quinta-feira, 14 de maio de 2026

Opinião do Estadão: Lula brinca com coisa séria

 


A cinco meses da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter intuído que era urgente apresentar ao País alguma ação na área de segurança pública, nem que fosse uma gambiarra. Eis que surge o programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, lançado com pompa pelo presidente da República, anteontem, como se fosse o marco inaugural de uma robusta política nacional de combate às facções criminosas, ao tráfico de armas e à barbárie no sistema penitenciário.

Por si só, a ocasião para o lançamento do “Brasil Contra o Crime Organizado”, às vésperas da campanha eleitoral, bastaria para provar que o programa não foi escrito para ser levado a sério. Mas seu vezo marqueteiro também não disfarça o horizonte de curtíssimo prazo. Não se trata de uma política de Estado, cuja continuidade a despeito do resultado das urnas é presumível. A rigor, não se pode dizer nem que seja uma política de governo – ao menos não de um governo responsável. Longe de ser uma política de segurança, trata-se efetivamente de uma peça de marketing idealizada para render dividendos eleitorais numa seara pela qual nem Lula nem o PT jamais demonstraram ter interesse genuíno.

Lula quer provar aos eleitores que enfim acordou para a aflição de milhões de brasileiros que convivem diariamente com medo de serem vítimas da violência. Para isso, garatujou no papel timbrado da Presidência um punhado de boas intenções – asfixia financeira das organizações criminosas, fortalecimento da segurança prisional, qualificação das investigações policiais e combate ao tráfico de armas –, como se isso bastasse para restabelecer nos brasileiros a confiança de que o Estado finalmente vai atuar para enfrentar os criminosos que os aterrorizam. É com esse sentimento legítimo de seus concidadãos que Lula está brincando.

Não se improvisa em segurança pública. Não se inventa às pressas um programa que claramente tem um prazo de validade: a eleição. É de uma obviedade ululante o fato de que nenhuma das medidas anunciadas por Lula, objetos de um decreto e de meia dúzia de portarias, terá tempo de sequer ser devidamente implementada neste mandato, que dirá de gerar resultados. Mesmo as ações mais simples exigem coordenação entre entes federativos, forças policiais, Ministério Público e Poder Judiciário. Não há notícia de que o presidente tenha liderado essa integração prévia.

O “Brasil Contra o Crime Organizado” é tão falacioso que uma de suas principais medidas é igualar o regime de encarceramento dos 138 presídios estaduais ao das cinco penitenciárias federais. Ora, nem todo cárcere precisa ser de segurança máxima. Ademais, reformas estruturais no sistema penitenciário levam anos, senão décadas.

Por sua vez, o aprimoramento das investigações policiais depende de formação, investimentos em tecnologia e inteligência e coordenação federativa permanente. A asfixia das finanças do crime organizado depende ainda de uma capacidade operacional que os governos – federal e estaduais – historicamente não demonstraram ter. Contam-se nos dedos os casos bem-sucedidos.

O medo da violência tornou-se uma das principais preocupações dos cidadãos, como atestam várias pesquisas de opinião. E, como a campanha eleitoral se avizinha, os marqueteiros do Palácio do Planalto entenderam que era preciso fabricar algum discurso para que Lula pudesse se expor nos palanques e nos debates com seus adversários.

A precariedade do programa também aparece no seu modelo de financiamento. Dos R$ 11 bilhões anunciados, apenas R$ 1 bilhão virá do Orçamento da União. O restante dependerá de empréstimos do BNDES a eventuais Estados e municípios interessados em aderir ao “Brasil Contra o Crime Organizado” – alguns já encalacrados há anos por dívidas monumentais, como é o caso do Rio de Janeiro, berço do Comando Vermelho.

Governar é fazer escolhas responsáveis. Se a segurança pública fosse mesmo central para o governo, Lula deveria ter submetido a debate parlamentar um remanejamento orçamentário para esse fim. Em vez disso, o demiurgo recorreu mais uma vez a expedientes parafiscais. Assim é fácil.

Opinião do Estadão

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vorcaro queria lucrar com filme sobre Bolsonaro

  O empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, pretendia lucrar com a produção do filme Dark Horse,  obra que retrata a trajetória p...