Fernando Azevêdo
Repórter
O Rio Grande do Norte acumulou R$ 9,17 bilhões em
prejuízos causados por desastres entre 2013 e 2025. Desse total, apenas 4,3%
(R$ 398,71 milhões, em valores corrigidos pela inflação) foram cobertos por
transferências da União destinadas à contenção dos danos, segundo levantamento
da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), publicado nesta semana. No
período, o RN foi o quarto estado com mais decretos de emergência por seca e
estiagem, somando 3.360 registros. Os maiores impactos ocorreram no setor
privado (R$ 4,81 bilhões), seguido pelo setor público (R$ 4,29 bilhões) e pela
área habitacional (R$ 67 milhões). O Governo do Estado afirma adotar ações
estruturantes para reduzir os danos.
No cenário nacional, entre janeiro de 2013 e
dezembro de 2025, o Brasil registrou 74.745 decretos de Situação de Emergência
ou Estado de Calamidade Pública, sendo 4.830 no RN. Segundo a CNM, os desastres
causaram R$ 785,4 bilhões em prejuízos no país, enquanto a União repassou
apenas 1,2% desse valor (R$ 9,5 bilhões) para ações de proteção e defesa civil
nos municípios.
Os setores mais afetados nacionalmente foram
agricultura (R$ 356,6 bilhões), pecuária (R$ 107,5 bilhões) e instalações
públicas de saúde (R$ 86,1 bilhões). Para a CNM, os prejuízos reais podem ser
ainda maiores devido às dificuldades dos gestores locais em contabilizar todas
as perdas.
Dos municípios cadastrados no Sistema Integrado de
Informações sobre Desastres (S2iD), apenas 2.490 informaram prejuízos
financeiros, enquanto os demais priorizaram registros de danos humanos. Segundo
dados atualizados da Defesa Civil do RN, 114 municípios potiguares têm situação
de emergência reconhecida por seca e estiagem. Além disso, a Operação
Carro-Pipa atende 91 cidades e beneficia 90.286 pessoas.
Todos os 167 municípios potiguares registraram algum
desastre nos últimos 13 anos. Segundo o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski,
além da escassez hídrica e do excesso de chuvas, o estado enfrenta incêndios
florestais, erosões, inundações, tempestades, rompimentos de barragens,
colapsos de edificações e derramamentos de produtos perigosos. Ele explica que
a decretação de emergência é o principal mecanismo utilizado pelos municípios
para solicitar apoio dos governos estadual e federal.
O estudo da CNM reúne informações do Sistema
Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do Ministério da Integração e
do Desenvolvimento Regional (MIDR) e dos registros oficiais das defesas civis
municipais e estaduais.
Os dados incluem decretos de emergência, danos
humanos, prejuízos econômicos e setores afetados. Os valores referentes aos
anos anteriores foram corrigidos para preços de 2025 com base no Índice
Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), permitindo comparações ao longo
do período.
A reportagem procurou a Secretaria de Comunicação
Social do governo federal para esclarecer por que os repasses cobrem apenas
4,3% dos prejuízos registrados no RN e quais ministérios participam dessas
transferências, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.
Nordeste teve 21,9 mil decretos de seca
A seca e a estiagem (30 mil registros) e o excesso
de chuvas (22,8 mil) foram os desastres que mais afetaram os municípios
brasileiros entre 2013 e 2025. Juntos, provocaram R$ 458,3 bilhões em
prejuízos, o equivalente a 58,4% dos danos financeiros registrados no período.
A região Nordeste concentra 73% dos decretos relacionados à seca, com 21,9 mil
registros. A Paraíba lidera o ranking nacional, com 4.664 notificações, seguida
pela Bahia, com 4.161. O RN contabilizou 3.360 decretos por seca e estiagem e 247
por excesso de chuvas. Ao todo, 19,5 milhões de pessoas foram afetadas, segundo
a CNM.
O estado registrou 14 mortes, 5.839 desabrigados e
20.145 desalojados. “O fato de o RN ser o quarto estado com mais decretos por
seca e estiagem significa que demanda ações prioritárias para convivência com a
seca e adaptação climática”, afirma Ziulkoski.
A CNM destaca que os desastres podem ocorrer de
forma súbita, como inundações, enxurradas e movimentos de massa, ou de maneira
gradual, como a seca e a estiagem, cujos efeitos comprometem o abastecimento de
água, a agricultura e a pecuária ao longo do tempo.
