O Ministério da Justiça enviou nesta semana ofícios
a mais de 50 órgãos públicos determinando o retorno de policiais federais
cedidos para auxiliar magistrados. A medida, assinada pelo secretário-executivo
Ademar Borges na noite de quarta-feira (17), tem como justificativa oficial reforçar
o combate ao crime organizado.
Nos bastidores, porém, a decisão é interpretada como
uma resposta direta ao episódio que humilhou o governo na semana anterior: a
operação que mirou o senador Jaques Wagner sem que nem o presidente Lula nem o
diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, soubessem.
Na quinta-feira (18), enquanto Lula discursava no
G7, na França, com Andrei Rodrigues ao lado, agentes da Polícia Federal
cumpriam mandados de busca e apreensão contra o líder do governo no Senado.
A 9ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada
pelo ministro do STF André Mendonça no âmbito das investigações sobre o Banco
Master, foi deflagrada sem qualquer aviso prévio à cúpula da corporação.
Mendonça havia determinado, desde fevereiro, que os desdobramentos do inquérito
não fossem comunicados ao diretor-geral da PF, exatamente para blindar a
operação de vazamentos que pudessem chegar ao Planalto.
O resultado foi devastador para o governo. Lula e
Andrei souberam pela imprensa que a PF havia encontrado US$ 55 mil, 33 mil
euros e relógios Rolex em um endereço ligado a Jaques Wagner.
O procedimento contrariou um padrão que o governo
considerava estabelecido: em casos anteriores envolvendo aliados, como a
operação sobre fraudes no INSS que levou à prisão do então presidente do órgão,
Andrei foi pessoalmente ao Palácio da Alvorada comunicar Lula antes da
deflagração. Desta vez, a compartimentação foi total e deliberada.
É nesse contexto que a ordem de devolução dos
delegados cedidos ao Judiciário ganhou um sentido que vai além da retórica
oficial. O alvo mais provável, segundo fontes da PF, é o delegado Thiago
Marcantonio, que assessora diretamente André Mendonça nos inquéritos do Master
e do INSS e tem passagem pela Lava Jato.
A avaliação nos bastidores é que o governo precisou
montar uma medida de aparência ampla justamente para não expor de forma
explícita que o verdadeiro objetivo é enfraquecer a estrutura do gabinete do
ministro que ousou investigar um aliado de quatro décadas do presidente sem
avisar ninguém.

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