Em um dos momentos mais tensos da entrevista ao
programa GloboNews Mais, nesta quinta-feira (14), o senador e pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL) virou o jogo contra os próprios
entrevistadores ao revelar, ao vivo, que o Banco Master — de Daniel Vorcaro —
investiu R$ 160 milhões na TV Globo, especificamente no programa Domingão com
Huck, entre 2025 e 2026.
"É dinheiro sujo? Vocês sabiam da origem desse
dinheiro? Acho que não. Acho que vocês agiram de boa-fé, como eu também
agi", disparou o senador, direcionando aos jornalistas Octávio Guedes,
Malu Gaspar e Júlia Duailibi a mesma pergunta que lhe faziam.
A declaração escancara uma incômoda proximidade
entre a principal emissora do país e o conglomerado financeiro de Vorcaro, hoje
preso e acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes que pode alcançar
R$ 12 bilhões, segundo a Polícia Federal. O apresentador Luciano Huck foi o
principal rosto publicitário do Will Bank — braço digital do Banco Master —
tornando-se garoto-propaganda da instituição a partir de 2023. O contrato
previa ativações comerciais integradas ao Domingão, incluindo quadros especiais
com clientes do banco e menções em horário nobre.
Em 2025, a parceria se aprofundou com a criação das
"Willimpíadas", um quadro de competição gamificada exibido em quatro
episódios (outubro e novembro), que distribuiu R$ 1 milhão em prêmio e
mobilizou mais de 200 mil inscritos de 99 cidades. A produção envolveu um
estúdio de mil metros quadrados, 18 câmeras e foi uma cocriação entre Will
Bank, a agência Monkey-Land, a própria Globo e a produtora Endemol Shine Brasil
— configurando muito mais que uma simples compra de espaço publicitário: era
uma operação conjunta de conteúdo e marca.
Mas a relação entre Huck e Vorcaro ia além do
contrato publicitário. Mensagens apreendidas pela PF no celular do banqueiro
revelam que, em 28 de outubro de 2024, Vorcaro escreveu à ex-noiva Martha
Graeff: "To saindo banco e indo pra jantar com Luciano Huck". Naquela
altura, o Master já enfrentava graves problemas de liquidez. Segundo apurações
da Folha de S.Paulo e do Metrópoles, Huck chegou a negociar a compra do Will
Bank ao lado da gestora EB Capital, em uma tentativa de Vorcaro de aliviar a
crise antes da intervenção regulatória. A negociação não se concretizou. Em
janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will
Financeira, sepultando a instituição que meses antes brilhava no horário nobre.
A provocação de Flávio Bolsonaro levanta uma questão
que, até então, ficava fora do noticiário da própria Globo: se a emissora e seu
principal apresentador tinham relações comerciais, publicitárias e até negociais
com o grupo de Vorcaro, qual a autoridade moral para cobrar exclusivamente o
senador pela mesma proximidade? O argumento não elimina as responsabilidades de
Flávio — que admitiu ter negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o
filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro —, mas insere a emissora no mesmo
ecossistema de relações com o banqueiro que ela investiga.
A resposta dos jornalistas foi esquivar-se do ponto
levantado pelo senador e manter a pressão sobre os áudios revelados pelo
Intercept Brasil. A Globo não se pronunciou publicamente sobre os valores
citados por Flávio nem sobre a extensão de seus contratos com o grupo
Master/Will Bank. Até o momento, nenhuma reportagem da emissora abordou com a
mesma profundidade os vínculos de Luciano Huck e da própria empresa com Vorcaro
— um silêncio editorial que, no mínimo, suscita debate sobre isenção
jornalística.
⚠️ Nota de transparência: As informações sobre o
contrato de Huck com o Will Bank, as Willimpíadas, as negociações de compra e a
liquidação pelo Banco Central foram publicadas por veículos como Folha de
S.Paulo, Metrópoles, Brasil 247, Revista Fórum, Jornal Opção e Diário do Centro
do Mundo, além do próprio G1. O valor de R$ 160 milhões citado por Flávio
Bolsonaro ao vivo na GloboNews não foi contestado pela emissora durante a
entrevista.

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