domingo, 14 de junho de 2026

Marrocos se tornou 1ª seleção em Copas do Mundo com 11 jogadores em campo nascidos fora do país

 



O Marrocos estabeleceu uma marca inédita no empate em 1 a 1 com o Brasil, no sábado. A seleção africana se tornou a primeira equipe a ter 11 "estrangeiros" em campo, jogadores nascidos fora do país. Depois da substituição do meia Ounahi no segundo tempo, o Marrocos contou com atletas nascidos em cinco países diferentes, embora todos tenham ascendência marroquina.

Dos 11 titulares do Marrocos contra o Brasil, apenas Ounahi nasceu no país, em Casablanca. Ele deu lugar a El Mourabet, francês de nascimento, no mesmo minuto em que Brahim Díaz (espanhol de nascimento) foi substituído por Talbi (belga de nascimento).

Dezenove dos 26 convocados do Marrocos nasceram em outros países, mas têm ascendência marroquina e por isso foram atraídos para defender a seleção africana. A Real Federação Marroquina de Futebol (FRMF) mantém uma rede de captação de jogadores, e é por isso que a seleção chegou tão forte nesta Copa do Mundo.

O monitoramento de quem joga na Europa foi implantado há cerca de 15 anos, sendo um dos braços de um projeto do Rei Mohammed VI, um entusiasta do futebol. Em 2009, após fracassos seguidos da seleção, ele idealizou um centro de formação para criar uma nova geração vencedora. O que tem acelerado o processo é justamente a captação de jogadores de ascendência marroquina que nasceram e se desenvolveram em outros países.

Desde então os resultados são espantosos, com muito sucesso nas categorias de base, títulos continentais e mais vitórias em uma única Copa do Mundo (três, no Catar-2022, quando terminou no quarto lugar) do que o país havia conquistado em toda a história dos Mundiais, em cinco participações.

Neste Mundial, Marrocos é a terceira seleção com mais jogadores nascidos em outros países. Dos 19, três estrearam pela seleção neste ano: Issa Diop, neto do primeiro senegalês a jogar o Campeonato Francês; Salah-Eddine, que defendeu a seleção holandesa sub-21; e o mais famoso deles, Ayyoub Bouaddi, ex-capitão da seleção francesa sub-21.

Todos eles são frutos de um movimento social muito maior, a diáspora africana, um processo histórico de dispersão de milhões de famílias para outros continentes. Estima-se que até 5 milhões de pessoas com ascendência marroquina vivam fora do país, a maioria delas na França, na Espanha e na Bélgica – 15 dos convocados de Marrocos para esta Copa nasceram nestes países.

A captação de jogadores neste contexto foi comandada por Hervé Renard, técnico francês que depois esteve em duas Copas (na masculina com a Arábia Saudita e na feminina com a França). Foi por intermédio dele que Hakimi, Amrabat, Mazraoui e outros aceitaram defender Marrocos, entre 2016 e 18.

Neste contexto, a seleção marroquina se antecipa e chega às jovens promessas antes mesmo das seleções dos países em que elas nasceram. Marrocos não é um prêmio de consolação para quem não alcança as seleções europeias, pelo contrário, tem sido a escolha de protagonistas de seleções de base europeias, que preferem defender a bandeira de suas famílias (como Brahim Díaz e Bouaddi).

Segundo um levantamento da Universidade de Oxford, da Inglaterra, nos últimos dez anos a seleção marroquina teve 61 jogadores nascidos em outros países e praticamente metade deles (precisamente 28, ou 46%) optou por trocar de seleção. Seja por vontade própria, preferência esportiva ou até pressão familiar, esses jogadores estão preferindo Marrocos.

– Fiquei surpreso. Não acho que haja muitos centros de treinamento como este no mundo. São instalações de altíssimo nível. Temos um time muito bom, todo mundo se dá bem, e tudo está perfeito. Tomei minha decisão e sou muito orgulhoso disso. Foi um alívio ter escolhido assim, e estou muito feliz de representar meu país – disse Ayyoub Bouaddi no mês passado.

Como funciona a rede de formação

Mas captar não é tudo, e Marrocos também quer formar jogadores no próprio país. O Complexo Mohammed VI recebe adolescentes a partir dos 12 anos de idade, que podem permanecer até os 18. Eles têm à disposição dormitórios, refeitórios, dez salas de aula, academia, piscina e campos oficiais de grama comum e sintética.

Foram 16,8 milhões de dólares investidos em Salé, na periferia da cidade de Rabat. A estrutura é tão boa que também é usada pela seleção principal, que treinou lá antes de viajar para a Copa do Mundo.

As crianças que se destacam antes dos 12 anos são admitidas em quatro centros de treinamento menores, em outras cidades, Casablanca, Fez, Marrakech e Tânger. Esta rede forma jogadores de diversos níveis, e os melhores são naturalmente aproveitados pelas seleções de base do Marrocos.

Foi daí que saíram dois dos convocados para a Copa do Mundo: o zagueiro Aguerd (que acabou cortado por lesão) e o meio-campista Ounahi.

Vários estavam na campanha do título mundial sub-20 no ano passado, mas não entraram na lista porque, segundo o técnico Mohamed Ouahbi, "ainda estão se desenvolvendo".

 

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