sábado, 30 de maio de 2026

PIB per capita: Brasil cresce menos e amplia distância de países

 


O Brasil vive um momento de economia aquecida, com desemprego em níveis historicamente baixos e atividade forte em diversos setores.

O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil avançou 1,1% no primeiro trimestre deste ano, por exemplo. O resultado foi divulgado nesta sexta-feira (29) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pode fazer o país retomar a posição de 10ª maior economia do mundo em 2026.

No entanto, quando a comparação é feita com o restante do mundo, surge um alerta preocupante: a renda produzida por cada brasileiro cresce em ritmo bem menor do que o observado em outras economias.

O indicador utilizado para medir esse atraso é o PIB per capita, que representa o valor de tudo que o país produz em um ano dividido pelo número de habitantes.

Embora não reflita o ganho real de cada cidadão, ele revela o tamanho da economia em relação à população e é uma das medidas mais utilizadas para comparar países. Quando cresce, em geral, significa mais emprego, consumo e qualidade de vida.

 Brasil fica para trás em décadas de comparação global

Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global subiu de cerca de US$ 3.300 para pouco mais de US$ 26.000. No mesmo período, o Brasil teve um avanço mais tímido: passou de US$ 4.400 para US$ 23.300, segundo dados do FMI (Fundo Monetário Internacional).

"O que chama a atenção é que a gente cresce menos do que os países desenvolvidos. A lógica seria o Brasil crescer mais do que os Estados Unidos, por exemplo. A gente está mais atrás e tem mais espaço para crescer e alcançar o nível que eles estão", destacou Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper.

Um estudo do economista-chefe da MB Investimentos, Sérgio Vale, aponta uma quebra no ritmo de crescimento do Brasil justamente a partir dos anos 1980.

Segundo ele, "isso muito se explica naquele momento, nos anos 80, pela crise que a gente viveu do final da ditadura, todo momento de troca de um crescimento dependente de investimento de empréstimos externos, com aumento de juros na economia americana".

Vale acrescentou que o país "fez uma opção por um tipo de crescimento que não se sustentava" e que, junto com isso, veio a hiperinflação.

"Quando a gente sai desse processo, a gente ainda está numa dificuldade de resgatar um crescimento mais sustentável da economia brasileira. A gente fica muito naquele conhecido voo de galinha", afirmou.

Desequilíbrio fiscal e baixa produtividade como causas estruturais

Economistas são praticamente unânimes sobre as causas dessa disparidade: baixa produtividade, pouco investimento e um ambiente tributário ainda muito complexo.

A desvantagem do Brasil ficou ainda mais evidente em 2015, quando o país enfrentou uma recessão severa. Entre 2015 e 2016, o PIB nacional caiu 3% em cada um dos anos.

Esses números refletem o desequilíbrio das contas públicas: quando o governo injeta muito dinheiro na economia, pressiona a demanda e os preços, impulsionando a inflação.

Zeina Latif, economista e sócia-diretora da Gibraltar, ressaltou que a falta de previsibilidade afeta diretamente as decisões de investimento e o cotidiano das pessoas.

"As pessoas ficam receosas, às vezes, de fazer algum plano, ainda mais nesse contexto atual de elevado endividamento. É difícil você se planejar no Brasil", disse.

Os economistas ouvidos pela reportagem ressaltam que a intervenção excessiva do Estado na economia abre a porta para mais corrupção, ao criar benefícios seletivos que desvirtuam a política econômica.

Caminhos para superar o atraso

Segundo os especialistas, a lição que se tira das economias que ficam à frente do Brasil é que superar a faixa da renda média exigiu investimento em capital humano — ou seja, em educação —, além de reformas estruturais, melhor gestão do dinheiro público e um ambiente regulatório mais sólido.

"A agenda de ajuste fiscal é muito importante. Não é só porque precisa conter o crescimento da dívida pública, mas a gente precisa ter um resgate da capacidade de ação estatal", afirmou Zeina.

Sérgio Vale defende que o país precisa de "uma consolidação fiscal maior na economia brasileira, uma continuidade das reformas econômicas, uma aposta maior em investimento na população mais jovem, na população infantil especialmente", passando também por "investimento mais pesado em educação".

O economista ainda destacou que os países com forte crescimento econômico foram aqueles que se abriram com mais intensidade para o mundo, sugerindo que a abertura comercial é um elemento fundamental para que o Brasil possa avançar em produtividade e, consequentemente, no desempenho do PIB per capita.



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