A queda de 1,5% no comércio varejista brasileiro em
abril ante março foi o pior resultado para esse período do ano desde 2020,
quando as vendas encolheram 16,0% em meio ao choque da pandemia de covid-19.
Os dados são da Pesquisa Mensal do Comércio
divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístico).
A perda sucede três meses de avanços consecutivos,
que levaram o varejo a operar em patamar recorde em março deste ano.
Segundo Cristiano Santos, gerente da pesquisa do
IBGE, o recuo de abril tem mais do que um efeito de base de comparação elevada
“O início do ano foi mais puxado por atividades que
vendem bens que não são essenciais. Tem uma diferença de comportamento em
relação ao consumo nesse mês de abril, que é a volta às atividades essenciais,
como supermercados”, apontou o pesquisador.
Na passagem de março para abril, seis das oito
atividades varejistas registraram perdas:
- Combustíveis
e lubrificantes (-6,2%);
- Outros
artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%);
- Equipamentos
e material para escritório, informática e comunicação (-4,5%);
- Móveis
e eletrodomésticos (-0,8%);
- Tecidos,
vestuário e calçados (-0,1%); e Artigos farmacêuticos, médicos,
ortopédicos e de perfumaria (-0,1%)
Houve expansão em Hiper, supermercados, produtos alimentícios,
bebidas e fumo (1,3%) e Livros, jornais, revistas e papelarias (1,1%).
No comércio varejista ampliado – que inclui
veículos, material de construção e atacado alimentício -, as vendas caíram
0,7%. Veículos e motos, partes e peças registrou queda de 0,7%, e Material de
construção encolheu 3,6%.
“Tem efeito base. É mais difícil continuar crescendo
quando você já está no topo da série. Mas além disso tem outros sinais que são
de certa maneira contraditórios, mas acabam puxando um pouco para baixo”, mencionou.
“Não há crescimento nem no crédito, nem no
rendimento, nem no número de pessoas ocupadas
Santos confirmou ainda que a guerra dos Estados
Unidos e Israel no Irã afeta o varejo brasileiro via preços dos
combustíveis, que são usados para deflacionar a receita obtida por esse
segmento varejista.
“Os preços subiram bastante em março, continuaram
subindo e, abril, só que com menos intensidade”, lembrou.
“Essa influência dos preços lá fora não é direta e
síncrona com movimento de preços no Brasil. E além de preços ainda tem a
receita obtida”, ponderou.
O volume de vendas do varejo chegou a abril em
patamar 10,9% acima do nível de fevereiro de 2020, no pré-pandemia. No
varejo ampliado, as vendas operam 7,1% acima do pré-pandemia.
. Além disso tem o componente da inflação. (…)
Quando você tem um rendimento menor fica mais difícil consumir mais. Além
disso, o crédito à pessoa física também parou de crescer.”
Os segmentos de artigos farmacêuticos,
supermercados, veículos, combustíveis e material de construção estão
operando acima do patamar pré-crise sanitária. Por outro lado, equipamentos
para informática e comunicação, outros artigos de uso pessoal e doméstico,
móveis e eletrodomésticos, vestuário e calçados e livros e papelaria operam
abaixo do nível pré-covid.
“Algumas atividades ainda estão bastante distantes
lá de fevereiro de 2020. Dá para começar a imaginar que a estrutura de consumo
mudou, o padrão de consumo mudou a ponto de essas atividades não conseguirem
realizar essa receita como realizavam anteriormente.”
“Isso é muito claro em vestuário e calçados, e menos
em outras atividades. Esse resultado tem a ver mais com uma mudança no padrão
de consumo e que faz com que as pessoas optem por consumir outros tipos de
produtos do que consumiam antes da pandemia”, afirmou Santos.
Questionado se o setor de vestuário estaria sofrendo
com uma substituição por produtos importados via grandes plataformas, Santos
consentiu. “Pode ser que seja, não tenho esse dado”, declarou.
Quanto ao novo patamar recorde de venda dos
supermercados, alcançado em abril, Santos acredita que a atividade esteja sendo
sustentada por famílias de renda mais restrita.
“Alimentos e bebidas voltam a ser foco das famílias
que têm consumo restrito por outros condicionantes, como crédito e aumento do
rendimento. Se tem menos pessoas ocupadas, elas vão optar pelo quê? Por itens
mais essenciais, remédios e alimentos”, disse ele.
CNN Brasil

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