sindicato dos Oficiais Alfaiates, Costureiras e Trabalhadores nas Indústrias de Confecções de Roupas do Estado (Sindconfecções-RN), Maria dos Navegantes dos Santos, existem mais de 100 pequenas fábricas espalhadas pelo RN.


“O desempenho é resultado de um conjunto de fatores que vêm fortalecendo a competitividade do segmento nos últimos anos”, avalia Marinho Herculano, do Sindvest-RN. Segundo ele, destacam-se a retomada da demanda do mercado nacional, os investimentos realizados pelas empresas em modernização e qualificação da mão de obra, além da capacidade de adaptação do setor às novas exigências dos consumidores.

O secretário Lahyre Rosado destaca o Proedi como política de incentivo responsável pela expansão do setor e lembra que o grupo Guararapes, o maior do estado no segmento, encerrou as atividades no Ceará em 2023 para concentrar os investimentos no RN. O secretário destaca ainda o investimento de R$ 1 milhão já aplicado no programa Costura Mais RN, para levar qualificação ao interior do estado.

O montante total previsto para o projeto, lançado no ano passado, é de R$ 10 milhões em crédito, para capacitar 1,8 mil pessoas em 37 municípios. “O RN tem programas de incentivos e de qualificação que beneficiam bastante o setor. Então, a expansão observada está relacionada a esses fatores”, analisa o secretário.

“O que a gente acompanha é que nossa atividade está crescendo, com geração de emprego e alta demanda junto às fábricas”, fala Maria dos Navegantes, presidente do Sindconfecções-RN.

Empresas aumentam produção

O crescimento do setor de confecção de vestuário no RN está ligado, dentre outros fatores, à alta demanda do mercado pelos produtos, considerados de “excelente qualidade”, conforme apontou o economista Fernando Amaral à TRIBUNA DO NORTE. “Temos as facções têxteis e o setor de boné, este último, muito competitivo. Tudo isso atrai demanda para o estado”, diz.

O especialista explica que este é um dos aspectos que colocaram a confecção de vestuários na contramão de setores como o petróleo, que recuou 27,8% no acumulado de janeiro a maio de 2026.

“Obviamente que fatores da própria cadeia de petróleo também nos ajudam a entender essa diferença, porque o coque, usado na indústria intensiva como combustível, está recebendo menos demanda por causa da desaceleração da indústria em geral”, analisa Fernando Amaral.

Verônica Melo, gerente da Unidade de Desenvolvimento Setorial do Sebrae-RN, avalia que os pequenos negócios têm um papel fundamental no desempenho das confecções, pois representam grande parte da indústria do setor no estado.

“Das cerca de 4,8 mil empresas da área registradas no RN, aproximadamente 4,7 mil são microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) ou empresas de pequeno porte (EPPs), segundo dados recentes da Receita Federal. A expansão da produção reflete a capacidade dessas empresas de atender à demanda com agilidade, flexibilidade e diversificação de produtos”, diz Verônica Melo.

Para além dos dados, o próprio mercado atesta o bom momento. A Del Rayssa, marca de lingerie fundada em 1995, acabou de inaugurar a 13ª loja, em Cerro-Corá. A CEO Fátima Menezes conta que a empresa, com fábrica em Jucurutu, cidade do Seridó potiguar onde o negócio surgiu, tem capacidade para produzir até 180 mil peças por mês, número que será ampliado em breve.

“Temos 153 colaboradores diretos e outros 100 que nos fornecem confecções, mas sem vínculo empregatício. Estamos presentes também na Paraíba, com duas lojas”, conta Fátima.

A meta é ampliar a produção para 200 mil peças ao mês, com a ampliação de um dos galpões da fábrica. “Estamos contratando 10 novos funcionários para dar conta da nossa demanda, que está alta porque, com o nível de desemprego em baixa, mais pessoas estão com dinheiro no bolso e querem consumir nossos produtos”, afirma Fátima Menezes.

Na Matersol, marca que está no mercado desde 1987, a produção cresceu 34% desde 2024. Com fábrica na zona Norte de Natal, a empresa produz moda praia e prainha, atua com varejo, private label (marca própria), exportação e distribuição em todo o país.

“Temos três lojas físicas, 51 funcionários, estamos no digital e temos um ônibus-loja em circulação”, detalha Déborah Sayonara, diretora-executiva da empresa. “Acredito que a expansão da nossa marca e do setor, de um modo geral, tem a ver com a competitividade com o mercado online”, acrescenta.

Para Déborah, a competição com o digital tem levado à queima de preços e atraído clientes. De olho nas mudanças, a Matersol tem buscado se adaptar. “Potencializamos bastante o digital, com participação em marketplaces e no WhatsApp, que é bastante forte. Com isso, passamos a investir em inteligência artificial e em CRM (software para gestão de clientes), onde 11 vendedoras atendem”, fala a diretora.

Na Arteira, que fabrica peças personalizadas como camisetas e uniformes, o crescimento dos últimos dois anos levou à aplicação de investimentos para ampliar a capacidade de produção de 1,8 mil peças para 3 mil peças por mês. “Somos oito pessoas trabalhando, entre costureiras, pessoal do corte, acabamento e atendimento. Vendemos para todo o Brasil, graças ao mercado online”, cita Julia von Bahr, diretora da Arteira Personalizados, fábrica localizada na Cidade Alta, no Centro de Natal.

“Acho que o crescimento vem do desejo das pessoas em ter um produto diferenciado, com a marca do próprio cliente nas peças dele. Ainda temos desafios como a escassez de mão de obra e uma matéria-prima que nos permita agregar preço acessível à boa qualidade”, afirma.

Para Marinho Herculano, do Sindvest-RN, entre os desafios destacam-se a necessidade permanente de ampliar a produtividade, incorporar novas tecnologias e fortalecer a inovação.

“Além disso, há preocupações relacionadas às discussões sobre mudanças na legislação trabalhista, especialmente no que se refere ao modelo de jornada 6x1, bem como aos impactos das novas regras de tributação sobre produtos importados, popularmente conhecidas como ‘taxa das blusinhas’”, fala Marinho Herculano.

Diversificação industrial

Para o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, o desempenho das confecções aponta para uma diversificação da indústria potiguar, que conta ainda com forte potencial para as energias renováveis. “O RN reúne um portfólio de setores estratégicos transversais que, somados, credenciam o RN a ocupar posição de destaque nos cenários nacional e internacional. A Fiern entende e tem estimulado o crescimento da indústria de transformação pelo seu potencial no setor de laticínios, de reciclagem, mineração a indústria de plásticos e a bonelaria”, afirma Serquiz.

“O estado também avança para fronteiras de alto valor agregado como energias renováveis (hidrogênio verde, amônia verde e eólica offshore), petróleo e gás, mineração estratégica (ouro, lítio, terras raras e minério de ferro) e economia do mar, com destaque para a energia offshore e o turismo costeiro premium”, completa o presidente da Fiern.

 

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