segunda-feira, 11 de maio de 2026

Opinião do Estadão: Brincando com fogo

 


O governo Lula não se emenda. Mal anunciou uma nova edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas para consumidores inadimplentes, ou seja, com contas em atraso entre três meses e dois anos, o Executivo já se prepara para lançar uma nova etapa da iniciativa. O foco serão os clientes que honram seus compromissos em dia, mas que estão com o orçamento apertado, além de trabalhadores informais. A proposta, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve sair até o início de junho, quatro meses antes da disputa presidencial.

Se alguém ainda desconfiava do caráter eleitoreiro do Desenrola, o Executivo não deixou qualquer espaço para dúvidas. Nada mais sintomático do desespero de um governo do que um programa que se dispõe a renegociar a dívida de quem consegue pagá-la em dia. Na avaliação de Durigan, será um “estímulo” para que eles continuem adimplentes.

Não se discute a eventual dificuldade que as pessoas tenham para honrar seus débitos, mas o fato é que há um incentivo tácito para que não o façam. Quem paga as contas em dia tem toda a razão de se sentir ludibriado. Afinal, o socorro público sempre vem, especialmente quando as pesquisas indicam que o incumbente está em maus lençóis.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, rasgou a fantasia em entrevista ao Estadão/Broadcast. Segundo ele, a depender da política pública, “não necessariamente precisa ter um corte de renda”. E acrescentou: “Queremos ter a sensação de que fizemos algo para todo mundo, com razoabilidade e técnica”.

Não se trata de exclusividade do lulopetismo. Em 2022, quando disputou a reeleição e também estava mal posicionado nas pesquisas, o então presidente, Jair Bolsonaro, por meio de medida provisória, autorizou beneficiários do Bolsa Família, à época chamado de Auxílio Brasil, e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a tomarem empréstimos consignados, elevou a margem de comprometimento da renda de aposentados e pensionistas com essas operações e perdoou as dívidas de universitários com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Estudantes, mais uma vez, são um dos principais públicos da segunda etapa do Desenrola, assim como micro e pequenos empreendedores e agricultores familiares. A lógica das renegociações é a mesma, o que muda são apenas a forma e, às vezes, o público. Como bem disse a ex-presidente Dilma Rousseff, o governo faz “o diabo” quando está próximo da eleição.

O problema é que a conta sempre chega, e os recordes em índices de endividamento e inadimplência registrados neste ano já deveriam ter ensinado algo aos governantes. Socorros não passam de soluções paliativas para um problema maior e complexo: o excesso de gastos do governo, que impede a redução estrutural dos juros, única maneira de tornar as taxas de empréstimos mais acessíveis para a população consumir e o setor privado investir.

Não é de hoje que o Banco Central (BC) alerta, reunião após reunião, que a falta de reformas estruturais, políticas de crédito direcionado e o comportamento da dívida pública elevam a taxa de juros neutra da economia, reduzem a potência da política monetária e aumentam o custo da desinflação. Não é preciso ser um economista para saber que todas essas iniciativas que o governo tem anunciado aumentarão o endividamento público e contribuirão para manter a inflação pressionada e acima do centro da meta.

Em outras palavras, ao tentar baixar os juros na marra, o Executivo boicota ativamente o trabalho do Banco Central, que é, basicamente, perseguir a meta de inflação que o próprio governo definiu por meio do Conselho Monetário Nacional (CMN), no qual, inclusive, tem maioria de votos.

A equipe econômica, por sua vez, está em negação e prefere culpar o termômetro – e não a doença – pela febre alta. A despeito da inegável escalada da dívida pública ao longo do governo petista, tanto Durigan quanto Ceron atribuem a responsabilidade à Selic e descartam a necessidade de um choque fiscal em 2027. No fundo, o governo dá o exemplo, e a leniência que demonstra ter com os encalacrados é a mesma que tem consigo mesmo.

Opinião do Estadão

 

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