Após a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da
República (PGR) rejeitarem a sua segunda proposta de delação e o Supremo
Tribunal Federal (STF) decidir manter o seu pai preso na cadeia, o banqueiro
Daniel Vorcaro deve ter mais uma má notícia da Suprema Corte.
Em agosto, o decano do Supremo, ministro Gilmar
Mendes, deixa o comando da Segunda Turma, colegiado responsável pela análise
das decisões do relator das investigações do caso Master, André Mendonça. Pelo
critério de rodízio previsto no regimento interno da Corte, a turma passará a
ser presidida pelo ministro Luiz Fux, a quem caberá definir a pauta de
julgamento das sessões presenciais pelo período de um ano.
Fux sempre acompanha os entendimentos de Mendonça no
caso Master e se converteu numa espécie de “aliado incondicional” do relator no
conturbado ambiente da Segunda Turma. Já Gilmar se tornou o principal foco de
oposição de Mendonça no colegiado, abrindo divergências e votando para derrubar
prisões, não se cansando de associar a investigação aos excessos da Operação
Lava-Jato, que ele próprio ajudou a enterrar no STF.
Na prática, a passagem de bastão de Gilmar para Fux
pode trazer implicações para o caso Master já que cabe ao presidente da Turma a
elaboração das pautas das sessões presenciais. Por um lado, isso dá a Mendonça
um aliado no controle da pauta de julgamentos, reduzindo o risco de surpresas
que podem tumultuar as investigações.
Por outro, retira de Gilmar o poder de manobra de
controlar a pauta de julgamentos, como ele fez na última terça-feira, quando
surpreendeu Mendonça ao decidir de última hora inserir na sessão a análise das
prisões preventivas de Henrique e Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo
do banqueiro.
“É precisamente a dimensão do caso que recomenda
redobrada cautela. É nos casos de maior repercussão, aqueles em que a pressão
por resultado se faz mais intensa e o clamor público mais agudo, que a proteção
de garantias se faz mais necessária”, disse Gilmar Mendes, ao votar contra as
prisões preventivas. “Juiz algum pode comportar-se como delegado de polícia.
Nós sabemos muito bem onde esse caminho termina.”
Na ocasião, Gilmar afirmou que encontra na
investigação do clã Vorcaro “desconfortante semelhança” e “tristes
reminiscências dos métodos e expedientes” da Lava-Jato, mas foi prontamente
rebatido por Mendonça.
“Não estamos aqui a julgar a Lava-Jato. Estamos aqui
a julgar a maior fraude financeira da história do nosso país e, talvez, uma das
maiores do mundo. E essa fraude tem algumas peculiaridades. Não é simplesmente
um crime de colarinho branco; é mais do que isso. Não são simplesmente atores
nos gabinetes, nos escritórios da Faria Lima ou nos palácios que provocaram a
dilapidação do FGC [Fundo Garantidor de Crédito], das poupanças do nosso país.
Aqui há contornos de máfia, contornos de crime organizado mafioso: fuzis,
metralhadoras, armas raspadas, infiltração no sistema policial”, devolveu o
relator.
Correlação de forças
A troca no comando da Segunda Turma não altera a
composição do colegiado, que segue sendo formado por Mendonça, Fux, Gilmar,
Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli.
Toffoli não tem votado em julgamentos do caso Master
desde que deixou a relatoria das investigações em fevereiro deste ano, após o
diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregar pessoalmente ao
presidente do tribunal, Edson Fachin, um documento de 200 páginas listando
indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli que poderiam levar à sua
suspeição.
Mesmo longe do caso Master, Toffoli ainda pode
ajudar Vorcaro indiretamente, já que o seu afastamento deixa apenas quatro
ministros aptos a votar na Segunda Turma, abrindo margem para empates, que
sempre favorecem os investigados.
Nas contas de interlocutores de Mendonça, o fiel da
balança da Turma será o ministro Nunes Marques, que, até aqui, tem acompanhado
o relator, como no julgamento de Henrique e Felipe Vorcaro.
Se a saída do Fux é um revés para Vorcaro, pelo
menos uma boa notícia o aguarda: Mendonça deve mantê-lo na sala especial da
superintendência da PF, apesar da pressão da corporação de retirá-lo de lá.
Malu Gaspar - O Globo

Nenhum comentário:
Postar um comentário