André Mendonça pode até integrar uma ala minoritária
no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas ideias que defende e pelos votos que
profere. Mas, na terça-feira, 16, saiu da sessão da Segunda Turma consolidado
como líder da minoria na Corte, para pegar emprestado um termo do Congresso
Nacional.
Por três votos a um, o colegiado confirmou a decisão
do relator das investigações sobre o Banco Master de manter preso o pai e o
primo de Daniel Vorcaro. Com apenas quatro ministros votantes, Mendonça só
precisava de dois aliados para sair vencedor.
O relator contou com uma dose de sorte. No Supremo,
Mendonça tem dois apoiadores fiéis, que concordam com ele em matéria penal:
Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Coincidentemente, os dois integram a Segunda
Turma.
Depois que Dias Toffoli se declarou impedido para
julgar o caso Master, o caminho de Mendonça rumo à maioria ficou menos
tortuoso. Apenas Gilmar Mendes defendeu que os investigados fossem transferidos
para a prisão domiciliar. Nas sessões de turma, Gilmar costuma fazer uma
dobradinha com Toffoli. Dessa vez, ficou isolado.
Gilmar, porém, não facilitou para Mendonça. Fez
críticas quanto à condução das investigações e comparou os métodos aos da Lava
Jato. No fim, o relator falou mais alto. Alegou que não prendia ninguém para
forçar acordo de delação premiada e defendeu sua posição com a voz empostada de
pastor evangélico.
Aproveitou para falar do caso Master como nunca
tinha feito antes em público. Revelou que a defesa “perdeu o pudor” ao propor
uma delação seletiva. “Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘Não faço questão
de delação. Agora, delação seletiva? Comigo, não!’”
Gilmar representa um grupo do Supremo insatisfeito
com o rumo das investigações do Master. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli
fazem coro ao colega. Os dois tiveram ligações com Vorcaro expostas ao longo
das investigações.
Mas, como relator do escândalo do Master, Mendonça
pode abdicar da maioria numérica dos ministros do Supremo. Ter vitória
garantida na Segunda Turma é suficiente, porque é lá que as questões referentes
ao Banco Master serão julgadas.
Não satisfeito com a votação na turma, Mendonça
mirou a aprovação da opinião pública ao divulgar, pouco antes do julgamento,
novas provas da investigação que reforçavam a necessidade de manter o pai e o
primo de Vorcaro atrás das grades.
Ou seja: o ministro está disposto a incomodar
colegas do Supremo e a classe política em meio ao período eleitoral. A recusa à
delação de Vorcaro fez Brasília respirar aliviado por apenas um dia. O clima
tenso voltou a assombrar os Três Poderes a partir do julgamento de terça-feira.
Estadão

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