O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende
adiar o lançamento oficial de sua pré-candidatura à reeleição até enxergar um
cenário mais favorável para si e para o governo. O cálculo político ocorre em
um momento em que o próprio chefe do Executivo passou a cobrar uma atuação mais
incisiva do PT na preparação da disputa de 2026. Segundo auxiliares, Lula
espera maior mobilização e iniciativa da legenda no esforço pré-eleitoral.
Em 2022, a pré-candidatura do petista foi lançada em
7 de maio. Neste ano, porém, em meio a especulações rechaçadas por aliados de
que Lula pode não se candidatar novamente, interlocutores do partido também
rejeitam a avaliação de atraso. Eles argumentam que, diferentemente da eleição
passada, Lula está na Presidência e dispõe da estrutura do governo, o que
reduziria a necessidade de antecipar movimentos eleitorais. Nos bastidores, a
leitura é de que não há pressa, mas sim a busca pelo “timing” político mais
adequado.
Apesar disso, parte do entorno do presidente
demonstra incômodo com o ritmo adotado pelo PT. Integrantes próximos a Lula
avaliam que o partido demorou a reagir ao avanço do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), apontado como o principal adversário do presidente neste momento.
Também há críticas à baixa mobilização da militância, considerada aquém do
esperado por aliados.
Para tentar reverter esse cenário, o PT prepara uma
ofensiva nacional de mobilização em defesa da reeleição de Lula, prevista para
ser lançada nos próximos 15 dias. A iniciativa terá como mote “levar a verdade
às ruas” e buscará destacar ações e resultados do governo federal.
A estratégia já vinha sendo estimulada entre militantes
e apoiadores, sobretudo nas redes sociais, mas agora deve ganhar escala
nacional. A previsão é que o ato de lançamento da mobilização, que já reúne
cerca de 10 mil inscritos, seja em Brasília.
A agenda será voltada a parlamentares,
pré-candidatos e integrantes da pré-campanha, com o objetivo de estruturar uma
rede de divulgação das ações do governo Lula. A partir disso, deverão ser
definidos comandos de mobilização para militantes e apoiadores. Entre as ações
previstas estão visitas a obras federais para apresentar resultados da gestão e
comparações de indicadores econômicos e sociais com o governo do ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL). Na visão de Lula, é preciso intensificar esse discurso
junto ao eleitorado.
Dentro do governo, a percepção é de que medidas vêm
sendo tomadas para recuperar a aprovação do presidente, mas que o PT ainda não
conseguiu engrenar plenamente a pré-campanha. Auxiliares avaliam que a legenda
demorou a intensificar ataques a Flávio Bolsonaro, mesmo diante do crescimento
do senador nas pesquisas. Embora esse movimento tenha aumentado nos últimos
dois meses, persiste a avaliação de que ministros e integrantes do Palácio do
Planalto poderiam se engajar mais diretamente na articulação eleitoral.
Mesmo mantendo conversas frequentes com o presidente
do PT, Edinho Silva, Lula prefere fazer cobranças pontuais e deixar sob
responsabilidade do partido a condução dos movimentos políticos, enquanto
mantém o foco na agenda de governo. A interlocutores, o presidente afirma que a
estratégia precisa ser coordenada e evitar iniciativas dispersas.
O sentimento foi explicitado em um vídeo gravado por
Lula e exibido na abertura do 8º Congresso Nacional do PT. Na mensagem, o
presidente pediu que os militantes “levantem do sofá” para ter contato direto
com os eleitores. Também defendeu que o partido apresente propostas “sérias” e
“factíveis”.
Enquanto persiste a avaliação de que o PT ainda
carece de maior combatividade, Lula tenta ampliar as frentes de atuação para
melhorar seu momento político. O encontro entre o chefe do Executivo brasileiro
e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é visto por auxiliares como
uma dessas oportunidades para enaltecer a soberania nacional e melhorar a popularidade.
Rodrigo Prando, cientista político e professor da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que uma postergação do anúncio da
pré-candidatura não deve ter impacto negativo para a campanha, especialmente
após a rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). “O
governo está em um momento ruim. Embora a economia não esteja tão ruim quanto a
oposição gostaria que estivesse, o governo precisa melhorar bastante a sua
articulação. Acho que o momento é esse, de esperar um pouquinho e postergar”,
disse o cientista político.
Para ele, “se tem alguém que entende de tempo, de
‘timing’ político, é o Lula”. “Claro que não é infalível, porque já houve
derrotas, mas me parece uma decisão acertada”, comentou.
“Acredito que existe uma expectativa de que a
situação melhore para ele [Lula], ou seja, há um esforço, uma estratégia de
diminuir, quem sabe, a sua desaprovação e, ao mesmo tempo, de desgastar Flávio
Bolsonaro.”
Valor

Nenhum comentário:
Postar um comentário