Cenário no RN
Segundo o tenente-coronel Alexandre Fonsêca,
coordenador da Defesa Civil Estadual, os municípios decretam situação de
emergência e recebem acompanhamento técnico do órgão. “Esse decreto, após o
reconhecimento federal, permite acesso às políticas públicas do governo federal
para dar resposta à situação de emergência, que pode ser por seca ou estiagem”,
explica.
O Estado publicou decretos reconhecendo a situação
de emergência por seca em outubro de 2025, abrangendo 147 municípios, e em 1º
de abril deste ano, alcançando 166 cidades, exceto Natal.
Fonsêca lembra que, em abril de 2025, a governadora
Fátima Bezerra (PT) criou um grupo de trabalho para monitorar a seca, reunindo
diversas secretarias estaduais. O governo já acompanhava os prejuízos causados
à agricultura.
A Defesa Civil analisou pareceres técnicos de cada
pasta para fundamentar a decretação, medida que também permite contratações
emergenciais e ações por dispensa de licitação, quando necessário. “Cada
secretaria adotou medidas para mitigar os danos, como perfuração de poços,
ampliação da produção de feno e palma forrageira, além de ações estruturantes,
como a contratação da Adutora do Agreste, o Projeto Seridó, o sistema adutor
Apodi-Mossoró e a manutenção dos açudes”, detalha. O decreto também ampliou a
Operação Carro-Pipa e permitiu a distribuição de cestas básicas em 114
municípios.
Impacto nos custos e na produtividade
Na última década, o setor rural sofreu fortemente os
impactos econômicos das secas e estiagens. Para a Federação da Agricultura,
Pecuária e Pesca do RN (Faern), os prejuízos refletem perdas recorrentes e a
elevada vulnerabilidade climática dos produtores. “No semiárido, onde a seca e
a estiagem são recorrentes, esses impactos aparecem na redução da
produtividade, na perda de pastagens, no aumento dos custos com alimentação
animal, na quebra de safras e na necessidade frequente de reorganizar a
produção”, afirma a entidade.
O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais
Agricultores e Agricultoras Familiares do RN (Fetarn), Erivam do Carmo, avalia
que a situação aumenta a vulnerabilidade das famílias rurais e dificulta sua
permanência no campo. Segundo ele, medidas emergenciais de crédito têm chegado
aos produtores, mas são necessárias políticas permanentes. “Defendemos
políticas estruturantes para essa situação, que sejam políticas de Estado e não
apenas de governo. Há várias alternativas: cisternas de placas, calçadão,
poços, barragens, limpeza de barreiro e assistência técnica”, afirma.
A Faern destaca que os produtores demonstram
capacidade de adaptação e resiliência, mas reforça a necessidade de fortalecer
mecanismos permanentes de convivência com o semiárido. “Muitas vezes, o ciclo
da perda acontece antes da chegada do apoio, seja pela demora no reconhecimento
formal da emergência, seja pela burocracia operacional ou pelas restrições de
acesso enfrentadas pelos produtores”, acrescenta a entidade.
Governo aposta em obras para segurança
hídrica
O coordenador da Assessoria Técnica da Secretaria
Estadual de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh-RN), Carlos Nobre,
afirma que o Governo do Estado implantou, desde 2019, uma política de
convivência com o semiárido baseada em dois eixos: reservar e distribuir
recursos hídricos. “A seca sempre vai existir no Rio Grande do Norte e temos
que conviver com ela”, afirma. Segundo ele, a Semarh executa um programa de
recuperação de 28 barragens, já em fase final na maioria dos reservatórios.
Outro destaque é a Barragem de Oiticica, considerada
estratégica para ampliar a segurança hídrica do Seridó e fortalecer os sistemas
adutores da região. “Oiticica tem importância tanto para o abastecimento da
população quanto para as atividades econômicas do entorno”, ressalta.
Na área de distribuição, o Projeto Seridó, em fase
de conclusão, também integra as ações voltadas à segurança hídrica. O Estado
investe ainda na perfuração de poços e instalação de dessalinizadores. “As
ações estruturantes são pensadas não apenas para o abastecimento humano, mas
também para o setor produtivo, incluindo irrigação, agricultura familiar,
pecuária e carcinicultura”, afirma.

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